Não é moda, é saúde: o impacto da doença celíaca na vida social
Entre o diagnóstico, o medo da contaminação e a falta de informação, viver com doença celíaca implica muito mais do que retirar o glúten do prato: exige adaptar rotinas, relações e momentos de convívio.
Por: Eva Reis (aluna do 1º ano de Comunicação Social)
Foto: Imagem gerada por IA
Beatriz Calado estava no período da adolescência quando ouviu pela primeira vez o diagnóstico que viria a alterar a sua relação com a comida, com os espaços de convívio e até com a forma de sair de casa. Até então, entrava em cafés e restaurantes sem pensar duas vezes. Depois, passou a ler rótulos durante horas, a procurar informação na internet e a medir cada refeição pelo risco de contacto com glúten. O primeiro impacto “foi duvidoso e difícil”, recorda. De um dia para o outro, a alimentação deixou de ser um gesto automático e passou a exigir vigilância permanente.
A história de Beatriz serve de entrada para uma realidade que muitas vezes fica escondida por detrás da expressão “dieta sem glúten”. Para quem tem doença celíaca, excluir o glúten não é uma preferência alimentar nem uma moda, é uma necessidade de saúde. No primeiro ano após o diagnóstico, evitou restaurantes, cafés e outros estabelecimentos, não apenas por falta de opções, mas pelo receio da contaminação cruzada. O que antes parecia simples, comer fora, viajar, ir a uma festa, passou a implicar perguntas, pesquisas e atenção constante.
O problema, explica, não está apenas nos alimentos que contêm glúten, mas também nos utensílios, superfícies e preparações que podem entrar em contacto com ele. A Associação Portuguesa de Celíacos (APC) alerta que o contacto cruzado pode tornar perigoso um alimento que, à partida, seria seguro, mesmo quando a quantidade de glúten é muito pequena. Por isso, a jovem identifica a contaminação como o maior desafio do seu dia a dia, tanto fora de casa como em casas de pessoas próximas.
Nas relações sociais, a doença torna-se ainda mais visível. A entrevistada admite que já se sentiu incompreendida porque há quem continue a associar a exclusão do glúten a uma escolha pessoal, “excluímos por necessidade, não por opção”, afirma. A frase resume uma das dificuldades repetidas pelos entrevistados, a falta de conhecimento transforma uma condição médica numa realidade que precisa de ser constantemente justificada.
Daniel Calhas, companheiro de Beatriz, também teve de aprender essa vigilância. Quando soube que ela era celíaca, sentiu-se assustado por desconhecer a doença e o que esta provocava no corpo. Hoje, diz que a relação não mudou de forma drástica, mas exige cuidados, nos restaurantes, procura confirmar se a refeição é segura e se não há risco de contaminação. Recorda ainda uma festa de aniversário em que a companheira não tinha comida sem glúten disponível nem garantias de segurança alimentar. Um momento de convívio transformou-se, assim, numa experiência de exclusão.
João Santana vive a doença de outra forma, diagnosticado ainda em bebé, não guarda memória de uma vida antes da doença celíaca. Para ele, crescer sem glúten foi sempre o normal. “Não mudou nada”, diz, explicando que a dieta já faz parte da sua rotina. O contraste com Beatriz mostra como o momento do diagnóstico muda a experiência, enquanto ela teve de reaprender hábitos na juventude, João aprendeu desde cedo a procurar alternativas e a olhar para a alimentação como uma adaptação natural.
Essa naturalidade não significa ausência de desafios. João reconhece que festas de aniversário podem marcar alguma diferença, sobretudo na infância, e que as viagens continuam a exigir planeamento, dependendo do país ou do lugar, encontrar alimentação segura pode tornar-se mais difícil. Ainda assim, não descreve a doença como um limite, pois viver sem glúten significa comer de outra forma, recorrer a alternativas e beneficiar da maior variedade que hoje existe nos supermercados. No futuro, gostava de ver ainda mais opções e preços mais acessíveis.
As lembranças de Alexandra Gameiro, mãe de João, ajudam a perceber o que ficou antes dessa normalidade. Há cerca de 19 anos, quando recebeu o diagnóstico do filho, sentiu “um misto de emoções”, mas também o fim de uma fase de desconhecimento. A frase do médico ficou-lhe gravada , era “a melhor das piores doenças”, a partir daí, toda a dinâmica familiar mudou, os convívios, as festas, as tradições e a cozinha da casa tiveram de ser repensados para que a dieta fosse segura.
Na altura, recorda Alexandra, havia menos informação, menos produtos equivalentes e menos preparação social. A família teve de estudar, experimentar e mudar rotinas alimentares, dessa adaptação nasceu também o livro “100% Sem Glúten”, escrito para ajudar outras pessoas a encontrar receitas e soluções.

Hoje, reconhece progressos nas escolas, nos supermercados e em alguns restaurantes, mas defende que ainda falta formação, por exemplo, as ementas de restaurantes e cantinas deviam identificar claramente os alergénios, e os trabalhadores deviam conhecer melhor temas como glúten, lactose e contaminação cruzada.
Entre Beatriz, João e Alexandra, a doença celíaca surge como uma realidade feita de tempos diferentes, o choque de quem descobre tarde, a normalidade de quem cresce com ela e o esforço de uma família que teve de aprender quando quase não havia respostas. A legislação portuguesa já prevê informação sobre alergénios, incluindo cereais com glúten, mas os testemunhos mostram que as regras só fazem diferença quando são compreendidas e aplicadas.
Viver sem glúten é planear, perguntar e confiar que os outros sabem o que está em causa. Para quem tem esta condição, uma migalha não é um detalhe, pode ser a diferença entre participar com segurança ou ficar de fora.
