Ficar ou partir: o dilema dos jovens do interior e a história de um presidente de junta na primeira pessoa

A dificuldade de fixação dos jovens no interior de Portugal é um dos maiores desafios das regiões afastadas dos grandes centros urbanos. A falta de ofertas de emprego atrativa, de habitação acessível, de transportes e de oportunidades de formação leva muitos jovens a partir em busca de um futuro mais promissor nas grandes cidades.

Por: Afonso Morais (aluno do 2º ano de Comunicação Social)

Foto: Facebook da Junta de Freguesia de São Gião

            Durante anos, o interior tem enfrentado uma perda constante de população jovem. Apesar da qualidade de vida, da tranquilidade e da proximidade entre as pessoas, muitas localidades não conseguem oferecer as condições necessárias para que os jovens construam o seu percurso profissional e pessoal. Para muitos, permanecer na sua terra natal significa limitar as suas escolhas ou alterar o seu percurso de vida.

            É o caso de Rafael Dias, Presidente da Junta de Freguesia de São Gião, que, após concluir o curso na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, regressou à sua terra natal com a intenção de assumir a presidência da freguesia e implementar novas ideias.

            “Quis voltar para São Gião porque gosto de viver devagar, com um recanto bucólico sempre no horizonte”, refere o autarca de 27 anos, que regressou a São Gião em 2021 e, nesse mesmo ano, foi eleito Presidente da Junta de Freguesia, tornando-se assim o presidente de junta mais jovem do país.

            Rafael Dias revela uma grande preocupação com a crise habitacional no interior do país e não isenta de responsabilidades as grandes entidades políticas nacionais.

“Há um grande desprezo por parte das grandes instituições governamentais por esta zona do país, gerando uma crise no mercado da habitação que leva à concentração de dois terços da população em apenas um terço do território”

            Além disso, problemas como a escassez de transportes públicos, a distância até aos serviços de saúde e a menor oferta cultural contribuem para tornar o interior menos atrativo para as novas gerações. Estes fatores fazem com que muitos jovens considerem as cidades locais com mais possibilidades para construir uma vida independente e com maior diversidade de oportunidades.

            É o caso de Bernardo Martins, estudante do curso de Desporto no Instituto Politécnico da Guarda, que considera que a oferta de emprego existente nas proximidades de São Gião não é suficientemente atrativa, demonstrando alguma relutância em regressar à sua terra natal: “Por muito que goste de São Gião, tenho de ser racional e colocar o meu futuro acima do amor pela minha terra”, afirma o jovem estudante, que vê nas oportunidades de emprego o principal obstáculo à sua fixação no interior rural do país.

            Nos últimos anos, algumas regiões do interior têm procurado tornar-se mais atrativas para as novas gerações através da criação de projetos locais, da valorização dos recursos naturais e do incentivo à criação de negócios próprios. Contudo, muitos jovens continuam a defender que são necessárias mudanças mais profundas, como a criação de empregos estáveis e a melhoria dos serviços públicos, para que permanecer no interior deixe de ser uma escolha difícil e passe a ser uma opção viável.

            Cada jovem que sai e não regressa representa uma oportunidade perdida para renovar comunidades e preservar tradições construídas ao longo de gerações. O desafio passa por transformar o interior num lugar onde os sonhos não precisem de partir para poderem crescer e onde as novas gerações possam construir o seu caminho sem abandonarem as suas raízes.

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