Quebrar barreiras: Desafios e superação no desporto adaptado

Numa época em que o desporto é uma atividade cada vez mais valorizada pela sociedade, surgem questões de como são superados os vários desafios pelas pessoas com limitações que querem praticá-lo. Apesar de o desporto ser reconhecido como uma ferramenta de inclusão e, sobretudo, bastante importante na promoção de saúde, muitas pessoas com deficiência têm dificuldades de acesso à prática desportiva, que continua a ser marcada por desafios como a escassez de recursos e a falta de oportunidades.

Reportagem de Ângela Pais e Francisca Costa

Mário Trindade

Em Viseu, a Câmara Municipal visa fomentar e promover a atividade física para uma cidade saudável com a criação do plano “Viseu Ativo” que pretende envolver toda a comunidade com o objetivo de tornar os viseenses mais ativos e saudáveis. Ao nível do desporto adaptado foram realizados em 2023 e 2024 os “Jogos Desportivos de Viseu” que continham modalidades de desporto inclusivo como andebol em cadeira de rodas, boccia, polybat e goalball para atletas com deficiências motoras ou deficiência visual e/ou baixa visão. Assim, o município viseense pretende continuar a investir na criação de oportunidades tanto ao nível das instalações desportivas e espaços promotores de atividade física, como na criação de programas e projetos desportivos.

A Invictus Viseu, Associação Desportiva, Recreativa e Cultural sem fins lucrativos focada na promoção do desporto inclusivo, trabalha em parceria com o Município de Viseu. Em 2026 esta associação deu início ao projeto-piloto “Victus na Comunidade”, iniciativa orientada para a promoção da literacia na educação desportiva inclusiva, com o apoio do Programa Nacional de Desporto para Todos, dinamizado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Este projeto, dirigido à comunidade escolar do concelho de Viseu, utiliza o desporto adaptado como meio para promover a inclusão, a igualdade e a participação de todos com sessões de sensibilização, colaboração com os estabelecimentos de ensino e o envolvimento direto das famílias, com o objetivo de eliminar obstáculos à prática desportiva, aumentando o conhecimento sobre o desporto inclusivo e criando mais oportunidades de acesso às modalidades adaptadas.

Nos últimos anos, a visibilidade para o desporto adaptado tem aumentado, impulsionada pelo sucesso de atletas paralímpicos e por uma maior sensibilização da sociedade para a importância da inclusão. Apesar destes progressos, persistem desigualdades que limitam a participação regular de muitas pessoas com deficiência em atividades desportivas, tanto a nível recreativo como competitivo.

Mário Trindade, atleta paralímpico medalhado, nasceu uma pessoa saudável, mas aos 18 anos, depois de uma cirurgia à coluna, ficou paraplégico. Após esse acontecimento, teve a oportunidade de ingressar no mundo do desporto. O seu primeiro contacto com o desporto adaptado foi o basquetebol que praticou durante 10 anos.

Em 2003, Mário Trindade descobriu que poderia praticar atletismo, desporto que antes da operação já praticava. Praticou atletismo durante 20 anos e teve a oportunidade de participar nos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro em 2016, entre muitas outras competições como Campeonatos do Mundo e da Europa. “A única medalha que Portugal tem no atletismo em cadeira de rodas de ouro, num campeonato da Europa fui eu que a ganhei, e mais umas 5 ou 6 entre bronze e de prata”, realça Mário Trindade.

Em 2022, foi convidado para jogar ténis em cadeira de rodas. Como já pretendia retirar-se do atletismo por “não conseguir cumprir os tempos exigentes que tinha que fazer” abraçou o ténis em cadeira de rodas “com a mesma vontade que tinha abraçado as outras duas modalidades” anteriores. Durante estes quatro anos em que pratica ténis, conseguiu “alcançar coisas que nunca nenhum outro atleta tinha conseguido alcançar”, já que ganhou dois torneios internacionais, dois de singulares e o mais recente em pares, na Polónia, sendo o primeiro atleta paralímpico a chegar à alta competição no ténis em cadeira de rodas em Portugal.

“É difícil encontrar clubes que estejam aptos para receber, para dar oportunidades”

Quanto às dificuldades sentidas na prática de desporto adaptado, e embora já haja uma evolução em relação há 30 anos atrás, continuam a existir obstáculos, principalmente financeiros, para a prática de desporto por pessoas com deficiência. Mário Trindade explica que “é difícil encontrar clubes que estejam aptos para receber, para dar oportunidades”, principalmente porque os materiais são muito caros, o que acaba por impossibilitar atletas de experimentar e “vivenciar o que é praticar desporto”. Só as cadeiras utilizadas para praticar desporto adaptado custam 10 mil euros, o que representa um verdadeiro entrave tanto para praticar ténis ou atletismo.

Segundo Mário Trindade é difícil arranjar patrocinadores, pois “é mais fácil conseguir resultados sem apoio do que conseguir apoios em Portugal”. Os outros países investem no desporto adaptado ao contrário de Portugal que vê o desporto adaptado como um entretenimento para as pessoas com deficiência. “Se nós não dermos oportunidades a quem tem menos capacidade de conseguir ultrapassar esse tipo de coisas, é muito difícil conseguirmos ter mais pessoas com deficiência a praticar desporto e ter o melhor desporto adaptado em Portugal”, afirma Mário Trindade.

André Alexandrino é jogador, treinador de ténis e treina Mário Trindade desde 2023. O treinador afirma que treinar Mário Trindade “foi uma escolha fácil de fazer, porque está ligado à sua área como treinador de ténis”.

Existem algumas diferenças a nível técnico, tático e também em termos de regras. Estas diferenças são desafios “que acabam por ser uma motivação diferente do trabalho”, refere André Alexandrino.

Há 20 anos atrás existiam menos recursos, mas atualmente cada vez surgem treinadores para trabalhar nesta modalidade. Em termos físicos, existem três campos de ténis onde se pode treinar. Em 2027 irão ser implementadas melhores condições, visto que vão ser construídos mais dois campos de ténis, e que o campo de ténis Nº3, já existente, irá ser coberto. O treinador sublinha que treinar “no inverno não é fácil”, pois só existe um campo coberto que não é o ideal, pelo facto de o piso não ser o mais ideal para o ténis.

Apesar de todos os obstáculos, para André Alexandrino a maior recompensa que pode adquirir é “ver os atletas a atingirem o seu objetivo”.

Assim, a prática desportiva por pessoas com deficiência está a alcançar cada vez mais avanços, embora ainda existam obstáculos e desafios, sendo necessário tomar-se medidas para garantir que o desporto seja, efetivamente, um direito acessível a todos. A crescente integração de atletas com deficiência e o seu sucesso e evolução mostra que o desporto pode ser um espaço para todos, e que muito mais do que vitórias, medalhas e recordes, a verdadeira conquista está na igualdade de oportunidades concedidas e no respeito pelo desporto inclusivo.

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