Quatro meses depois: habitantes [ainda] aprendem a viver depois da tempestade

Passaram quatro meses desde a passagem da tempestade Kristin pelo distrito de Leiria, mas em freguesias como Amor e Monte Real os sinais da destruição continuam presentes. Apesar de muitas ruas terem recuperado a normalidade e de grande parte dos estragos mais urgentes já terem sido reparados, ainda existem habitações em reconstrução, famílias à espera de apoios e memórias difíceis de apagar. Ao percorrer algumas das localidades mais afetadas, ainda é possível encontrar telhados recentemente reparados, estruturas reconstruídas e terrenos que demoraram semanas a recuperar dos efeitos da tempestade. Para muitos habitantes, a recuperação material está em andamento, mas o impacto emocional permanece.

Por: João Felícia (aluno do 1º ano de comunicação social)

Quatro meses depois, a grande batalha já não é contra o clima, mas contra o tempo de resposta institucional. Das 800 habitações mais fustigadas, foram validados e submetidos 480 pedidos de apoio financeiro ao Estado nas instalações da Junta de Freguesia, um processo que contou com o apoio direto dos funcionários locais e de técnicos da Agência para o Desenvolvimento e Coesão (ADC), que se deslocaram ao terreno. No entanto, o cenário atual é de desilusão e incerteza para a maioria das famílias.

Dos 480 processos submetidos, apenas cerca de 150 foram aprovados até à data. Isto significa que existem, pelo menos, 230 candidaturas pendentes que aguardam uma resposta definitiva das autoridades, deixando dezenas de agregados familiares num impasse financeiro para concluir as obras nas suas casas. Apesar das dificuldades e da lentidão burocrática, a tempestade revelou a resiliência de uma comunidade que se reergueu através da entreajuda. Voluntários, vizinhos e associações locais foram os primeiros a responder ao vazio inicial, garantindo que ninguém ficasse totalmente desamparado. Quatro meses depois, a eletricidade regressou às casas, as estradas voltaram a abrir e a maioria dos serviços foi restabelecida.

Na madrugada de 28 de janeiro, ventos extremamente fortes provocaram danos em habitações, infraestruturas e espaços públicos, deixando centenas de pessoas sem eletricidade, água e comunicações.

Em Monte Real, uma das zonas mais atingidas, os moradores ainda recordam com nitidez as horas de medo vividas naquela noite.

Uma residente, que preferiu não ser identificada, lembra-se do momento em que percebeu que algo anormal estava a acontecer. “Por volta das três da manhã começou-se a ouvir muito vento. Um vento que não era normal.” O ruído intenso e a força do vento rapidamente fizeram perceber que não se tratava de uma noite comum. A moradora conta que acordou com a filha e que, a partir desse momento, ninguém voltou a dormir. “Foi assustador. Confesso que deu medo.”

Pouco depois começaram os estragos. Uma chaminé caiu, o telhado foi arrancado pelo vento, muros desabaram e portões foram projetados para longe. Sem saber a verdadeira dimensão do fenómeno, acreditou inicialmente que os danos estavam limitados à sua propriedade. Só ao amanhecer percebeu a gravidade da situação. “Às oito da manhã é que se teve a dimensão dos estragos.” Ao tentar sair de casa encontrou árvores caídas, estradas bloqueadas e cabos espalhados pelo chão.

A destruição estendia-se muito para além da sua rua. Nos dias seguintes, a prioridade passou por remover destroços, proteger os bens que restavam e procurar abrigo temporário. A chuva que se seguiu agravou ainda mais a situação para quem tinha perdido o telhado. Mas os prejuízos materiais não foram a única consequência. O impacto emocional revelou-se igualmente profundo. “As primeiras duas semanas acho que a minha adrenalina estava toda lá em cima.”

Entre a preocupação com os familiares, os animais e a recuperação dos estragos, não houve tempo para processar o que tinha acontecido. Apenas semanas depois surgiu a verdadeira consciência da perda. “Ao fim da terceira semana foi quando me apercebi que não tinha casa.” Além da destruição causada pela tempestade, os habitantes tiveram de enfrentar a falta de condições básicas. Muitas famílias viveram semanas sem eletricidade, água ou acesso às comunicações. “Três semanas sem luz, duas semanas sem água”.

Acostumados ao conforto da vida moderna, muitos moradores sentiram pela primeira vez o que significa viver sem recursos essenciais. “O meu primeiro banho foi uma semana depois.” A simplicidade desse momento transformou-se numa experiência marcante. “Eu chorei no meio do banho, porque só quando a gente perde as coisas é que consegue valorizá-las.”

Também Sara Gonçalves, residente na freguesia de Amor, guarda memórias difíceis daquela madrugada. Acordou por volta das quatro e meia da manhã devido ao vento forte e saiu para perceber o que estava a acontecer. “Vim abrir a porta para ver o que é que se passava. “Na altura ainda não era possível perceber totalmente os estragos. Apenas com a chegada da manhã descobriu os danos provocados na sua propriedade. “Tinha duas chaminés partidas e parte do telhado destruído. ”Os prejuízos obrigaram à substituição praticamente total da cobertura da habitação, um processo que envolveu custos elevados e várias semanas de trabalho. “Tive que mudar o telhado todo. ” Apesar de ter recebido apoio financeiro para ajudar na recuperação dos danos, Sara admite que os efeitos psicológicos continuam presentes. “Agora não podemos ver um ventinho, parece que é uma ventania.”

Quatro meses depois, muitas das marcas físicas da tempestade começam a desaparecer, mas os números e os relatos na primeira pessoa revelam a verdadeira dimensão do impacto que a Kristin teve na região. Segundo Levi Bolacha, jornalista, coordenador do Jornal Amor Mais e colaborador da Junta de Freguesia de Amor na área da comunicação, os problemas na região começaram antes mesmo daquela madrugada trágica.

“O problema não começou no dia 28, o problema tinha começado no dia 27 com o dique do rio que tinha rebentado e que já tinha inundado os campos”, explica. Passada uma semana, o dique voltou a ceder noutro local, agravando as cheias. O próprio jornalista viveu na pele as consequências do temporal, servindo de exemplo para a realidade de centenas de vizinhos. “A minha casa precisou de cerca de 200 telhas. Como o antigo proprietário tinha deixado cerca de 250 telhas, eu tinha o material e consegui tapar a casa, mas só ao terceiro dia. Tive dois dias em que me choveu dentro, em que tive inundações e estragos”.

Ao contrário da maioria das pessoas, Levi não teve de procurar material, mas dedicou os primeiros dias a ajudar a comunidade antes de conseguir proteger a sua própria habitação. “De sábado a quarta-feira andava pelas ruas a ver o estado das casas e das estradas, e eu não cheguei a contabilizar 50 casas que não tivessem algum tipo de estrago”, conta.

Os primeiros dias após a tempestade foram marcados por uma forte mobilização comunitária e por uma mudança radical na estratégia de comunicação.

Na segunda semana após a catástrofe, a Câmara Municipal disponibilizou um starlink internet na Junta de Freguesia. “Começámos a tentar comunicar através do Facebook, depois percebemos que o Facebook não estava a funcionar, e foi quando eu criei o grupo do WhatsApp com literalmente todos os contactos que tinha das pessoas da freguesia, pedindo para adicionarem mais gente”, recorda Levi Bolacha.

O objetivo inicial era partilhar informações cruciais sobre o estado das estradas, água, eletricidade e comunicações, mas a plataforma rapidamente se transformou numa rede pública de solidariedade. “Ao fazê-lo de uma maneira pública, esperávamos que os vizinhos pudessem ver que alguém a 20 ou 100 metros estava a precisar de ajuda para tapar um telhado e fossem lá ajudar”.

Paralelamente, a Câmara Municipal montou um armazém solidário a partir do segundo ou terceiro dia. Inicialmente, os colaboradores da junta deslocavam-se a Leiria para recolher grandes quantidades de lonas para distribuir localmente, poupando o esforço de deslocação a quem não tinha meios. Com a chegada de doações diretas, a Junta de Freguesia criou espaços próprios para armazenar e distribuir telhas, cimento, tijolos, bens alimentares, roupa de cama e mobiliário.

Esta operação logística foi feita com base na confiança mútua e na urgência do momento. “O princípio era fazer o bem sem olhar a quem”, destaca o jornalista.”

Não podíamos dar-nos ao luxo de fazer uma fiscalização prévia se as pessoas precisavam efetivamente ou não daquilo que pediam. Tínhamos de confiar nas pessoas porque não tínhamos meios tecnológicos nem capacidade alguma de fazer vistorias e ajudar em tempo útil”.

Os dados consolidados pela Junta de Freguesia ajudam a desenhar o mapa da catástrofe. Na freguesia de Amor, cerca de 500 hectares de terrenos agrícolas permaneceram inundados durante mais de um mês. Das cerca de 350 estradas da freguesia, pelo menos metade ficou completamente intransitável nas primeiras 12 a 24 horas.

Durante a primeira semana, a circulação normal era quase impossível: “O habitual era uma das faixas dar para passar e a outra ter um posto de eletricidade partido ou um cabo de telecomunicações no chão”. Pelo menos cinco ou seis ruas enfrentaram inundações severas, permanecendo encerradas por cerca de duas semanas. Das aproximadamente 1200 habitações da freguesia de Amor, Levi Bolacha estima que pelo menos 800 tenham sofrido danos severos e complicados, enquanto outras 100 a 200 registaram danos mais leves, como a perda de escassos metros de telha.

Contudo, para quem viveu a tempestade, a recuperação ainda está longe do fim. Entre obras por concluir, apoios retidos e recordações difíceis de esquecer, a Kristin continua presente no quotidiano da região. Uma das entrevistadas resume essa experiência numa frase simples, mas marcante: “Naquela madrugada senti-me uma folha ao vento.”

Uma imagem que traduz não apenas a força da tempestade, mas também a vulnerabilidade das pessoas perante fenómenos naturais extremos. Ainda assim, os testemunhos recolhidos mostram igualmente a capacidade de resistência e recuperação das comunidades que, quatro meses depois, continuam a reconstruir as suas vidas.

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