Envelhecer sem estar sozinho

Numa terça-feira, ouve-se pelos corredores as vozes dos idosos a cantar “Ouvi um passarinho”. Numa sala decorada ao estilo dos Santos Populares, alguns cantam com entusiasmo, enquanto outros mostram-se mais reservados. A animadora incentiva-os a cantar e as vozes vão-se juntando em coro. O centro de dia tornou-se um lugar de companhia para quem, de outra forma, passaria grande parte do tempo sozinho.

Reportagem de Bianca Dias

Associação Filantrópica da Torreira (ASFITA)

Em Portugal, o envelhecimento da população tem contribuído para o aumento do isolamento sénior. Segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, mais de 2,5 milhões de portugueses têm 65 ou mais anos. Embora a esperança de vida após os 65 anos ultrapasse os 20 anos, apenas 8,4 são vividos com saúde, aumentando os desafios associados à dependência e aos cuidados, afetando os idosos e as suas famílias.

Para Rosa Simões, de 76 anos, o centro de dia que frequenta há três anos ajuda-a a combater a solidão que sentia enquanto a filha trabalhava. Com um sorriso no rosto e com um olhar cheio de vida e de felicidade, conta que, desde que começou a frequentar a instituição, uma parte dos seus dias é preenchida pela convivência com os outros utentes, com quem conversa, canta e partilha atividades e experiências.

As limitações de mobilidade levaram-na, ao longo dos anos, a reduzir as saídas fazendo-a perder o contacto regular com muitas das suas amigas. A entrada na instituição mudou esta realidade, permitindo-lhe recuperar algumas dessas ligações e recordar o passado. “Mato as saudades que já sentia há muito tempo”, afirma Rosa Simões.

Para muitas famílias, a permanência dos idosos sozinhos em casa durante o dia, a ausência de alguém que cuide deles e a incapacidade de lhes prestar cuidados necessários quando a dependência aumenta são motivos frequentes de preocupação. No caso de Catarina Simões, a filha de Rosa Simões, uma das suas maiores inquietações era a solidão vivida pela mãe. Temia que esta sentisse isolada ou triste e que pudesse ocorrer alguma situação de emergência enquanto estivesse sozinha. Com o passar do tempo, começou também a perceber a sua mãe mais desanimada, verificando um impacto no seu estado emocional devido ao isolamento social que vivia.

Envelhecer de forma ativa significa manter-se fisicamente ativo, mentalmente estimulado e socialmente envolvido. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a capacidade de cada pessoa para realizar as atividades do dia-a-dia e manter a sua qualidade de vida depende não só das condições físicas e mentais de cada indivíduo, mas também do ambiente que o rodeia e das oportunidades que tem para manter-se autónomo e integrado na comunidade.

Fernando Batista, fundador da associação sem fins lucrativos Mais Feliz, desenvolve sessões de risoterapia em instituições, levando risos à rua e até ao domicílio. Segundo o responsável, o principal objetivo do seu trabalho é proporcionar experiências positivas que despertem emoções agradáveis e criem novas memórias.

De acordo com Fernando Batista, os benefícios da risoterapia são visíveis. Muitos idosos relatam sentir-se mais leves, menos preocupados e, por momentos, afastados das dores e dificuldades que enfrentam no seu quotidiano. O riso estimula a produção de substâncias associadas ao bem-estar, contribuindo para um estado emocional mais positivo. Além disso, a iniciativa combate um dos maiores desafios da população idosa: o isolamento social. “Quando estão a rir e a partilhar momentos em grupo, deixam de sentir-se sozinhos”, explica.

Para Fernando Batista, o segredo de um envelhecimento mais feliz encontra-se na simplicidade dos gestos. Um sorriso, um abraço ou um momento de atenção pode ter um impacto profundo na vida de quem envelhece, ajudando a recuperar sentimentos de pertença, afeto e felicidade.

Promover a continuidade da vida ativa após a reforma

Márcia Vigário, diretora técnica da Associação Filantrópica da Torreira (ASFITA), explica que o principal objetivo dos centros de dia é promover a continuidade de uma vida ativa após a reforma. No entanto, refere que essa missão tem sido cada vez mais difícil de concretizar. “A maioria dos idosos chega ao centro de dia já com demência e um elevado grau de dependência”, explica Márcia Vigário.

Atividades na Associação Filantrópica da Torreira (ASFITA)

Quando ingressam no centro de dia, muitos utentes já apresentam limitações, o que dificulta a promoção do envelhecimento ativo. Para combater esta realidade, a ASFITA aposta em atividades de estimulação cognitiva, para atrasar a perda de capacidades cognitivas e estimular os seus utentes.

Apesar das dificuldades, a diretora destaca o impacto positivo que o centro de dia tem na vida dos idosos. Muitos chegam à instituição após longos períodos de isolamento e, inicialmente, demonstram resistência à realização de algumas atividades. No entanto, com o tempo, acabam por criar laços, integrar-se no convívio diário e demonstram vontade de realizar certas atividades de forma autónoma.

Segundo Juliana Costa, animadora sociocultural, o objetivo do seu trabalho na instituição passa por preservar as capacidades existentes dos idosos e, sempre que possível, recuperar as competências que perderam com o avançar da idade. Para isso, são promovidos programas adaptados às necessidades de cada um, procurando garantir a participação de todos.

A programação semanal está organizada em várias oficinas temáticas. Algumas atividades são feitas diariamente, como exercícios de orientação, atividade física e a dimensão espiritual também ocupa um lugar importante na rotina dos utentes da ASFITA, pois a oração do terço é um momento que ocorre todos os dias.

De acordo com a animadora, as mudanças mais visíveis verificam-se ao nível da comunicação e da confiança. Muitos idosos tornam-se mais participativos, criam novas amizades e sentem-se mais motivados para realizar atividades físicas. O convívio entre pares desempenha um papel essencial neste processo.

Uma das principais lições que Juliana Costa aprendeu com os idosos foi a importância de aproveitar a vida e valorizar cada momento. Uma mensagem frequentemente transmitida pelos próprios idosos, que incentiva as gerações mais jovens a viverem plenamente enquanto ainda têm a sua autonomia e independência.

Ao final da tarde, muitos destes idosos regressa ao silêncio de casa, enquanto outros reencontram a companhia da família. Mas todos encontram no centro de dia, durante algumas horas, aquilo de que mais sentem falta: companhia, partilha, atividades e a certeza de que não estão sozinhos.

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