O regresso do Académico de Viseu: 37 anos de espera chegaram ao fim

No sábado, 16 de maio de 2026, o Académico de Viseu empatou com o Sporting B e garantiu automaticamente a subida à Primeira Liga do futebol português. Viseu rendeu-se a um feito histórico que une gerações, mobiliza uma região e promete transformar a cidade muito para além dos 90 minutos.

Reportagem de Matilde Brandão e Matilde Pires

Jogo decisivo realizou-se em maio no Estádio Municipal do Fontelo

O relógio marcava 13h00 quando o árbitro apitou pela última vez no Estádio Municipal do Fontelo. Nas bancadas, o silêncio tenso de 90 minutos deu lugar a uma explosão de alegria que ecoou por toda a cidade de Viseu. O Académico de Viseu venceu o Sporting B e garantiu automaticamente a tão ambicionada subida à Primeira Liga do futebol português. O relvado transformou-se num mar de gente com cachecóis pretos e brancos, celebrando um feito que foge ao clube há 37 anos. Viseu já não é apenas a cidade de Viriato, é oficialmente, uma cidade de Primeira.

Ao longo de todo o dia, as ruas circundantes ao Fontelo já antecipavam o cenário de festa. Famílias inteiras, desde avós a netos, partilharam a ansiedade de um jogo que sabiam ser histórico. Nas bancadas, após o apito final, a emoção transbordava.

Para Rúben Fonte, a vitória representou o fim de uma longa espera. Quando questionado sobre o sentimento que fica, não hesitou: “Fica um sentimento único. Está aqui já muita gente, há 37 anos já à espera deste momento. Eu, no caso, há 20. Realmente é um sentimento único que já faltava.” Cátia Marques visivelmente comovida, resumiu a mesma sensação de forma espontânea: “É inexplicável. Um sentimento inexplicável”, afirma. Já Rodrigo Mogas deixou a emoção transbordar pelo orgulho ao seu clube: “O sentimento é de que há orgulho em Viseu, orgulho na terra onde eu nasci. Viseu é grande!”.

Num jogo resumido ao nervosismo nas bancadas, o momento mais marcante para os adeptos foi “Sem dúvida o apito final, porque o jogo foi um sofrimento do ínicio ao fim. Só se queria o apito final e que o Académico conseguisse a tão desejada subida”, recordou Rúben Fonte.

Inês Vassalo, que também viveu intensamente os noventa minutos no Fontelo, fez questão de elogiar o ambiente vivido: “Muito positivo, toda a gente estava a apoiar-se uns aos outros, é completamente uma família”. Ao recordar o momento deste jogo, João Miguel não escondeu as dificuldades, apontando o héroi da tarde: “O jogo foi horrível, mas acho que o momento mais marcante foi as defesas do Gril, que permitiram ao Académico manter o empate”.

Dia de festa em Viseu

Apesar da festa invadir as ruas da cidade, o futuro na Primeira Liga traz, também, visões contrastantes e um choque de realidade no que toca à capacidade competitiva do grupo de trabalho. João Miguel expressou uma forte preocupação quanto ao planeamento da próxima época: “Sinceramente não acredito. Se eles não fizerem boas contratações e mandarem muitos embora, o Académico vai ao fundo e vai descer outra vez”.

“Este ano havia uma união diferente”

Para além da emoção vivida nas bancadas, a subida do Académico foi também o culminar de uma época exigente dentro do balneário. Tomás Silva, jogador do clube desde 2021, recorda que um dos momentos mais difíceis aconteceu com a mudança de treinador no início da época: “Vínhamos de uma fase menos boa e havia muitas dúvidas. Tivemos de mostrar que éramos capazes de dar a volta à situação.”, explica.

O jogador acredita que o principal segredo do sucesso esteve na União do grupo. “Este ano havia uma união diferente, existiu muita transparência entre os jogadores e criou um ambiente muito forte dentro da equipa”, afirma.

Ao longo da época, o apoio dos adeptos foi crescendo e tornou-se uma motivação extra.” Sentimos cada vez mais apoio da cidade, mais pessoas nos jogos e mais gente a acreditar em nós. Isso ajudou-nos a sonhar com a subida”, recorda.

Nas últimas jornadas, a pressão aumentou, mas a equipa conseguiu manter o foco.” Sabíamos que estávamos a jogar por uma cidade inteira e por algo histórico. Houve nervosismo, mas conseguimos alcançar o nosso objetivo”, afirma o jogador.

Virão milhares de pessoas a Viseu”

Muito para lá do entusiasmo, o regresso do Académico de Viseu à Primeira Liga do futebol português, 37 anos depois, promete transformar profundamente a dinâmica da região. Quem o garante é o presidente da Câmara Municipal de Viseu, João Azevedo que vê neste feito desportivo um autêntico motor de desenvolvimento económico e social.

 O líder do município sublinha que esta conquista toca diretamente na “alma das pessoas, na satisfação e na felicidade”, devolvendo à cidade algo que há muito se desejava.

Mais do que um simples jogo que arrasta multidões, o futebol mostrou que tem o poder único de juntar e mobilizar os visieenses. Relembrando as celebrações que invadiram as ruas, o presidente não hesitou em classificar o momento: “Foi a maior concentração de pessoas que houve na minha vida em Viseu. O desporto em si é um cimento-cola que une a sociedade, une as pessoas, une a alma”. Uma união, que segundo o próprio, vai além das fronteiras da cidade, estendendo-se a uma região com “mais de 200 mil pessoas”.

As vantagens não se esgotam apenas no plano emocional, a vinda dos grandes clubes nacionais e das equipas vindas das ilhas coloca Viseu no centro do mapa turístico nacional gerando um impacto que vai além dos 90 minutos de jogo. “Virão milhares de pessoas a Viseu”, antecipa o líder do município, explicando que muitos adeptos vão aproveitar as deslocações para fazer turismo e pernoitar na região.

A certeza de que o clube vai alavancar a região reflete-se na resposta convicta do líder do município quando confrontado com o futuro económico de Viseu. “Economia, restauração, hotelaria, serviços, comércio local, merchandising da própria cidade, da Feira de São Mateus, do Académico” são alguns dos impactos destacados por João Azevedo.

Com os olhos postos nos desafios logísticos e estruturais que a Primeira Liga exige, o autarca garante que a cidade “vai-se preparar, vai-se qualificar, no setor privado e no setor público”, deixando no ar um desafio à reflexão sobre a evolução das infraestruturas desde a última subida em 1989. O desporto assume-se, assim, como um dos “principais pilares do desenvolvimento” do município, com a promessa de novos investimentos em instalações desportivas.

Para o futuro, a meta é consolidar o clube e manter o estádio sempre cheio, apontando com ambição para “patamares superiores nacionais e, a médio-longo prazo, a nível internacional”.

Uma caminhada que se faz no presente, dia após dia: “Os viseenses querem de nós o melhor e o nosso trabalho. Eu vivo ao dia, vivo na concretização de projetos, mas com uma grande ambição, com uma grande determinação, com uma grande coragem. O Académico já subiu, agora vamos para outras metas”, remata o autarca, deixando uma forte mensagem de otimismo a toda a região.

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