Partir para vencer, regressar para viver: a vida do emigrante português
Entre a procura de uma vida melhor e a saudade de casa, quatro histórias mostram o porquê de tantos portugueses partiram para o estrangeiro e porque acabaram por voltar.
Por: Alicia Graça (aluna do 1º ano de Comunicação Social)
Ao longo das últimas décadas, milhares de portugueses deixaram o país em busca de melhores condições de vida. A emigração tornou-se uma realidade comum em diferentes gerações, motivada sobretudo pela procura de emprego, salários mais elevados, maior estabilidade financeira ou ainda por obrigação. No entanto, para muitos emigrantes, a partida nunca significou um abandono definitivo de Portugal. Pelo contrário, o objetivo era quase sempre regressar um dia à sua terra natal.
Apesar das diferenças de idade, época e destino, as histórias de Yolande Batista, Arminda Neves, Cândido Fernandes e Ricardo Martins revelam alguns pontos em comum. Todos procuraram uma vida melhor fora de Portugal, enfrentaram dificuldades de adaptação e acabaram por regressar. As suas experiências mostram que, por vezes, emigrar pode trazer oportunidades, mas também desafios que nem sempre são visíveis para quem observa de fora.
Nos anos 70, Arminda Neves deixou Portugal a caminho de França. A decisão não partiu totalmente dela. Foi influenciada por familiares e acompanhou o marido, que tinha decidido emigrar em busca de melhores condições de vida. O início foi particularmente difícil. A adaptação a um novo país, longe da família e dos hábitos conhecidos, revelou-se mais complicada do que imaginava.
“Procurávamos uma vida melhor, mas afinal, no início correu tudo mal”, recorda.
Apesar das dificuldades iniciais, a situação começou gradualmente a melhorar. Quando finalmente estavam mais estabilizados, surgiu-lhes uma nova decisão: regressar para Portugal. Segundo Arminda, foi o marido quem tomou essa decisão, tanto de partir como de ir. Hoje, com 81 anos, olha para a experiência com alguma nostalgia e acredita que, em certos aspetos, a vida na França oferecia mais oportunidades e melhores condições sociais.
Embora afirme que atualmente não voltaria a emigrar devido à idade, reconhece que, se fosse mais nova, provavelmente tomaria a mesma decisão. Ainda assim, o conselho que deixa aos jovens de hoje é diferente: considera que, perante as condições atuais, talvez seja preferível permanecer em Portugal.
A história de Yolande Batista, também ela está ligada à procura de uma vida financeiramente mais estável. Nos anos 90, mudou-se para os Estados Unidos com o marido. O plano era simples: trabalhar durante alguns anos, juntar dinheiro e regressar para Portugal com melhores condições económicas.
No entanto, a realidade acabou por se tornar diferente daquilo que o casal tinha imaginado. Embora tenha conseguido encontrar um trabalho mesmo estando grávida de quatro meses, os objetivos financeiros não foram totalmente alcançados. Pouco tempo depois da chegada, o marido acabou por receber uma oportunidade de emprego em Portugal e decidiu regressar. Yolande permaneceu nos Estados Unidos mais algumas semanas para tratar dos assuntos pendentes antes de voltar também.
Apesar de não considerar a sua experiência negativa, acredita que viver fora do país a ajudou a valorizar ainda mais Portugal.
“Aqui está-se muito melhor. Estamos no nosso país, não tem nada a ver”, afirma.
Hoje, não pondera emigrar novamente. Considera que os mais jovens podem beneficiar da experiência de conhecer novas culturas e diferentes formas de viver, mas não aconselharia uma mudança desse tipo numa fase mais avançada da vida.
Décadas depois, as razões que levam os portugueses a emigrar continuam semelhantes. Em 2015, Cândido Fernandes decidiu partir para o Canadá. Ao contrário de muitos emigrantes do passado, a sua decisão foi essencialmente pessoal e motivada pela procura de uma melhor qualidade de vida.
A mudança implicou começar praticamente do zero. Teve de se adaptar a uma nova língua, a uma nova cultura, a um novo trabalho e até a um novo grupo de amigos. Como acontece na maioria dos casos entre os emigrantes, os primeiros tempos foram os mais difíceis.
“Foi uma mudança de tudo”, recorda.
Com o passar dos anos, Cândido conseguiu alcançar alguns dos seus objetivos que o levaram a emigrar. A sua qualidade de vida melhorou significativamente e a sua experiência permitiu-lhe crescer tanto a nível profissional como pessoal.
No entanto, o seu regresso acabou por acontecer durante a pandemia de Covid-19. Sendo filho único, decidiu voltar para Portugal para poder acompanhar o pai, que atravessava problemas de saúde. Atualmente, sente-se feliz por ter regressado e garante que não voltaria a emigrar.
Ainda assim, reconhece que o estrangeiro pode oferecer oportunidades difíceis de encontrar em Portugal. Por isso, não desencoraja quem o deseja fazer. Na sua opinião, quem procura melhores condições de vida pode encontrar no estrangeiro oportunidades que nem sempre existem no país de origem.
A história de Ricardo Martins apresenta uma perspetiva bem diferente. Tinha apenas alguns anos quando o pai decidiu emigrar para a Suíça, nos anos 80. Na altura, Portugal enfrentava dificuldades económicas significativas e os salários eram insuficientes para muitas famílias.
Primeiro partiu o pai e, mais tarde, quando conseguiu estabilidade profissional e quando aprendeu a língua francesa, o resto da família juntou-se a ele.
Para Ricardo, a sua adaptação foi relativamente fácil devido à sua jovem idade. Como criança, integrou-se rapidamente na escola e fez novos amigos. A presença de outro aluno português facilitou ainda mais esse processo.
Ao longo dos 37 anos que viveu na Suíça, testemunhou uma melhoria significativa das condições de vida da família. O acesso a salários mais elevados permitiu uma maior estabilidade económica e melhores oportunidades.
O seu regresso a Portugal aconteceu mais tarde, motivado por razões de saúde. Viver com uma doença no estrangeiro tornou-se complicado e o custo de vida mais baixo em Portugal acabou por pesar na decisão que tomou.
Apesar de preferir viver atualmente em Portugal, admite que a experiência de décadas no estrangeiro alterou profundamente a sua forma de olhar para o país.
“Vejo Portugal como se fosse pela visão de um estrangeiro”, explica. Tendo emigrado em criança e passado maior parte da vida na Suíça, habituou-se a uma realidade diferente. Ao regressar, percebeu que poucas eram as recordações que ele tinha de Portugal, isso, levou-o a observar o país com o olhar de quem o descobre pela primeira vez: como um estrangeiro.
As quatro histórias mostram que a emigração continua a ser uma realidade complexa nos dias de hoje. Embora as razões económicas sejam frequentemente o principal motivo da partida de cada um, a decisão de regressar está muitas vezes relacionada com fatores emocionais, familiares ou pessoais.
A saudade da família, a vontade de regressar às origens, problemas de saúde ou simplesmente a procura de uma maior qualidade de vida numa fase diferente da vida acabam por desempenhar um papel importante no regresso deles.
Por outro lado, todos eles revelam que a experiência da emigração deixa marcas profundas. Os emigrantes regressados falam de crescimento pessoal, aprendizagem, adaptação e, ainda, descoberta de novas formas de viver. Mesmo aqueles que enfrentaram dificuldades reconhecem que a experiência contribuiu para uma visão bem mais ampla do mundo.
Num país que continua a assistir à saída de milhares de jovens todos os anos, estas histórias recordam que, emigrar não significa necessariamente partir para sempre. Para muitos portugueses, a viagem tem sempre dois destinos: o país onde procuram oportunidades e a terra onde esperam regressar um dia.
Entre a ambição de construir uma vida melhor e o desejo de voltar para a casa, a emigração continua a ser uma das experiências mais marcantes da história de muitas famílias portuguesas.

