A saudade do passado e a dureza do presente: o retrato da solidão de Fráguas
A solidão faz parte da realidade de muitas aldeias presentes em Portugal, e Fráguas, uma povoação portuguesa do município de Vila Nova de Paiva, em Viseu, assume-se como uma dessas aldeias. Aqui, a solidão transforma-se no amigo mais próximo dos habitantes que entre paisagens e o som da natureza. O que insiste em permanecer é o vazio e a lembrança do que foi e que já não é.
Por: Francisco Basílio (aluno do 1º ano de Comunicação Social)
Atualmente, estima-se que esta localidade tenha menos de 200 habitantes sendo a maior parte deles pessoas mais velhas. Caracteriza-se pelos seus espaços verdes, pelas casas pitorescas, pela igreja e principalmente pela praia fluvial que faz renascer a vivacidade nos meses mais quentes. Muitos dos fraguenses nasceram e cresceram na aldeia sendo que, muitos deles, imigraram para França nos anos 60, mas voltaram depois às suas origens.
Existe uma certa nostalgia pelo passado que faz muitas vezes reavivar o gosto pela vida. Celestino Martins Silva, reformado, afirma, sentado numa pedra à saída da sua casa e na companhia de três cães que “a aldeia quando era mais novo era diferente, muito diferente do que agora”. Rosa Esperança, antiga emigrante na França, confessa que voltou à aldeia por sentir saudades e querer estar próxima de onde tinha nascido. Depois de ter passado cerca de 40 anos fora, a única esperança que Rosa tem é no nome. Afirma que a mudança é notável e que tudo se transformou.
“Não é nada como era antigamente, como quando eu emigrei. Não há quase ninguém. Os velhos morrem quase todas as semanas”.
O lamento é de Rosa Esperança, que está à entrada da igreja, sentada com o seu terço nas mãos, “aqui não há nada, estamos desertos”.
Relativamente à presença de jovens, Rosa reforça que “não há mocidade nenhuma” e que existem poucos jovens. Mesmo os jovens que ainda possam nascer em Fráguas, acabam os seus estudos e “estão a governar a vida” fora da aldeia. Arminda Duarte Costa, reformada, garante que muitos dos jovens já nasceram fora da localidade. “Eles já nasceram lá, já nem os conheço. Só se aparecerem com os pais”, diz Arminda.
Quando se aborda o tema da solidão, ela tanto é mencionada como quase inexistente ou como uma presença diária na vida destas pessoas. Para Rosa, a solidão não a faz sentir sozinha porque muitos dos seus dias são passados a ir à igreja de Fráguas para rezar o terço. No entanto, não deixa de mencionar a solidão no resto dos dias, em parte muito porque a família está fora.
Embora a família se queixe da azáfama a que Rosa Esperança muitas vezes se propõe, ela reitera que ficar parada em casa o dia todo iria fazer com que o seu fim estivesse mais próximo, passando os dias a cultivar “umas batatinhas, umas cebolas, feijões, legumes, para sair um pouco de casa”.
Os vizinhos tornam-se muitas vezes nos amigos mais próximos destas pessoas, embora as conversas tidas sejam rápidas e passageiras. Rosa diz que no verão os habitantes saem pouco por causa do calor e “no inverno está frio e chuva”, por isso entretêm-se com a companhia da televisão.
“Metemos-mos ao cantinho e não se vê ninguém”
Esta realidade de Rosa torna-se a realidade de muitos. Ao longo das calçadas e das ruas, a presença de pessoas era quaseinexistente. Os animais assumiam-se como os donos da localidade, porque no fundo, eram eles que traziam vida às ruas desertas.
Na associação local, muitos destes residentes encontram um lugar para conviver e passar o tempo. São poucos os locais onde se junte um grande aglomerado de pessoas. Onde antigamente existiam três cafés, agora existe apenas um que é frequentado pelas mesmas pessoas e que serve mais de casa de convívio do que de um negócio.
Fráguas vive no fundo da memória do passado e da vivacidade efémera do presente, vivacidade essa que retorna à localidade nos meses de verão e que parte nos meses mais frios. Os momentos em que existe mais gente na aldeia são no fim de julho e depois no mês de setembro, mas o mais marcante é em agosto, com a festa da aldeia “Sobretudo no segundo domingo de agosto, que temos a festa da Nossa Senhora. Vêm de todo lado, emigrantes, vêm todos”, refere Rosa.
Muitas destas memórias são trazidas à conversa por estas pessoas quando se questiona qual a coisa que gostariam de trazer do antigamente, mas é Rosa a que mais reforça este sentimento nostálgico: “a necessidade de sermos uns para os outros, fazíamos muitos bailes, e nós vivíamos alegres, tínhamos muita família, estávamos todos em família, agora não. Está tudo cada um por seu lado”.
Enquanto Celestino destaca o lado menos positivo da aldeia, explicando que “existe sempre uma pessoa que é boa e outra com qualquer ódio, mas isso é natural. É natural mesmo de todas as aldeias”, Arminda aponta o rio que atravessa a localidade como um ponto positivo. Por sua vez, Rosa considera que “a pior coisa até é na religião”. Antigamente a igreja tinha muitas pessoas e “agora não há tanta gente, mas mesmo assim os mais novos não vêm, é muito raro. Vêm numa festa, vêm no dia de Páscoa, são católicos e apostólicos romanos, mas só vêm quando lhes apetece”. Quanto ao melhor ponto da aldeia, Rosa admite que a gente de Fráguas é “acolhedora para as pessoas que vêm de fora, não há outra como esta”.
A realidade de Fráguas é no fundo a realidade de muitos, como ruas preenchidas de gente dão lugar ao vazio e à saudade daquilo que não volta. Para os habitantes desta aldeia banhada em cores verdes do arvoredo, não há outra como esta, embora o ressentimento e uma certa tristeza permaneça dentro de cada um deles. Não é uma aldeia desabitada, mas certamente caminha para isso, porque quem lá vive tende a desaparecer com o passar do tempo. Algo que não muda e que permanece nas histórias contadas de geração em geração são as memórias partilhadas e os segredos que cada canto de Fráguas guarda a sete chaves.
