Um visto para ficar, um lar para encontrar: os desafios na adaptação dos estudantes internacionais em Portugal.

Sentada numa pequena mesa-redonda no centro de sua sala de estar, Antônia Lima inicia sua rotina de estudos para o estágio que frequenta no curso de Enfermagem. Vivendo em Portugal há 3 meses, a brasileira conta sobre sua primeira impressão ao ingressar no ensino superior do país: “Foi bem difícil, um choque de realidade.”

Por: Keren Nascimento (aluna 1º ano Comunicação Social)

Antônia Lima confessa que a parte mais complexa do processo foi a convivência. Passando 8 horas por dia no hospital em que estagiava, a estudante admite que a ausência de proximidade com os colegas interferiu na decisão de se deveria finalizar o semestre. Por muitas vezes sentiu vontade de regressar ao Brasil e à família pois reconhece que esta dificuldade de interação prejudicou sua disposição de aproveitar bons momentos em terras portuguesas. Durante a conversa, Antônia Lima reflete sobre os impactos que percebeu em sua saúde mental: “Senti muita ansiedade, ficava bem nervosa de manhã quando tinha de acordar para o estágio. Já tive muita alergia, muitas questões emocionais. “Tudo foi virando uma bola de neve.”

Após pensar várias vezes em desistir do intercâmbio, Antônia Lima revela que decidiu dar mais uma oportunidade ao sonho que tanto se dedicou a realizar e optou em concluir o ciclo de estudos.

O processo de adaptação também pode ser brutal para estudantes mais jovens que se veem diante de uma nova realidade educacional. Uma aluna brasileira do ensino secundário, expõe que dois meses após sua chegada além de lidar com a dificuldade de fazer novos amigos sofreu com episódios de xenofobia. A adolescente, na época com 14 anos, foi acusada de roubar uma loja da cidade:

“Falaram que era por eu ser brasileira e que eu roubei porque os brasileiros são sempre assim.”

A estudante também diz ter enfrentado situações de bullying e, por conta disso, passou a ter crises de ansiedade. A jovem ressalta a importância do apoio que recebeu por parte dos profissionais da escola, em especial do seu diretor de turma: “Sempre quando eu me sentia mal por estar em outro país ele vinha e me confortava e fazia questão de me defender na frente dos que não me deixavam bem.”

Apesar dos momentos delicados que vivenciou a estudante, atualmente com 17 anos, reflete como esta fase contribuiu para seu autoconhecimento e propósito. “Foi essa jornada de conseguir me achar que eu pensei muitas vezes que o meu lugar era no Brasil, só que o meu lugar é aonde eu quero estar e atualmente eu quero que o meu lugar seja Portugal”, desabafa.

De acordo com a psicóloga clínica, Sandra Oliveira, dos Serviços de Ação Social do Instituto Politécnico de Viseu, a perda da rede de suporte, rutura de vínculos afetivos e, em certos casos, a privação financeira são algumas das principais dificuldades de adaptação observadas.

“A mudança para um país com características culturais, linguísticas, sociais e institucionais diferentes das dos seus países de origem, a par com todas as outras tarefas relacionadas com as especificidades da adaptação ao contexto académico, poderão constituir-se como uma teia complexa de desafios para os estudantes internacionais”, refere.

Maura Neves, estagiária cabo-verdiana de Enfermagem, assim como Antônia Lima, também cogitou desistir do percurso académico. Residente em Portugal há 3 anos a estudante destaca a importância do suporte familiar durante os primeiros meses, pois no início foi um pouco estranho adaptar-se a uma nova rotina, mas com o tempo ficou mais fácil, até porque a estudante já tinha família a residir em Portugal.

Para a psicóloga, sentimentos de insegurança e incerteza, stress e fragilidades no estabelecimento de redes de apoio, no sentimento de pertença e até mesmo ao nível de autoestima, podem afetar a estabilidade emocional.

Em relação a estas questões a estudante do secundário afirma que Portugal teve um papel crucial no desenvolvimento da sua reafirmação de identidade e ao entender que deveria seguir seu próprio caminho sem se preocupar com o que os outros diziam ou esperavam, e passou a gostar mais de si mesma.

“Se eu pudesse dizer alguma coisa para minha antiga eu que chegou aqui ia falar calma, vai dar tudo certo e não precisa chorar.”

Já a estagiária Antônia Lima relata que o grande aspeto positivo de morar fora foi o sentimento de independência gerado com as novas responsabilidades da vida adulta, além disso elogia o significativo suporte que recebeu dos seus professores e orientadores como fundamentais na adequação ao estágio.

 Nesse sentido, Sandra Oliveira garante que as instituições de ensino devem apostar na formação dos seus profissionais em competências interculturais e comunicação empática, e continuar a apostar na divulgação dos serviços de saúde disponibilizados no âmbito dos seus campus e dos programas de mentoria com enfoque em estratégias de regulação emocional, resolução de problemas, gestão do stress e prevenção do burnout.

“Em suma, na promoção da integração e adaptação de estudantes estrangeiros, dever-se-á ter conta não apenas a dimensão individual, mas apostar, também, em respostas integradas que considerem os contextos sociais e institucionais de acolhimento”, afirma.

As estudantes internacionais mostram-se orgulhosas de terem persistido em seus objetivos pois, apesar dos obstáculos, perceberam que para se construir um lar é necessário obstinação, coragem e pessoas que podem tornar o processo mais leve e, isto, conseguiram encontrar.

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