Cães na lama, com a promessa de um futuro de ferro: O retrato da proteção animal na Chamusca
São dez da manhã quando chegamos ao abrigo da Associação dos Amigos dos Animais e do Ambiente da Chamusca. Os nossos olhos veem grades de metal enferrujadas a fechar boxes de cimento azul, antigas cabanas de madeira remendadas e pequenas casotas cobertas com lonas verdes e cobertores velhos. Ouve-se logo ao longe o latir incessante de dezenas de cães que espreitam por trás das redes, ao lado de tigelas de ração. É neste ambiente duro e de muito improviso que se tenta salvar animais no concelho ribatejano.
Por: Diogo Pinto (aluno do 1º ano de Comunicação Social)
A proteção animal na Chamusca vive entre duas realidades que, por agora, parecem pertencer a mundos distintos. De um lado ergue-se a promessa da construção de um Centro de Recolha Oficial de Animais (CROA), assente no seu bem-estar, na socialização e na sua reabilitação. Do outro, no terreno, a dura realidade de quem luta há décadas num abrigo precário, enfrentando o abandono diário, a sobrelotação e os custos dos tratamentos médicos. O desafio do concelho ribatejano vai muito além de dar um teto a cães e gatos: exige uma mudança estrutural e urgente na mente de quem adota.
“Não há canis nem donos suficientes para tanto animal. Hoje em dia ter um animal é uma enorme responsabilidade, mas as pessoas não pensam minimamente se têm capacidade ou espaço”. O desabafo reflete o sentimento de Teresa Gomes, figura incontornável da proteção animal na Chamusca e presidente da Associação dos Amigos dos Animais e do Ambiente da Chamusca. Há 22 anos na linha da frente, 16 dos quais no atual espaço do canil e na associação, dedica o seu tempo e grande parte do seu orçamento pessoal a resgatar e tratar animais errantes.
A rotina no atual espaço de acolhimento exige uma resiliência fora do comum. O espaço escasseia e as condições ditadas pelo clima, com lama profunda e frio cortante no inverno, e um calor asfixiante no verão, testam diariamente os limites de quem lá trabalha. A introdução de um novo cão no abrigo é uma operação de risco que acarreta sempre a possibilidade de ataques mortais em matilha, fruto da defesa instintiva do território. “Lidar com cães abandonados, traumatizados e doentes é uma realidade completamente diferente. Se a pessoa não criar defesas, não aguenta”, descreve.
Foi precisamente munida dessa armadura emocional que Teresa conseguiu salvar casos que pareciam não ter retorno. Recorda com orgulho o resgate de um cão que chegou ao canil “em pele e osso”, incapaz sequer de se pôr de pé devido à fraqueza, e que hoje é um animal “gordalhudo” e saudável. Mais dramático foi o caso de um cão proveniente da Resitejo, baleado violentamente com um zagalote. O animal ficou aberto da cabeça à cauda e precisou de levar 130 pontos. “Cheguei a estar aqui com ele até à uma da manhã, a dar-lhe soro e medicação. Recuperar aquele cão e vê-lo a ser adotado foi uma alegria indescritível”, relembra.
Mas, por vezes, a armadura também cede. “Uma vez ia recolher um cão, o Faruque, e ele agarrou-se às minhas pernas a chorar. Eu vi, literalmente as lágrimas a caírem-lhe pela cara. Não aguentei e tive de o levar para minha casa”, partilha com emoção.
Os números associados ao abandono pintam um cenário sombrio, apenas no ano de 2024, e apenas no distrito de Santarém, as associações e canis recolheram cerca de 7.900 cães. Para Teresa, o grande motor deste flagelo, para além das férias e da falta de tempo, é estritamente financeiro. Adotar um cachorro é um ato apelativo, mas a falta de planeamento cobra o seu preço. “As pessoas adotam e pensam que nunca vai acontecer nada de mal. Depois, o cão fica coxo ou desenvolve um abcesso, vão ao veterinário, fazem exames e levam medicação, e a conta chega facilmente aos 300 ou 400 euros. Quem tem ordenado mínimo não consegue pagar isso num só mês e acabam por largá-lo”, lamenta. A situação agrava-se drasticamente com a incidência de doenças na região como a leishmaniose, cujos tratamentos vitalícios podem ascender a quase mil euros.
Perante a alarmante ausência de microchips, que não existem em cerca de 90 % dos animais recolhidos na zona, o que impossibilita a responsabilização dos tutores ou a devolução de cães que fogem apavorados com fogos de artifício, a solução tem de passar pela prevenção. “Se investirem na esterilização, não precisam de tantos canis”, sublinha. A sua matemática é implacável: uma única gata não esterilizada e a sua descendência podem gerar mil gatos na rua em apenas dois anos. Foi este sentido de urgência que a levou a esterilizar, à sua custa, 401 animais num espaço de cinco meses.
A esperança institucional para atenuar esta crise está agora projetada para o Ecoparque do Relvão, o local selecionado pela Câmara Municipal da Chamusca para a construção do CROA. Apesar da obra somar 12 anos de promessas e de sofrer atrasos significativos (a expectativa inicial era de que a obra estivesse concluída até final de junho deste ano), o novo projeto delineado com a ajuda do engenheiro de produção animal, Mário Pereira, irá começar a ser construído neste mês de junho e ambiciona revolucionar o acolhimento no concelho.
O responsável garante que a infraestrutura rejeita a lógica de um “depósito de animais”. Trata-se de uma construção rápida suportada por uma estrutura de ferro simples. O centro terá um pavilhão multiespécie obrigatório, preparado para acolher animais de grande porte como cavalos, além de uma enfermaria de isolamento, blocos de cirurgia, morgue e balneários de higienização diária para a equipa, prevenindo o contágio de zoonoses (doenças transmissíveis entre animais e humanos). E as viaturas terão uma zona de lavagem com escoamento centralizado exclusivo para evitar contaminações de solos exteriores.
Em paralelo, existirá um gatil de três boxes a operar com o programa CED (Captura, Esterilização e Devolução). Nas colónias de rua, serão instalados abrigos vedados de três por três metros, acessíveis apenas a felinos e protegidos de cães errantes, onde cuidadores voluntários poderão assegurar a alimentação e monitorização.
A grande revolução do CROA passará, no entanto, pela reabilitação comportamental. “O nosso objetivo não é ter animais imobilizados em permanência, mas sim socializá-los”, explica Mário Pereira. Para o efeito, foram desenhados três recreios centrais. Diariamente, num sistema rotativo, os cães passarão horas em liberdade, convivendo com os tratadores e aprendendo comandos de obediência básica através de técnicas de reforço positivo. A meta é garantir que as famílias adotantes encontrem animais equilibrados, serenos e prontos a integrar um novo lar.
Apesar de se movimentarem em palcos distintos, a visão do planeamento técnico de Mário Pereira e a experiência de Teresa Gomes, ambos convergem no ponto mais nevrálgico: a infraestrutura será inútil sem um esforço contínuo na educação cívica da população.
O novo CROA não poderá servir como um local de despejo. “Ter um animal não é de borla. Queremos ensinar o “bê-á-bá” de ser um tutor responsável”, remata Mário Pereira, relembrando o sucesso que a aposta nas redes sociais tem tido na promoção de adoções, que já levaram cães ribatejanos para Cascais ou Algarve.
Enquanto a estrutura de ferro não se ergue para dar dignidade aos animais da Chamusca, nas trincheiras da associação o trabalho não é para um único dia. A verdadeira proteção animal não é garantida apenas por edifícios ou promessas políticas: começa muito antes, no exato instante em que alguém decide abrir as portas de casa a um companheiro para toda a vida.
