Entre turnos e aulas: o preço invisível de estudar enquanto se trabalha
São oito da manhã e o turno acabou há poucos minutos. Enquanto muitos estudantes ainda acordam para mais um dia de aulas, Maria Vilas Boas tenta recuperar algumas horas de sono no autocarro a caminho da Escola Superior de Educação de Viseu. Trabalha durante a noite e, muitas vezes, é neste percurso entre o emprego e a universidade que encontra o único momento possível para descansar.

Reportagem de Carolina Pereira e Soraia Meireles
“Eu chego a casa por volta das oito, e é a hora em que vou descansar. Isso quando não tenho de ir para a universidade, porque quando tenho, descanso no autocarro para chegar até lá”, conta.
A realidade dos trabalhadores-estudantes faz parte do quotidiano do ensino superior, mas continua muitas vezes escondida atrás das paredes das salas de aula. O aumento do custo de vida, das rendas, das propinas e das despesas básicas obriga a que cada vez mais estudantes trabalhem para conseguirem permanecer na universidade. Em Viseu, esta realidade sente-se também, com muitos jovens a dividir o seu tempo entre turnos de trabalho, aulas e estudo.
A questão levanta-se de forma inevitável: vale a pena estudar quando é preciso trabalhar para continuar na universidade?
Para Maria Vilas Boas, a resposta nunca foi linear. A estudante internacional deixou o Brasil para estudar em Portugal e viu-se obrigada a construir uma nova vida longe da família, dos amigos e da estabilidade que tinha no país de origem. “É muito difícil pegar na tua vida, colocar numa mala de 23 quilos, apanhar um voo de dez horas e começar do zero, sozinha, num país onde não conheces ninguém”, admite.
Mas a mudança trouxe desafios que a jovem não antecipava. A necessidade de trabalhar para conseguir sustentar-se rapidamente passou a fazer parte da rotina. Conciliar o emprego com os horários universitários revelou-se uma tarefa difícil e por vezes, quase impossível. “Os horários da universidade não são muito compatíveis para quem trabalha. Tens aulas praticamente o dia inteiro e um trabalho também ocupa o dia inteiro. É realmente muito difícil conciliar”, explica.
A pressão chegou a ter consequências no percurso académico. Durante o segundo ano, Maria Vilas Boas reduziu drasticamente o número de cadeiras concluídas, incapaz de acompanhar a exigência do curso enquanto trabalhava.
Ainda assim, o impacto não se limita às notas. Existe também uma outra dimensão da vida universitária que, para trabalhadores-estudantes, muitas vezes fica por viver. Enquanto colegas participam em semanas académicas, cortejos, jantares de curso ou simples momentos de convívio, quem trabalha enfrenta escolhas difíceis entre descanso e vida social. “Às vezes tens de escolher entre ser jovem ou descansar, porque no dia seguinte tens de trabalhar outra vez”, desabafa.
“Quem trabalha tem de estudar o dobro.”
A ausência frequente das aulas pode também gerar incompreensão. Nem sempre existe empatia para quem tem estatuto de trabalhador-estudante. “Às vezes pedes ajuda ou perguntas o que foi dado na aula e ninguém responde. Algumas pessoas pensam que faltaste porque quiseste, mas não entendem que estavas a trabalhar”, explica. “Quem trabalha tem de estudar o dobro.”
Mas esta realidade não pertence apenas aos estudantes mais jovens. João Pedro Micaela, atualmente com 50 anos, concluiu em 2024 o curso de Comunicação Social. Durante três anos, conciliou o curso com um trabalho exigente, vida familiar e outras responsabilidades pessoais. Desde o início, tinha um objetivo bem definido: concluir a licenciatura no tempo previsto.
Nem tudo correu como esperava. Uma das experiências que mais o marcou aconteceu quando recebeu a primeira nota negativa do curso. “Foi marcante, porque eu não estava habituado a negativas. A partir daí consegui perceber que não era um super-homem”, admite. “Tive de reajustar os objetivos e perceber que não conseguia atingir tudo ao mesmo tempo.”
Apesar das dificuldades, desistir nunca foi uma hipótese. João Pedro organizou os dias de forma rigorosa para conseguir assistir ao maior número de aulas possível. “Levantava-me às seis da manhã para estar nas aulas às oito e meia e depois seguia para o trabalho. O meu compromisso era assistir a pelo menos 90% das aulas.”
O esforço, garante, compensou. Mais do que um diploma, encontrou inspiração nos professores e uma nova forma de olhar para o conhecimento. “Conheci professores que são a minha inspiração. São os verdadeiros influencers, porque influenciam pelo conhecimento”, afirma.
Apesar das diferenças de idade, experiências e percursos, Maria Vilas Boas e João Pedro Micaela partilham algo em comum: ambos tiveram de abdicar de tempo, descanso e vida pessoal para continuar a estudar.
No caso de Maria, a saudade da família continua a ser uma das maiores dificuldades. “Os meus pais não tiveram esta oportunidade e eu valorizo muito isso. Quero dar orgulho à minha família e provar que todo este sacrifício valeu a pena”.
Já João Pedro Micaela deixa uma mensagem clara para quem vive hoje a mesma realidade: não desistir. “Com foco e organização consegue-se ultrapassar estas dificuldades. O conhecimento é útil para qualquer trabalho que façamos”.
Entre noites mal dormidas, horários apertados e escolhas difíceis, estudar enquanto se trabalha, continua a ser um percurso exigente. Mas, para muitos trabalhadores-estudantes, desistir pesa mais do que continuar.
Talvez não exista uma resposta universal para a pergunta “vale a pena estudar quando é preciso trabalhar para continuar na universidade?”. Mas para quem continua a trocar descanso por um diploma, a resposta parece construir-se todos os dias. Entre turnos, salas de aula e a esperança de um futuro melhor.
