Das Cinzas à recuperação: Como Sernancelhe enfrenta as consequências do incêndio de 2025
Passou um ano desde que os incêndios atingiram várias zonas do concelho de Sernancelhe deixando para trás um cenário de destruição, preocupação e tristeza. As chamas consumiram áreas florestais, terrenos agrícolas e infraestruturas afetando diretamente a vida de muitos habitantes. Embora a recuperação tenha avançado durante este tempo e terem sido feitos grandes progressos para repor o que foi perdido principalmente a partir de ajudas da camara municipal, as consequências destes incêndios continuam a fazer-se sentir, tanto na paisagem como na economia local ou até no quotidiano das pessoas.
Por: Rafael Faria, aluno de 1º ano de comunicação social
De acordo com funcionários de juntas afetadas, os danos provocados foram significativos ao longo do concelho. Entre os principais prejuízos encontram-se a perda de extensos hectares de floresta, também de vários terrenos agrícolas, e de alguns bens materiais. Em muitos casos estas perdas representam anos de trabalho e de investimento obrigando as famílias a iniciar assim um longo processo de reconstrução.
A agricultura e as áreas florestais foram as áreas mais afetadas. Muitos agricultores perderam culturas, pastagens e infraestruturas essências para a sua profissão. Para várias famílias a agricultura representa uma importante fonte de rendimento pelo que os prejuízos tiveram um impacto económico significativo não só nas camara municipal e nos concelhos como nos bolsos das famílias afetadas. Também o setor florestal sofreu perdas significativas, afetando a paisagem que antes era verde e agora foi engolida pelo cinzento tornando-se um constante lembrete do que aconteceu e do medo e terror que as pessoas sentiram.
Já em relação à recuperação destas zonas pode levar vários anos a voltar ao que um dia já foi. Paulo Andrade, um dos habitantes de uma das várias zonas afetadas, relata o que sentiu ao perder tanto para estes incêndios.
“Perdi tanta coisa neste incêndio, custa muito ver desaparecer em poucas horas aquilo que levou anos a crescer, em algumas horas isso tudo desaparece num piscar de olhos”.
Durante os dias mais críticos, a atuação dos serviços municipais, sejam bombeiros, polícia ou proteção civil foi fulcral para que se evitasse a perda de vidas humanas, segundo vários testemunhos de pessoas a entreajuda entre aldeões em aldeias mais pequenas também se mostrou essencial para evitar danos maiores, sejam mesmo na ajuda direta ao combate aos incêndios, como conta Rosa Fonseca, uma das várias pessoas que ajudou durante este período tão critico. “Ninguém pensou apenas em si, assim que o fogo se aproximou das primeiras casas, juntámo-nos para ajudar no que fosse preciso, desde levar mangueiras para ajudar a molhar as casas ou pegar nos tratores para tentar travar as chamas. Foi a união da aldeia que nos permitiu enfrentar aqueles dia de medo”, conta.
Posteriormente, também se uniram na ajuda aos mais afetados e na reconstrução dos locais destruídos. Esta capacidade de união e entreajuda foi considerada um dos fatores mais importantes para ultrapassar estes momentos de maior dificuldade.
Para apoiar os afetados, a câmara municipal disponibilizou cerca de 500 mil euros (500 euros por hectare perdido) e estes apoios podem ser desde subsídios para a agricultura e floresta ou até isenção de taxas municipais, comparticipações para Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS)e apoios diretos à economia e empresas, as medidas também podem ser separadas como no apoio à atividade agrícola e florestal: Reembolso e reposição da capacidade produtiva agrícola, com entregas de apoios articuladas com o Ministério da Agricultura. Apoio Social e Coletivo: Comparticipações financeiras (até €1.500 por instituição) para IPSS, além de isenção de taxas municipais e apoios monetários para agregados familiares em situação vulnerável. Apoio Empresarial: Apoios por posto de trabalho e incentivos para a revitalização da economia local.
Já em termos de prevenção, a câmara de Sernancelhe tem algumas medidas impostas como a gestão de combustíveis: criação e manutenção de faixas de gestão de combustível e redes secundárias, reduzindo a quantidade de material inflamável junto a aglomerados populacionais e vias de comunicação. Equipas de Intervenção Permanente (EIP): reforço dos operacionais no terreno, com o Município a assegurar a operacionalidade permanente destas equipas para garantir respostas rápidas ajudando assim na minimização de riscos e velocidade na prestação do socorro. Apoio do Gabinete Técnico Florestal (GTF): estrutura técnica e de planeamento que apoia a Comissão Municipal de Gestão Integrada de Fogos Rurais (CMGIFR) na definição e calendarização de projetos preventivos. Regulamentação e apoio económico: criação de regulamentos municipais para apoiar a reposição do potencial produtivo agrícola e pessoas afetadas por calamidades, fomentando a recuperação ecológica e a limpeza dos espaços passo muito importante na prevenção de mais incêndios florestais.
Para os responsáveis municipais, principalmente para Paulo Albino Ribeiro Dod Santos, presidente da junta de freguesia de Lamosa, a principal lição deixada pelos incêndios é a importância da prevenção.
“Os incêndios mostraram-nos que não basta atuar quando o fogo já está no terreno. É fundamental investir na limpeza das matas e na sensibilização da população ao longo de todo o ano. A prevenção é a ferramenta mais eficaz que temos para proteger as pessoas e o nosso património natural. Hoje existe uma maior consciência por parte da população, mas é essencial que este trabalho continue a ser uma prioridade para que situações como as que vivemos não se repitam com a mesma dimensão”.
A gestão adequada da floresta, a limpeza dos terrenos e a colaboração entre cidadãos e instituições são vistas como essenciais para reduzir o risco de novas ocorrências. Mais do que atuar durante a emergência, é necessário desenvolver um trabalho contínuo ao longo do tempo para prevenir ao máximo a hipótese de que possa voltar a acontecer.
Um ano depois das chamas Sernancelhe continua reconstruir-se. Embora as marcas dos incêndios ainda estejam presentes em grande parte das paisagens, e principalmente na memória das populações, existe também um forte sentimento de resiliência e determinação no seio das pessoas afetadas. O concelho procura transformar uma experiência difícil numa oportunidade para reforçar a prevenção, melhorar a preparação e construir um futuro mais seguro para todos os seus habitantes, com o empenho das instituições e da população a recuperação prossegue, demonstrando que mesmo perante grandes adversidades, a união e a capacidade de adaptação podem ajudar uma comunidade a seguir em frente, mesmo após algo tão difícil de ultrapassar como os incêndios.
