Entre pratos e preconceitos: A vida de quem deixou o seu país para servir em Portugal
O setor da restauração em Portugal sofre com a falta de funcionários e a rápida troca de pessoal, principalmente por causa dos salários baixos e das longas horas de trabalho. Cerca de 40% dos jovens portugueses têm curso superior e preferem procurar empregos que ofereçam um ordenado melhor, o que faz com que o setor dependa muito dos imigrantes. Em cidades como Lisboa, Porto e Algarve, os estrangeiros fazem parte de 20% e 30% dos trabalhadores da hotelaria e restauração. Segundo dados da AIMA, Portugal tem mais de 1,5 milhões de residentes estrangeiros, sendo que a grande maioria (85%) são jovens entre os 18 e os 34 anos.
Reportagem de Ana Luiza Ferreira e Maria Vilas Boas
A mudança do Brasil para Portugal nem sempre é motivada por um sonho pessoal. É o caso do brasileiro Felipe Siqueira, de 36 anos, a residir no país há três. Profissional de Recursos Humanos na sua terra natal, migrou por decisão do companheiro. “No Brasil, eu tinha uma qualidade de vida muito melhor”, afirma Felipe Siqueira, evidenciando a realidade de quem deixa carreiras estáveis para trás. Perante a necessidade de se manter, a restauração foi a porta de entrada imediata no mercado local, garantindo emprego nas primeiras semanas.
Embora tenha começado por obrigação financeira, hoje permanece no ramo por estratégia “trabalho nesta área por escolha, acredito que conseguimos fazer um pouco mais de dinheiro do que em outras áreas”. Contudo, Felipe Siqueira relata uma rotina de discriminação e preconceito diários, que ele afirma serem baseados na nacionalidade e negação da própria língua.
Felipe Siqueira rebate o discurso de que os estrangeiros “roubam” os postos de trabalho da população portuguesa e afirma que imigrantes sustentam um setor negligenciado pelos locais.
Ao analisar o tratamento de clientes e empregadores, Felipe Siqueira faz um apelo por empatia e traça um paralelo duro com o passado histórico.

A vivência dos estrangeiros ganha também a perspetiva dos imigrantes angolanos. Sayonara Costa, de 31 anos, é empregada de mesa no Porto. Imigrou criança com a mãe e permaneceu para estudar. Ingressou na área após o convite de uma amiga e já soma seis anos no ramo. Sayonara relata ter enfrentado episódios de preconceito e recusa o discurso xenófobo.
Para Sayonara Costa, a falta de interesse dos portugueses para trabalhar na restauração decorre da rigidez das rotinas e defende que sem os imigrantes a restauração não existiria.
Diante disso, Sayonara Costa faz um apelo por empatia dos clientes, reforçando os sacrifícios invisíveis de quem está por trás do balcão. “Nós, que trabalhamos em restauração, somos humanos. Abdicamos de muita coisa da nossa vida para poder estar a trabalhar para servir as pessoas”. A empregada de mesa reforça a importância de nos pormos no lugar do outro. “Uma coisa que eu gostaria que as pessoas entendessem, que não é fácil estar a abdicar de certas coisas da nossa vida, como finais de semana, folgas que têm que ser trocadas, trocas de horários, trabalhar à noite”.
“É uma área onde pagam mal”
Dina Nuelma, 28 anos, natural de Angola, veio para Portugal estudar Arquitetura. Relata que a facilidade de conseguir emprego na área se deve às condições difíceis que afastam os locais: “É uma área onde pagam mal. Há muito esforço físico e psicológico”, justificando que a alta rotatividade ocorre porque os portugueses procuram algo melhor. Embora não tenha sofrido discriminação direta, nota intolerância por parte dos clientes.
Sobre os comentários ouvidos de que os estrangeiros ocupam vagas dos portugueses, Dina Nuelma rebate: “Eu gostaria que os portugueses entendessem que quem trabalha nesta área não é menos do que os outros e muitas vezes nós trabalhamos nesta área por não ter outras opções e não por falta de estudo, não por falta de conhecimento”.
Para os profissionais portugueses que resistem, o sentimento é de desvalorização. Cristina Vergueiro, com 40 anos de carreira, é subchefe de restaurante e entrou na profissão por paixão familiar e vocação, hoje testemunha o declínio da área.
Segundo Cristina Vergueiro, a restauração vive um ponto de dependência absoluta da mão de obra estrangeira, alterando drasticamente as equipas.
Apesar dos anos dedicados ao setor, Cristina não esconde o desânimo e revela aconselhar os colegas mais jovens a escolherem outro rumo na vida: “É uma vida muito sacrificada mesmo”.
Para Carlos Sousa, português de 20 anos e estudante de restauração e catering, a jornada começou aos 18. Impulsionado por um estágio no ensino secundário, apaixonou-se pela profissão e hoje trabalha como barman num hotel, reconhecendo o cenário complexo do setor.
Segundo Carlos Sousa, as desvantagens que afastam os portugueses do setor e tornam a presença de trabalhadores estrangeiros absolutamente vital. “O salário não é tão atrativo, não é tão agradável. Os horários não são dos melhores e, muitas vezes, ou é repartido, ou é fazer horas extra. Por isso eu diria que há muitas mais desvantagens do que vantagens de trabalhar nesta área. E eu vejo que cada vez mais portugueses não querem trabalhar nesta área, porque o salário não compensa e preferem dar prioridade, ou estudar, ou investir o seu tempo e dedicação noutra área de trabalho”, afirma o jovem.

O barman lamenta as críticas xenófobas de clientes locais, classificando-as como falta de noção e racismo, lembrando que a própria história de emigração dos portugueses deveria apelar à tolerância.
Na perspetiva dos clientes, a nacionalidade é irrelevante desde que o serviço tenha qualidade. Para a estudante brasileira Christine Galvão, a escassez de locais deve-se aos salários baixos, horários pesados e ao facto de a profissão ser rotulada como “menos digna”.

A estudante portuguesa Diana Martins concorda que a falta de valorização financeira afasta os nacionais.
A empresária brasileira Fabiana Ferreira também exige apenas um bom atendimento.
Contudo, Fabiana Ferreira confessa que não trabalharia na área devido aos baixos ordenados e à carga horária pesada, defendendo que o setor deveria ser mais valorizado: “Acredito que cada vez menos os portugueses estão indo para a área da restauração, justamente pelo salário ser baixo e ser muito trabalho braçal. Com esse valor, eles têm condição de ganhar o mesmo valor em trabalhos menos braçais, menos pesados, menos desgastantes”. Na opinião da empresária, “os imigrantes acabam fazendo trabalhos que os portugueses não querem justamente porque muitas vezes eles não têm como escolher”.

O trabalhador brasileiro Kauã Quintanilha reforça que o profissionalismo importa mais do que a origem.
Com experiência no ramo, assume que seria difícil regressar e nota que a fuga dos portugueses em busca de estabilidade deixa as vagas em aberto.
A restauração em Portugal parece ter um problema claro: o setor é muito importante para o turismo e para a economia, mas oferece condições de trabalho que afastam os portugueses e pesam muito sobre os estrangeiros. Os trabalhadores locais não deixam a área por falta de emprego, mas sim porque os salários são baixos e o cansaço físico não compensa o esforço. É por isso que os imigrantes vindos de países como o Brasil, Angola, Cabo Verde ou Marrocos se tornaram essenciais para evitar que muitos negócios vão à falência. É preciso uma mudança real: melhorar os ordenados e, acima de tudo, tratar com respeito e humanidade quem trabalha a servir o público.
