A Castanha, o ouro de Sernancelhe
Conhecida como o “ouro de Sernancelhe”, a castanha continua a marcar a identidade do concelho. Entre produtores, empresas e entidades locais, há quem trabalhe diariamente para preservar e valorizar um produto que faz parte da história e do futuro da região.
Reportagem de Mafalda Serôdio

Ana Almeida, engenheira agrónoma e administradora da Quinta GNAV, localizada na freguesia de Chosendo, Sernancelhe, representa a terceira geração de uma família ligada à produção de castanha em Sernancelhe. Atualmente, a mesma é responsável por cerca de dez hectares de castanheiros da variedade Martaínha e não deixa de destacar a importância desta atividade para a economia local e para a própria empresa: “Esta já é a terceira geração, já veio do meu avô, depois passou para o meu pai e neste momento está comigo”.
A exploração continua a ser desenvolvida com o apoio dos pais permitindo, então, manter uma produção de qualidade. No entanto, a atividade enfrenta desafios cada vez maiores. Segundo a engenheira, “as alterações climáticas estão a afetar um bocadinho a produção, por causa da seca severa, como às vezes as humidades excessivas”. A produtora alerta, ainda, para o aparecimento de fungos e doenças que comprometem a vida dos castanheiros, tornando indispensáveis os tratamentos e os cuidados regulares.
Mas, apesar das dificuldades, a castanha continua a ser um recurso fundamental para muitas famílias do concelho: “Sem dúvida, a castanha continua a ser uma atividade rentável, principalmente no nosso concelho de Sernancelhe”, refere.
No caso da Quinta GNAV, o impacto económico é evidente: “Se não fosse o rendimento da castanha era muito complicado manter pessoas a trabalhar connosco e mantermos a nossa empresa operacional.” A produtora aponta, também, para a falta de jovens trabalhadores interessados na atividade como uma das principais preocupações para o futuro do setor: “Os jovens não estão interessados em continuar a atividade porque é uma atividade demorada”.
Para garantir boas colheitas, Ana Almeida defende a adoção de práticas agrícolas adequadas: “Os cuidados são necessários para garantir uma boa colheita, principalmente nutrição e água”, acrescentando que muitos agricultores ainda subestimam a importância destes fatores para alcançar qualidade e quantidade na produção.
A aposta nessa mesma qualidade tem sido recompensada com a Quinta GNAV a destacar-se e vencer o primeiro lugar, repetidamente, na Festa da Castanha.

576 toneladas de castanha por ano
Depois da colheita, entra em cena um conjunto de empresas responsáveis por preparar e fazer chegar a castanha aos consumidores. Entre elas está a Frusantos, que atualmente trabalha com cerca de 2.800 produtores da região e desempenha um papel importante na valorização e comercialização da castanha de Sernancelhe.
Carlos Gomes, colaborador, explica que a qualidade da castanha depende de um conjunto de cuidados realizados ainda nos soutos. Segundo o responsável, “devemos ter em atenção sobretudo a instalação e preparação do souto”, destacando a importância da escolha do terreno, da exposição solar e da preparação do solo. Carlos Gomes não deixa de referir que “a gestão da rega e da nutrição também é fundamental para termos uma produção de qualidade”.
Depois da colheita, a castanha segue para as instalações da empresa, onde passa por várias etapas antes de chegar ao consumidor: a receção, a expurgação, a calibragem e o frio. A conservação é, também, outro dos aspetos fundamentais para preservar a qualidade da castanha, e é nesse sentido que o colaborador deixa um aviso claro: “As castanhas devem ser guardadas numa refrigeração, de forma a evitar a perda de peso, e nunca, nunca, nunca congelar a castanha”.

Nos últimos anos a empresa comercializou, em média, 576 toneladas de castanha por ano e grande parte da produção é destinada à exportação: “A Frusantos exporta para a Alemanha, Espanha, Itália, França e Suíça, e também para o Brasil e Canadá”.
Entre as variedades comercializadas, a Martaínha continua a destacar-se pela sua qualidade. Esta variedade diferencia-se “pelo sabor adocicado e também pela facilidade com que se descasca”, características que a tornam particularmente apreciada pelos consumidores.
Para além da vertente económica, a castanha continua a ser um dos principais símbolos de Sernancelhe. Carlos Gomes considera que “a tradição local desempenha um papel central e estratégico na valorização da castanha em Sernancelhe”, apontando como exemplo a Festa da Castanha, que conta já com mais de 30 anos de história e atrai milhares de visitantes ao concelho.
Terra da Castanha
Para Carlos Santos, presidente da Câmara Municipal de Sernancelhe, este continua a ser um dos produtos que melhor caracterizam o concelho: “A castanha é, de facto, um produto que nos caracteriza”, afirma.
Ao longo dos anos, a autarquia tem apostado na promoção da “Terra da Castanha”, sobretudo através da Festa da Castanha, um evento que conta já com mais de três décadas de história. Segundo o presidente, a iniciativa tem um forte impacto turístico, chegando a esgotar a capacidade hoteleira e atraindo visitantes de várias regiões do país.
Para além da vertente cultural e turística, a castanha continua a representar uma importante fonte de rendimento para a população local. Como refere o autarca, “muitos pequenos produtores conseguem um rendimento complementar através da venda da castanha”, contribuindo para a dinamização da economia do concelho.
Apesar da sua importância, o setor enfrenta desafios significativos. Os incêndios registados em 2025 destruíram centenas de hectares de soutos no concelho, reforçando a necessidade de continuar a investir na proteção e valorização deste produto.
Na sequência do catástrofe, a Câmara Municipal criou medidas de apoio à recuperação das áreas afetadas.
Num território onde a castanha faz parte da paisagem, da gastronomia e das tradições, o objetivo passa por continuar a valorizar um produto que permanece profundamente ligado à identidade e ao futuro de Sernancelhe.
