No “jogo” entre Clube Desportivo e SAD quem perde é Gouveia

Estatisticamente, há uma grande dificuldade para os clubes do interior chegarem aos mais altos níveis das competições nacionais, seja por questões logísticas, por questões desportivas ou por questões financeiras. É aqui que normalmente entram os investidores, mas aquilo que começa por parecer um sonho rapidamente se pode tornar num pesadelo. Foi precisamente isto que aconteceu com o Clube Desportivo de Gouveia.

Por: Maria Saraiva (aluna do 1º ano de Comunicação Social)

Foto: Facebook do Clube Desportivo de Gouveia

Sediado na cidade de Gouveia no distrito da Guarda, o CDG nasceu a 17 de setembro de 1963 e é desde então uma referência no futebol distrital da Associação de Futebol da Guarda. Com o passar dos anos, começou a nascer e a crescer uma ambição por parte do presidente do clube, Alberto Cardoso, de levar o clube mais longe ainda no futebol nacional. “O meu entendimento dentro do mundo do futebol é que cada vez é mais difícil os clubes, principalmente do interior, conseguirem financiamento para desenvolver as suas atividades. E, nomeadamente, quem quiser andar num nível competitivo um bocadinho mais alto”, diz o presidente.

Em 2023, após a equipa principal do clube se sagrar campeã da primeira divisão distrital da AFG e garantir a subida ao Campeonato de Portugal na época seguinte, surge uma oportunidade única para o Clube Desportivo de Gouveia, a proposta da criação da SAD (Sociedade Anónima Desportiva) por parte do investidor Eshan Naranji, de origem iraniana, mas residente nos Estados Unidos.

O projeto começou a ser executado da melhor maneira, tendo o investidor realizado um contrato de aluguer de um antigo hotel em Gouveia para se tornar numa residência exclusiva para atletas do clube, através da sua empresa EnfaSports, mas foi na última época, 2025/2026 que as coisas começaram a descarrilar.

Segundo Alberto Cardoso, tudo começou ainda durante a época 2024/2025 quando houve alguns atrasos ao nível de pagamentos, no entanto os jogos acabaram em abril e o presidente do clube afirma que até aí as coisas foram sendo salvaguardadas. A partir de abril, o presidente diz que enquanto clube começaram a não ser chamados para a participação no planeamento da época 2025/2026 e acrescentou que “no momento de inscrever as equipas, a informação que foi passada da parte do investidor é que ele não queria o futebol feminino. Se o clube quisesse, teria que ser o clube a avançar com o futebol feminino e todos os outros escalões seriam do chapéu da SAD e do investidor.” Aquilo que acabou então por acontecer foi que a SAD ficou responsável pela equipa principal e pela equipa sub-19 enquanto que o clube ficou responsável pelas equipas de sub-17 e sub-15 e também pelo feminino.

Chegamos a julho de 2025, mês em que começam oficialmente os trabalhos para a época 2025/2026, e logo desde aí as coisas começam a dar para o torto. Miguel Sena, jogador da equipa principal do Clube Desportivo de Gouveia, diz que quando chegou ao clube e foi logo informado de que na época passada tinha havido um atraso no pagamento dos salários, mas que foi uma situação espontânea e não se iria passar novamente, mas no final não foi isso que aconteceu. “Os primeiros dois meses atrasaram logo. Portanto, só recebemos agosto e setembro em dezembro e depois ficou a faltar quase agora até ao fim”, afirma o atleta, que diz ainda que para ele a maior dificuldade foi em termos de gasolina, pois sendo ele residente na cidade de Viseu deslocava-se todos os dias para Gouveia. Sena diz ainda que teve sempre esperança de que eles iriam cumprir, juntamente com todos os outros jogadores que ficaram até ao final, mas mais tarde começaram realmente a perceber que podiam “esquecer o dinheiro”.

As crises salariais começaram também a prejudicar a equipa em termos futebolísticos, em meados de novembro os resultados passaram a ser mais negativos e de acordo com Miguel Sena “a equipa começou-se a partir, começou a haver muita gente a querer sair. Muita gente que mesmo ficando, mostrava-se descontente. Acabou por partir o grupo, acabou por gerar ali um bocado de mau ambiente”, confessa.

Também o primeiro treinador da época, Rui Gomes, acabou por sair e a sua justificação, de acordo com o jogador, foi que já não estava a conseguir passar a mensagem para o grupo. De seguida veio o treinador Marco Almeida, que ao mesmo tempo era treinador da equipa sub-19 e como tal o aproveitamento não foi o melhor e a equipa não conseguiu somar um único ponto durante esse período. Depois veio o terceiro e último treinador da época, Ivo Figueiredo, que já conseguiu mexer mais com a equipa. Até ao momento da sua chegada tinham apenas 1 ponto na classificação e até ao final da época chegaram aos 7.

Ao mesmo tempo houve vários jogadores que também foram saindo do clube, mas a partir de certa altura o clube não deixou que mais ninguém saísse porque caso isso acontecesse já não teriam jogadores suficientes para acabar a época. O grupo de 13 homens que ficou até ao fim lidou com estas consequências durante vários meses, havendo também momentos em que não havia condições de treino, nomeadamente no que toca à falta de equipamentos e água quente para tomar banho no final.

Com tantas saídas da equipa principal, o treinador viu-se obrigado a chamar jogadores da equipa de sub-19 para jogarem juntamente com os seniores, e apesar de não terem qualquer tipo de contrato e por isso não receberem salário de qualquer das formas, também eles sofreram as consequências de outras maneiras.

Acontece que muitos destes atletas eram residentes no hotel alugado pela EnfaSports e algo que ao início funcionava bem na época 2024/2025, acabou por mudar na época 2025/2026.

Simão Pereira é jogador dos sub-19 e natural da Covilhã, devido à distância entre Gouveia e a sua cidade natal, Simão ficou alojado na residência durante as épocas 2024/2025 e 2025/2026. “A residência funcionava bem. Era feita uma limpeza semanal na residência de forma a manter o espaço organizado. Tínhamos sempre alimentação, a qual tínhamos de avisar, para as cozinheiras saberem com quem contar, não havendo assim desperdício alimentar”, afirma o jogador, acrescentando ainda que considera que estava numa das melhores academias de Portugal, pois tinha tudo o que um jogador precisava para poder estar ao mais alto nível, com pequeno-almoço, almoço, lanche, jantar, fisioterapeuta e nutricionista. 

Contudo, quando se deu o início da época 2025/2026 as coisas começaram a regredir. Simão Pereira diz que passaram a ter somente as refeições do almoço e do jantar, “já nada de limpezas, nada de nutricionista, nada de fisioterapeuta, só mesmo as refeições.” O jogador conta que ele e os restantes alojados acabaram por se aperceber que, com o tempo, a situação só ia piorar por falta de pagamentos aos trabalhadores da residência que tinham contrato com a EnfaSports. 

Além da falta de pagamento dos salários de jogadores e trabalhadores, começaram também a falhar os pagamentos da renda ao proprietário do hotel, o que o levou a tomar medidas. Num certo dia em meados de abril, Simão Pereira diz que acordou normalmente, mas quando abriu a porta do seu quarto ouviu vozes estranhas, mas que isso até era algo que acontecia com alguma frequência e, por isso, não estranhou e nada o preparava para o que viria aí. Um senhor desconhecido para Simão, que mais tarde se revelou ser Jorge Rodrigues, proprietário do hotel, subiu as escadas cruzando-se com ele. Simão questionou se ele precisava de alguma coisa, ao qual ele responde que precisa que todos os jogadores saiam da residência num espaço de 5 minutos. Todos ficaram sem saber o que fazer e decidiram ligar ao presidente do clube, Alberto Cardoso, a pedir ajuda. Nesse momento, o dirigente aconselhou os atletas a arrumarem todos os seus pertences porque iam mesmo ter de sair da residência. Assim o fizeram, e, seguidamente, deslocaram-se até ao Estádio Municipal do Farvão, enquanto Jorge Rodrigues se preparava para mudar as fechaduras das portas do hotel.

A partir daí, coube ao presidente e à restante direção do clube garantir que aos atletas não lhes faltava o essencial e trataram de assegurar a sua estadia e alimentação até ao final da época.

Alguns dos jogadores, que ainda andavam na escola, ficaram num apartamento no centro da cidade, para terem mais facilidade de ir às aulas. Os restantes, ficaram noutro apartamento mais deslocado do centro, mas como um desses atletas já tinha carta de condução ficou responsável por uma das carrinhas do clube, para usarem sempre que fosse necessário e também para ajudar os colegas a irem à escola. Outros decidiram ir para as suas casas e não voltar por falta de condições, o que levou o treinador a decidir parar com os treinos.

A nível de alimentação, a própria direção do clube cozinhou as refeições diárias para estes atletas, pagando do seu próprio bolso, num estabelecimento emprestado perto do Estádio Municipal do Farvão.

Nos primeiros meses da época 2025/2026, era passada a informação ao presidente Alberto Cardoso e também aos atletas de que, como o investidor era iraniano mas residente nos Estados Unidos, tinha dificuldade em movimentar o dinheiro para o estrangeiro, e sendo ele empresário perdeu alguns dos seus negócios devido ao atual conflito entre estes dois países. No entanto, com o passar dos meses, deixaram mesmo de ter qualquer notícia sobre ele, e assim ficaram até o final da época.

Agora, espera-se que na próxima época o Clube Desportivo de Gouveia dispute o campeonato distrital da primeira divisão da Associação de Futebol da Guarda e também o Campeonato Nacional da segunda divisão de sub-19, mas o mais certo é que irá enfrentar muitas dificuldades para voltar a ter estabilidade.

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