Recomeçar em Viseu: entre o acolhimento e os desafios da integração dos refugiados

Em Viseu, longe das manchetes e dos grandes debates políticos sobre imigração, o acolhimento concretiza-se através de pequenos gestos quotidianos: uma vaga num alojamento, uma aula de português, uma consulta médica, um emprego ou simplesmente alguém disposto a ajudar.

Por: Maria Eduarda Caetano (aluna do 1° ano de Comunicação Social)

Fugir da guerra, da perseguição religiosa, da violência ou da pobreza extrema é uma realidade para milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo dados internacionais, o número de pessoas deslocadas à força tem vindo a aumentar de forma consistente nas últimas décadas, impulsionado por conflitos armados, instabilidade política, alterações climáticas e crises humanitárias. Para muitos, abandonar o país de origem não representa uma escolha, mas sim a única alternativa possível para garantir a sobrevivência.

Portugal tem sido um dos países europeus que recebe requerentes de asilo e refugiados provenientes de diferentes regiões do mundo. Ucrânia, Afeganistão, Síria, Nigéria, Gâmbia, Iraque, Paquistão e China são apenas alguns dos países de origem das pessoas que chegam ao território nacional em busca de proteção internacional.

Em Viseu, decorre diariamente um trabalho de acolhimento e integração desenvolvido por várias instituições. A Segurança Social, em articulação com a Cáritas, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), os serviços de saúde, as escolas e diversas entidades locais, acompanha refugiados desde a sua chegada até à tentativa de autonomização.

Mas a integração está longe de ser um processo linear. Entre histórias de sucesso e percursos marcados por dificuldades, o caminho de quem procura reconstruir a vida num país desconhecido é frequentemente feito de obstáculos, incertezas e adaptações constantes.

Abdala Bah conhece essa realidade melhor do que ninguém. Tinha apenas 13 anos quando percebeu que não queria continuar a viver na Gâmbia. A decisão de partir levou-o a atravessar vários países africanos, a enfrentar o deserto do Saara e a arriscar a vida no Mediterrâneo. Hoje, aos 20 anos, trabalha numa empresa em Viseu, joga futebol nos tempos livres e sonha reencontrar a família que deixou para trás.

“Quando cheguei a Portugal sentia-me perdido. Não sabia o que fazer”, recorda.

A sua história é apenas uma entre dezenas acompanhadas pelos serviços da Segurança Social na região de Viseu.

Embora não seja uma das cidades portuguesas mais associadas aos fluxos migratórios, Viseu tem recebido, nos últimos anos, refugiados e requerentes de proteção internacional provenientes de diferentes regiões do mundo. A cidade beneficia de uma rede de apoio composta por instituições públicas, organizações sociais e entidades locais que procuram criar condições para a integração destas pessoas.

A dimensão intermédia do concelho e a existência de respostas de acolhimento têm permitido distribuir refugiados para fora dos grandes centros urbanos, transformando Viseu num dos territórios onde se procura concretizar, na prática, o desafio da integração.

Refugiados em Portugal: uma realidade em crescimento

Embora Portugal não seja tradicionalmente um dos principais destinos europeus para requerentes de asilo, o país tem assumido um papel crescente no acolhimento de refugiados e beneficiários de proteção internacional.

Nos últimos anos, a participação portuguesa em programas europeus de reinstalação e recolocação permitiu receber milhares de pessoas provenientes de zonas de conflito e crise humanitária. Em Portugal, o número de pessoas acolhidas aumentou significativamente nos últimos anos.

Segundo dados do Governo português, desde 2015 o país recebeu mais de 72 mil refugiados e beneficiários de proteção internacional, incluindo mais de 56 mil cidadãos deslocados da Ucrânia após a invasão russa iniciada em 2022. Foram também acolhidas mais de duas mil pessoas através de programas de recolocação europeia, mais de mil refugiados através de programas de reinstalação e mais de mil cidadãos afegãos ao abrigo de mecanismos de admissão humanitária. 

A guerra na Ucrânia representou um ponto de viragem no sistema de acolhimento português. Entre 2022 e 2024, dezenas de milhares de cidadãos ucranianos receberam proteção temporária em Portugal, tornando-se o maior grupo de refugiados acolhidos no país nas últimas décadas. Em 2024, estimava-se que Portugal tivesse recebido mais de 63 mil refugiados, dos quais a grande maioria era proveniente da Ucrânia. Apesar destes números, especialistas em migrações sublinham que a integração continua a ser o principal desafio. Garantir alojamento, acesso à saúde e documentação constitui apenas a primeira etapa.

A verdadeira integração passa pela aprendizagem da língua portuguesa, pela entrada no mercado de trabalho, pelo acesso à educação e pela construção de novas relações sociais que permitam aos refugiados reconstruirem uma vida autónoma e digna. É precisamente esse processo que se desenrola diariamente em cidades como Viseu, onde o acolhimento deixa de ser uma estatística e passa a ter rosto, nome e história.

Por de trás de cada processo acompanhado pela Segurança Social existe uma pessoa que procura recuperar aquilo que perdeu: segurança, estabilidade e a possibilidade de voltar a construir um futuro.

O que significa pedir asilo?

O direito de asilo está consagrado na Constituição da República Portuguesa e em diversos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. Destina-se a pessoas que são perseguidas ou cuja vida e integridade física estão ameaçadas devido a conflitos armados, perseguições religiosas, étnicas, políticas ou outras situações de risco grave.Quando um cidadão estrangeiro chega a Portugal e solicita proteção internacional, inicia-se um processo administrativo destinado a avaliar a sua situação. Durante a fase inicial, o acolhimento é assegurado pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e pelo Centro Português para os Refugiados (CPR).

É nesta etapa que são garantidas as necessidades básicas, incluindo alojamento temporário, alimentação e acompanhamento jurídico.Após a admissão do pedido, a responsabilidade pelo acompanhamento passa para a Segurança Social, que coordena o processo de integração através de uma rede de parceiros locais.Segundo Paula Fernandes, técnica da Segurança Social responsável pelo acompanhamento de refugiados e requerentes de asilo em Viseu, a maioria das pessoas chega à região após permanecer algumas semanas nos centros de acolhimento de Braga ou da Bobadela, em Lisboa. 

“Quando terminam o período inicial de acolhimento, os serviços centrais procuram vagas em diferentes zonas do país. Somos contactados para verificar se temos condições para receber novas pessoas.”

O processo exige uma articulação permanente entre várias entidades. Antes da chegada de cada refugiado, é necessário confirmar a existência de alojamento disponível, garantir acesso à alimentação e preparar o acompanhamento social que será necessário nos meses seguintes. Em Viseu, este trabalho é desenvolvido através de uma rede de instituições que inclui unidades hoteleiras, refeitórios sociais, centros de saúde, escolas, centros de emprego e organizações de solidariedade social.

Muito mais do que apoios financeiros

Ao contrário do que muitas vezes é percecionado, o trabalho desenvolvido pela Segurança Social não se resume à atribuição de apoios económicos.

Segundo Paula Fernandes, os primeiros dias são normalmente os mais exigentes.

“É preciso tratar da documentação, dos cuidados de saúde, da inscrição na Segurança Social, do número de contribuinte, da escola das crianças e da aprendizagem da língua portuguesa”.

Para quem chega sem conhecer o idioma, sem rede familiar e sem qualquer conhecimento sobre o funcionamento das instituições portuguesas, tarefas simples podem transformar-se em desafios complexos. Os refugiados recebem apoio para encontrar alojamento, aceder aos serviços de saúde, matricular os filhos na escola, frequentar cursos de português e procurar emprego. Em muitos casos, o alojamento inicial é assegurado em hotéis ou residenciais protocoladas com os serviços sociais. A alimentação é garantida através de cantinas e refeitórios sociais, sendo também atribuídos apoios financeiros para despesas básicas. Existe ainda um complemento destinado ao pagamento de alojamento quando as famílias conseguem encontrar uma habitação mais estável.

Paralelamente, a Segurança Social articula-se com o IEFP para facilitar o acesso ao mercado de trabalho e à formação profissional. O objetivo é claro: criar condições para que cada pessoa alcance autonomia económica e deixe gradualmente de depender dos apoios sociais.

Contudo, a realidade nem sempre segue o percurso previsto.

Entre histórias de sucesso e percursos interrompidos

Ao longo dos últimos anos, dezenas de famílias passaram pelos programas de acolhimento em Viseu. Algumas conseguiram integrar-se plenamente. Outras continuam a enfrentar dificuldades significativas. Paula Fernandes recorda o caso de duas famílias iraquianas que chegaram ao país através de programas de reinstalação e que hoje vivem de forma completamente autónoma. Os adultos encontraram emprego, os filhos foram integrados no sistema educativo e, gradualmente, deixaram de necessitar dos apoios atribuídos na fase inicial. “Neste momento estão totalmente autonomizados”, afirma.

Mas nem todas as histórias têm o mesmo desfecho. Outra família iraquiana acompanhada pelos serviços sociais nunca conseguiu adaptar-se plenamente à realidade portuguesa. As dificuldades linguísticas, a ausência de integração profissional e a dependência prolongada dos apoios sociais impediram a conquista da autonomia.Segundo a técnica, a família continua atualmente dependente do Rendimento Social de Inserção (RSI) e de uma prestação atribuída a um filho com deficiência.

Após problemas relacionados com a habitação, conseguiram encontrar uma nova casa com o apoio da comunidade islâmica local. Para Paula Fernandes, estes casos demonstram que a existência de apoios, por si só, não garante o sucesso da integração.A situação repete-se em algumas famílias afegãs acompanhadas na região. Uma dessas famílias decidiu abandonar Portugal após o término do período inicial de acolhimento. Perante a perspetiva de perder os apoios atribuídos durante o programa, os membros da família partiram para a Alemanha. As filhas interromperam os estudos e a família deixou subitamente a habitação disponibilizada pelas instituições.

Meses mais tarde regressaram a Portugal. Como possuíam estatuto de refugiado atribuído pelas autoridades portuguesas, as autoridades alemãs determinaram o seu retorno ao país responsável pelo acolhimento inicial. Outro caso envolve uma família afegã cuja integração continua a revelar-se particularmente difícil. Após dezoito meses de acompanhamento intensivo, os progressos permaneceram reduzidos. As dificuldades linguísticas continuam a ser um dos maiores obstáculos e a dependência dos apoios sociais mantém-se. A família chegou mesmo a abandonar Portugal para tentar recomeçar na Suíça, onde tinha familiares.

Contudo, acabou por regressar após intervenção das autoridades locais. Segundo Paula Fernandes, situações como estas demonstram a complexidade dos processos de integração.

“Os direitos existem, mas também existem deveres. É necessário procurar trabalho, frequentar formações e participar ativamente no processo de integração.”

Especialistas na área das migrações alertam, contudo, que o sucesso ou insucesso da integração raramente depende de um único fator. A adaptação a um novo país pode ser condicionada por experiências traumáticas vividas antes da chegada, pela separação familiar, pelas diferenças culturais, pelas dificuldades linguísticas e pela ausência de redes de apoio. Em muitos casos, os refugiados chegam após anos de deslocação e incerteza, trazendo consigo marcas emocionais que tornam o processo de reconstrução particularmente exigente.

Uma nova realidade: o aumento dos pedidos de cidadãos chineses

Nos últimos tempos, os serviços de acolhimento registaram também um aumento significativo de requerentes de asilo provenientes da China. Segundo os relatos, muitos afirmam ter abandonado o país devido a perseguições relacionadas com a prática religiosa cristã.Grande parte destes cidadãos passou anteriormente pela Croácia, onde iniciou processos de pedido de asilo.

Muitos descrevem experiências negativas durante a permanência nesse país e referem ter escolhido Portugal devido à imagem de acolhimento que ouviram junto de outras comunidades migrantes. No entanto, a integração desta população apresenta desafios específicos. As barreiras linguísticas são particularmente significativas. Muitos chegam sem conhecimentos de português ou inglês, dificultando a comunicação com os serviços públicos, o acesso ao mercado de trabalho e a participação em ações de formação. Além disso, muitos demonstram receio e desconfiança resultantes das experiências vividas durante o percurso migratório.

Para a Paula Fernandes, a adaptação desta comunidade exige um acompanhamento ainda mais próximo e personalizado.

Sete anos longe de casa.

Entre os casos de integração bem-sucedida encontra-se Abdala Bah. O jovem deixou a Gâmbia quando tinha apenas 13 anos. A decisão foi motivada pela procura de melhores condições de vida e pela esperança de construir um futuro diferente. A viagem que o trouxe até à Europa durou vários anos. “Da Gâmbia para o Senegal fui de autocarro. Do Senegal para o Mali também. Mas depois, do Mali para a Argélia, foi pelo deserto. Foram três dias de viagem. Foi uma loucura. Muito difícil”, conta.

A travessia do Saara continua gravada na memória. O calor extremo, a escassez de água e o medo constante de não chegar ao destino marcaram uma das etapas mais perigosas do percurso. Da Argélia seguiu para a Líbia. “Também foi muito difícil. Naquela altura eu só pensava que precisava continuar. “Na Líbia permaneceu cerca de três anos. Só mais tarde conseguiu atravessar o Mediterrâneo.” Fui num barco pequeno primeiro. Depois num barco maior. Estive quase duas semanas no mar.” A travessia foi um dos momentos mais perigosos da viagem. Como milhares de migrantes que tentam chegar à Europa todos os anos, enfrentou condições extremamente precárias e viveu dias marcados pelo medo. Após chegar a França, acabou por vir para Portugal.Mas a chegada não correspondeu às expectativas.

“Quando cheguei sentia-me perdido. Ninguém me explicava o que estava a acontecer”.

A adaptação revelou-se difícil. Durante algum tempo chegou mesmo a ponderar abandonar Portugal. “Cheguei a comprar bilhetes para sair daqui. Pensei em voltar para França. Achava que Portugal não era para mim.” Apesar disso, decidiu permanecer. A mudança aconteceu quando foi encaminhado para Viseu. “Foi aqui que a minha vida mudou.”, confessa.Gradualmente conseguiu encontrar trabalho, aprender português e criar uma rede de relações. Hoje trabalha na empresa Vidro Comfort e descreve Portugal como um país seguro.

“Quando vim para cá procurava uma nova vida. Queria coisas diferentes. Hoje vejo que consegui encontrar isso.”

Apesar da estabilidade alcançada, continua a existir uma ausência difícil de preencher. Há sete anos que não vê a mãe nem os irmãos. A distância continua a ser uma das consequências mais dolorosas da decisão que tomou ainda adolescente. O maior sonho é simples: regressar temporariamente à Gâmbia para reencontrar a família.

“Aqui posso construir o meu futuro”

Também Destiny Omoaregba encontrou em Portugal uma oportunidade para recomeçar. Natural da Nigéria, chegou ao país em agosto de 2023, fugindo da violência, da insegurança, dos conflitos religiosos e da discriminação que afirma existir no seu país.Tal como muitos refugiados, deixou para trás a família, os amigos e toda uma vida construída ao longo dos anos. “Vim para conseguir ganhar a vida, para me tornar uma pessoa melhor e alcançar o que não consegui no meu país. Achei que Portugal me iria proporcionar isso”, relata.

Quando fala da decisão de partir, Destiny Omoaregba recorda que a mudança foi motivada não apenas por razões económicas, mas também pela procura de segurança e estabilidade. A chegada a Portugal marcou o início de uma transformação profunda. “A forma como cheguei não é a mesma forma como estou hoje. Não me arrependo de ter vindo para Portugal.” Os primeiros tempos foram marcados pela solidão. Sem familiares ou amigos próximos, teve de aprender sozinho a lidar com uma nova realidade.

“Quando precisas de alguma coisa vais ter com a tua mãe ou com o teu pai. Aqui não tens ninguém. Tudo depende de ti.”, sublinha. A adaptação exigiu esforço e persistência. “No início vai ser intenso e difícil. É muito solitário. Mas se estiveres determinado e motivado, consegues”.

A primeira impressão de Portugal permanece viva na memória. “Quando cheguei vi um mundo diferente. No meu país há muitas estradas em mau estado e edifícios degradados. Aqui parecia que tinha entrado noutro mundo. Era como estar no paraíso.” Apesar dessa admiração inicial, os primeiros meses foram difíceis. Passou por Lisboa, Guarda, Alijó, Aveiro e outros locais antes de chegar a Viseu. Durante esse período viveu em alojamentos temporários destinados a requerentes de proteção internacional. “A experiência não foi boa. Especialmente por causa da comida.”A instabilidade constante dificultava a adaptação. Cada mudança significava recomeçar novamente.  A situação alterou-se quando chegou a Viseu.

“Viseu é agradável. É uma cidade tranquila. Foi um ponto de viragem. “Foi também aqui que encontrou pessoas que facilitaram a integração. “No início não tinha ninguém. Depois conhecemos pessoas que tornaram tudo muito mais fácil”

Atualmente trabalha, vive sozinho e sente que alcançou a estabilidade que procurava quando deixou a Nigéria. “O trabalho está a correr bem. Tenho um lugar só para mim.” Ao contrário do que muitas vezes surge nos debates sobre imigração, Destiny afirma nunca ter sentido discriminação em Portugal.

“Os portugueses são acolhedores. Nunca senti preconceito ou exclusão.” Ainda assim, acompanha com preocupação as notícias que chegam do país natal. “Vejo notícias de raptos, assassinatos de pessoas inocentes e violência contra crianças. É muito triste.”

O futuro passa por permanecer em Portugal.

“Quero trabalhar, poupar dinheiro, visitar a minha família, casar e ter filhos. Quero construir a minha vida aqui”.

Integrar é muito mais do que acolher

Quando se fala de refugiados, a atenção centra-se frequentemente no momento da chegada. Contudo, para os especialistas, o verdadeiro desafio começa precisamente depois. Encontrar um local seguro para viver representa apenas o primeiro passo de um percurso longo e complexo que pode durar vários anos.

O Conselho Português para os Refugiados (CPR), uma das principais entidades responsáveis pelo acolhimento e apoio a requerentes de asilo em Portugal, defende que a integração deve começar desde o primeiro momento em que a pessoa chega ao país. O acesso à habitação, à saúde, à educação, à aprendizagem da língua portuguesa e ao mercado de trabalho são considerados elementos fundamentais para que os refugiados possam reconstruir as suas vidas de forma autónoma.

No entanto, a integração não depende apenas dos apoios disponibilizados pelas instituições. Trata-se de um processo que envolve tanto quem chega como a sociedade que acolhe. O objetivo final não é apenas garantir proteção, mas permitir que cada pessoa participe plenamente na comunidade, usufruindo dos mesmos direitos e oportunidades que qualquer cidadão residente. 

Os investigadores que estudam os processos de integração referem que este percurso acontece de forma gradual e pode prolongar-se durante muitos anos. Nos primeiros meses, os refugiados são frequentemente confrontados com a perda de tudo aquilo que deixaram para trás: família, profissão, estatuto social, língua, cultura e rotinas.

Trata-se de uma fase marcada pelo choque emocional, pela insegurança e pelo sentimento de desorientação. Numa segunda fase, surgem os desafios da adaptação. É o período em que as pessoas procuram compreender o funcionamento das instituições, aprender uma nova língua e reconstruir a sua vida quotidiana. Só mais tarde, ao longo dos anos, começa a consolidar-se um verdadeiro sentimento de pertença à sociedade de acolhimento. Segundo estudos sobre integração de refugiados, a adaptação plena raramente acontece de forma rápida. Os primeiros dois anos são geralmente dedicados à recuperação da estabilidade perdida.

Apenas ao fim de quatro ou cinco anos muitas pessoas conseguem alcançar um nível significativo de autonomia, enquanto a consolidação da integração pode prolongar-se por uma década. Esta realidade ajuda a compreender alguns dos testemunhos recolhidos em Viseu. Tanto Abdala Bah como Destiny Omoaregba descrevem sentimentos de solidão, confusão e incerteza durante os primeiros meses em Portugal. Embora as suas histórias tenham terminado com sucesso, o percurso até à autonomia foi marcado por dificuldades que vão muito além da obtenção de documentos ou de um emprego.

A aprendizagem da língua portuguesa continua a ser um dos maiores desafios identificados pelas instituições de acolhimento. Sem dominar o idioma, torna-se mais difícil encontrar trabalho, frequentar formação profissional, estabelecer relações sociais ou compreender procedimentos administrativos. Por essa razão, os cursos de Português Língua de Acolhimento são considerados uma das ferramentas mais importantes para a integração.

Outro desafio recorrente é o isolamento social. Muitos refugiados são colocados em cidades médias ou pequenas, como Viseu, numa lógica de distribuição geográfica que procura evitar a concentração excessiva em grandes centros urbanos. Esta estratégia permite repartir os recursos disponíveis e promover uma integração mais equilibrada no território nacional. No entanto, também pode aumentar a distância em relação a familiares, comunidades da mesma nacionalidade ou redes de apoio já estabelecidas. 

Em Portugal, o acolhimento de refugiados continua a ser um fenómeno relativamente discreto quando comparado com outros países europeus. Ainda assim, nos últimos anos, o número de pessoas recebidas através de programas de reinstalação e proteção internacional aumentou significativamente, obrigando instituições locais a desenvolver respostas cada vez mais especializadas. Para Paula Fernandes, técnica da Segurança Social em Viseu, esta realidade confirma aquilo que observa diariamente no terreno.” O acolhimento é importante, mas a integração é um processo muito mais longo. Não basta garantir casa e alimentação. É preciso criar condições para que as pessoas consigam viver de forma autónoma e participem na comunidade.” As histórias acompanhadas em Viseu mostram precisamente essa complexidade. Algumas famílias conseguem reconstruir a vida em poucos anos. Outras permanecem dependentes dos apoios sociais durante muito tempo ou acabam por procurar novas oportunidades noutros países europeus.

Em todos os casos, porém, a integração continua a ser um percurso marcado por desafios constantes, mas também pela esperança de um futuro melhor.Em Viseu, a integração dos refugiados acontece longe dos holofotes. Faz-se em salas de aula onde se aprende português, em entrevistas de emprego, em consultas médicas, em quartos de hotel transformados temporariamente em casa e em longos processos burocráticos que procuram devolver estabilidade a quem perdeu quase tudo.

No final da entrevista, Destiny Omoaregba deixou uma mensagem que resume aquilo que o levou a abandonar a Nigéria: “Façam tudo o que puderem para procurar uma vida melhor. Sei o que senti quando saí. “As histórias de Abdala Bah e Destiny Omoaregba mostram que a integração vai muito além dos procedimentos administrativos ou dos apoios sociais. Trata-se de um percurso profundamente humano, marcado por perdas, desafios, adaptações e conquistas. Ambos chegaram a Portugal sem saber o que os esperava. Ambos enfrentaram momentos de solidão, incerteza e dificuldade. E ambos conseguiram, gradualmente, construir uma nova vida.Nem todas as histórias terminam da mesma forma.

Algumas famílias conseguem atingir rapidamente a autonomia; outras continuam a enfrentar obstáculos difíceis de ultrapassar. Mas todas partilham uma característica comum: a procura de segurança, estabilidade e dignidade.Por detrás de cada pedido de asilo existe uma história interrompida pela guerra, pela perseguição, pela violência ou pela pobreza. Histórias que não terminam quando a fronteira é atravessada. Pelo contrário, é muitas vezes nesse momento que começa um novo desafio: reconstruir uma vida em Viseu, esse processo continua a escrever-se todos os dias. Entre dificuldades e conquistas, permanece a esperança de quem procura uma segunda oportunidade para recomeçar e voltar a chamar casa ao lugar onde vive.

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