Guerra do Irão reduz clientes no comércio local português
Por volta das 12h, num dia de semana como qualquer outro, o centro de Viseu encontra-se vazio e sem vida. O silêncio reina sobre as ruas e as lojas de comércio quase que não possuem clientes. Não se vê muitas pessoas a comprar roupas ou sapatos. Ao conversar com os lojistas que trabalham nesta região e clientes que frequentam os comércios regionais pudemos perceber a razão deste deserto: as pessoas deixaram de comprar com frequência os produtos que consideram superficiais pois a subida dos preços dos produtos tornou-se brutal.
Por: Kamyla Fonseca (aluna do 1º ano de Comunicação Social)
Ao passear pelas ruas comerciais de Viseu encontrámos a loja Casa dos Queijos localizada na Rua Formosa. Entramos e vemos os trabalhadores sentados, à espera de clientes. Atrás do balcão está Lurdes, lojista, com um olhar fixo na rua. Ela conta que já não há clientes como havia há meses atrás e acha que isto se deve à Guerra do Irão e o aumento do preço dos combustíveis.
Mas, para percebermos melhor o motivo que levou a esta queda do fluxo de clientes no comércio local e a sua relação com a Guerra do Irão é preciso contextualizarmos e olhar para alguns meses atrás.
No dia 28 de fevereiro de 2026 iniciou-se a Guerra do Irão com o ataque dos EUA. O Irão começou a criar uma resistência em dar continuidade à passagem do petróleo no estreito de Ormuz, local por onde passa praticamente todo o petróleo que é transportado para o mundo inteiro, o que tornou mais difícil o acesso e compra de petróleo.
Com isso, o seu valor aumentou e, consequentemente, aumentaram também os preços dos combustíveis que são produzidos a partir deste material. Se os combustíveis sobem, os meios de transportes que transitam com os produtos para chegarem ao mercado de venda também sobem, obrigando os donos de comércios locais a elevarem os preços de venda para compensar o custo de transporte.
A OPEP (Organização dos Países exportadores de Petróleo) acredita que a procura de petróleo continuará a aumentar e estima-se que a procura será de 1,4 milhões de barris. Com isto, as pessoas deixam cada vez mais de comprar, os lojistas deixam cada vez mais de ganhar e há pouco lucro e retorno financeiro para os comerciantes.
Todo o mundo sofreu as consequências deste acontecimento e em Portugal não foi diferente. Na região de Viseu é visível o esfriamento de clientes. Ao olhar para dentro das lojas vemos silêncio total e somente os lojistas. Dando seguimento às visitas encontrámos Rui Costa, lojista na Ourivesaria Preciosa, onde se vendem peças e acessórios de ouro. Ele mostra-se triste face à redução do fluxo de clientes.
Ao entrar na sua loja vemos somente o espaço vazio e sem nenhum cliente. Somente ele está presente, atrás do balcão, à espera que faça alguma venda. Conta que “houve uma subida significativa dos preços quando começou a guerra do Irão, e que tem estado a fazer com que o preço de venda ao público tenha que aumentar para acumular os custos que têm aumentado também”. Rui Costa compreende que a Guerra do Irão teve um forte impacto em Portugal a nível comercial e que pode comprovar isto ao avaliar a movimentação da sua loja que já não é como era antes.
Para além disso, sabemos que nem só o fator comercial sofreu alterações, mas também o setor alimentício. Os produtos alimentícios transportam-se da mesma maneira que funciona o transporte de produtos de venda, sendo assim, os seus preços também sofreram alterações. Porém, as pessoas não deixam de comprar por serem elementos indispensáveis na sua rotina.
Assim sendo, uma pessoa facilmente deixa de comprar uma peça de roupa que nem sequer precisava, mas não pode deixar de comprar alimentos todas as semanas.
Sofia Pinto, lojista na Passagem – Modas localizada na Rua Direita, afirma que “hoje em dia as pessoas voltam-se mais para os supermercados e para a alimentação, sendo o vestuário uma coisa mais supérflua e elas já não compram tanto”. Sofia possui uma loja grande com imensos tipos de roupa e conta com uma funcionária para a ajudar. Ambas aproveitam para interagir com os poucos clientes que veem passar pela porta à dentro.
Seguindo as ruas comerciais e observando todo o tipo de lojas, deparamo-nos com o mesmo padrão a repetir-se. Porém, aos fins de semana o cenário muda. Os turistas e pessoas de todo o país chegam à cidade trazendo movimento ao comércio local.
O turismo faz o comércio manter-se de pé e traz energia aos comerciantes. Ao passear uma outra vez ao fim de semana pelas ruas do centro de Viseu podemos ver grupos com dezenas de pessoas a fazerem excursões e visitas aos pontos turísticos mais conhecidos da cidade. Eles mostram-se interessados na visita e, consequentemente, compram produtos de recordação para quando forem retornar a suas casas. Podemos ver famílias reunidas nas gelatarias com as suas crianças a divertirem-se, grupos de amigos nos cafés a verem um jogo de futebol e a terem um momento de convívio e vemos pessoas a chegarem com fins religiosos para visitar as igrejas e a Sé de Viseu. Tudo isto é o que levanta o comércio local e não o deixa morrer.
Existe um contraste entre o comércio ao longo da semana e o comércio ao fim de semana. Os preços continuam os mesmos, porém o turista nunca irá deixar de consumir e comprar enquanto as pessoas que vivem nesta região sempre evitarão o gasto desnecessário. Isto não muda o facto de realmente haver uma inflação e uma queda no fluxo de clientes nos comércios locais, mas o que hoje está a sustentá-lo é, sem dúvida, o turismo. Apesar das dificuldades económicas que a cidade está a enfrentar o turismo mantém o comércio local de pé.
