Jovens entre o interior e o litoral: ficar ou partir?
O interior de Portugal continua a perder população jovem, mas esta realidade está longe de ser uniforme. Enquanto alguns jovens abandonam Viseu e outras cidades do interior à procura de melhores condições de vida e emprego, outros optam por permanecer e construir o seu futuro na região. Entre incentivos, desafios no acesso ao mercado de trabalho e novas formas de empreendedorismo, permanece a questão: será que o interior tem capacidade para competir com o litoral?

Reportagem de Beatriz Abreu e Joana Monteiro
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), os fenómenos da litoralização e do despovoamento do interior continuam a acentuar-se. Distritos como Portalegre, Beja, Castelo Branco, Guarda e Évora registaram perdas populacionais nos últimos anos. Em contraste, Braga, Faro, Aveiro, Leiria, Setúbal e Viseu apresentam variações positivas, sendo Viseu o único distrito do interior a registar este crescimento.
A falta de oferta de emprego, a escassez de serviços e o envelhecimento populacional continuam a ser apontados como algumas das principais causas da saída dos jovens para o litoral, onde existe uma maior concentração de oportunidades de trabalho, ensino superior e serviços.
No distrito de Viseu têm sido desenvolvidas algumas iniciativas para contrariar esta tendência. A associação Interioriza-te promove projetos como o Social Innovation Hub e a Feira de Empregabilidade e Inovação (FEI), que procuram estimular o empreendedorismo, a participação jovem e a fixação de talento no interior. A Câmara Municipal de Viseu tem igualmente apostado em medidas dirigidas aos jovens, através do Conselho Municipal da Juventude, do Cartão Jovem Municipal e do programa Verão Viseu Jovem.
“Nos sítios onde não há nada, é mais fácil criar algo novo”
João Mota, estudante de mestrado em Comunicação Aplicada na Escola Superior de Educação de Viseu, afirma que a cidade superou as suas expectativas desde que chegou para frequentar o ensino superior. Natural de Seia, destaca a proximidade à sua terra natal, a qualidade da formação e o ambiente acolhedor como fatores que o levam a querer continuar na região.
Apesar dos desafios financeiros associados à vida estudantil, considera que Viseu oferece oportunidades para os jovens iniciarem a sua carreira. João critica ainda o preconceito existente em relação ao interior e defende que muitos jovens abandonam estas regiões sem explorar o seu potencial.
Também Pedro Esteves, recém-licenciado em Comunicação Social, natural de Vila Real, encontrou em Viseu razões para permanecer após concluir a licenciatura. Atualmente a trabalhar na área da comunicação, considera que a qualidade de vida é a principal vantagem da cidade.
Embora reconheça que os grandes centros urbanos oferecem mais oportunidades profissionais, acredita que o menor custo de vida e um ritmo mais tranquilo tornam a cidade mais atrativa. Na sua perspetiva, muitos jovens continuam a associar o sucesso às grandes cidades, ignorando as oportunidades existentes no interior. “Às vezes temos essa ideia de que Lisboa é que é bom e o Porto é que é bom, Viseu é uma aldeia não tem nada, mas Viseu tem mais do que suficiente para nós ficarmos aqui”, defende.

Os dois testemunhos mostram que a fixação dos jovens no interior depende não apenas das oportunidades oferecidas pelos territórios, mas também da forma como estes são percecionados. Apesar dos desafios que continuam a existir, Viseu surge como um exemplo de um território que procura criar condições para atrair e reter população jovem. Entre políticas de apoio, iniciativas locais e a qualidade de vida apontada pelos entrevistados, a cidade demonstra que o interior pode ser uma alternativa viável para estudar, trabalhar e construir um projeto de vida. O futuro da fixação jovem dependerá, por isso, tanto da criação de oportunidades como da capacidade de os jovens reconhecerem o potencial que existe fora dos grandes centros urbanos.
