Patas sem Lar. Abandono de animais é problema sem fim à vista
Um cão sentado à beira de uma estrada, um gato escondido dentro de um caixote do lixo, ou um animal perdido a andar sem destino pelas ruas, são cenários que continuam a fazer parte da realidade portuguesa. Muitos esperam durante horas por alguém que não vai voltar, outros procuram comida e abrigo. Cada um com uma história ou circunstâncias diferentes de vida, mas todos têm algo em comum: são vítimas de abandono.
Reportagem de Beatriz Cadima e Afonso Morais

O abandono de animais é um problema que se prolonga há décadas e que traz dificuldades tanto para os animais que sofrem com as consequências do abandono, como para as associações, abrigos e canis que cada vez mais se veem apertados com a falta de espaço e a falta de apoio necessária para acolher todos os que precisam de ajuda. Por trás de cada animal abandonado existe negligência e falta de humanidade, que resulta em animais assustados, traumatizados, obrigados a sobreviver sozinhos, sem entender o motivo de terem sido rejeitados.
Ana Vaz, diretora do Cantinho dos Animais Abandonados de Viseu, acompanha de perto esta realidade diariamente. Percebendo a situação vivida por muitos animais em Portugal e movida por uma grande paixão, decidiu dedicar grande parte da sua vida aos animais. Começou por socorrer animais abandonados em conjunto com outras voluntárias, o que mais tarde deu origem ao Cantinho dos Animais Abandonados. A experiência de vida com casos de abandono animal, mostrou que Ana Vaz tem uma visão crítica sobre a forma como é tratada a proteção animal pela sociedade. Para a diretora do Cantinho dos Animais Abandonados, a forma como os animais se dão às pessoas é o oposto da forma como o ser humano trata o animal.
Segundo Ana Vaz, o abandono continua a ser um problema recorrente e a falta de consciência, a falta de responsabilidade por parte dos tutores são a maior causa para que a situação continue a acontecer.
Chegam regularmente animais em condições de saúde precárias ao canil, infestados com parasitas e até mesmo com necessidades de apoio médico. Para a diretora do espaço, estas situações refletem diretamente a falta de compromisso e responsabilidade das pessoas, devido à insuficiência de leis e fiscalização eficaz por parte do governo.
Adoção deve ser uma decisão consciente e pensada
Por outro lado, para além das associações e dos abrigos, também existem cidadãos que se preocupam e que, por iniciativa própria tentam ajudar, como é o caso de Jéssica Custódio, desempregada, que ao longo da sua vida sempre acolheu e ajudou vários animais encontrados na rua. Juntamente com o seu pai, que foi quem a fez gerar essa ligação com os animais, devido ao facto de que o seu pai trazia frequentemente animais resgatados para casa, transformou, ao longo do tempo, este pequeno hábito num compromisso pessoal e então numa forma de manter a consciência tranquila sempre que ajuda algum animal.

Jéssica Custódio considera revoltante que muitas pessoas adotem um cão num canil e, pouco tempo depois, o devolvam por razões como, ladrar em excesso, ser demasiado ativo ou causar estragos em casa. No seu ponto de vista, estas atitudes mostram que há uma falta de responsabilidade por parte das pessoas. Por isso, defende que a adoção deve ser uma decisão consciente e pensada, baseada no compromisso, na responsabilidade e no respeito pelo bem-estar do animal.
Esta opinião de Jéssica Custódio coincide com o ponto de vista de Eduardo Guerreiro, professor na Escola Superior de Educação de Viseu (ESEV). “Não posso ter mais animais se depois não tenho forma de lhes dar a qualidade de vida”. A perspetiva de Eduardo Guerreiro sobre a adoção é que, muitas vezes, não é completamente ponderada.
O professor, não tendo uma visão de quem trabalha com os animais, mas de quem cuida e de quem teve experiências responsáveis ao cuidar de animais, sente uma dificuldade enorme em falar sobre os maus-tratos aos animais.
Belina Martins, voluntária no Abrigo da Mãozinhas, partilha a sua experiência enquanto pessoa reformada que tenta dar algum amor aos animais que não têm uma casa. O principal motivo que levou Belina Martins a começar a fazer voluntariado, foi a perda da sua cadela. As saudades do seu animal motivaram a voluntária a dedicar o seu tempo a contribuir com alguma ajuda ao canil e mencionou que as pessoas reformadas podem contribuir com pequenos gestos.

Ao fim do dia, muitos animais continuam exatamente onde já estavam antes, sozinhos no mundo e desamparados. Para quem passa, pode ser apenas mais um, mas para os animais, é mais um dia de incerteza, de sobrevivência e medo. Apesar das associações, voluntários que tentam ajudar e cidadãos que se recusam a ignorar o problema, o abandono animal ainda é uma realidade persistente em Portugal. Não por falta de tentativas de sensibilização, mas pela mentalidade que faz com que este ciclo continue a acontecer. Enquanto isso, há animais que aguardam por ajuda e amor de alguém que não os volte a abandonar, visto que, para muitos, esperar ainda é a única coisa que lhes resta.
