Novas raízes, novos negócios: Como os imigrantes estão a empreender em Viseu

Os comerciantes imigrantes têm vindo a ganhar espaço no setor económico de Viseu, contribuindo para a diversidade da oferta local e para a dinamização da economia. Segundo o Observatório das Migrações, as pessoas de nacionalidade estrangeira contribuíram com mais de 4,1 mil milhões de euros para a Segurança Social em 2025. Entre desafios e adaptações, os imigrantes que escolheram a cidade para empreender mostram como transformar a experiência da imigração numa oportunidade de negócios.

Por: Maria Soares (aluna do 1º ano de Comunicação Social)

Foto: Instagram Empório Brasilis; Maria Soares

No interior do Empório Brasilis, as prateleiras são compostas por produtos típicos brasileiros, desde alimentos e bebidas a doces e salgados. É neste espaço que recebe diariamente portugueses e imigrantes que Léo Costa, o proprietário do comércio que está aberto há cinco anos, compartilha um pouco de sua história.

Já familiarizado com a área de comércios e serviço, o brasileiro diz que sempre teve a ideia de que “iria empreender em algum momento” com o objetivo de ter um retorno financeiro. “Nossa primeira reação é resolver o problema imediato, e esse problema é conseguir uma atividade que resulte em algum ganho financeiro, essa é a cabeça do imigrante de qualquer origem” diz o comerciante que viu em um pequeno comércio em Viseu, uma oportunidade de empreender.

O argentino Claudio Fernandez, dono da loja de vestuário de segunda mão, Calu, está atrás do balcão ao lado de sua funcionária. Em alguns momentos quando surge dificuldades na escolha de determinadas palavras em português, Ivana Santos, que é brasileira, auxilia o comerciante, mostrando que o processo de adaptação com a língua ainda faz parte do seu dia a dia.

Conta que antes de viver em Portugal morava em Inglaterra, e foi durante uma viagem a Lisboa com uma amiga que não conseguiu retornar a Manchester por conta do fechamento das fronteiras na época da Covid e optou por ficar. Percebeu então que a venda de peças usadas de marcas como Giorgio Armani, Levis e Lacoste era uma grande oportunidade. “Antigamente, o dinheiro era muito mais rentável. Agora, os salários baixaram, as coisas aumentaram… quanto mais crise económica, mais as pessoas se querem vestir bem”, afirma Fernandez.

Ao contrário de Claudio Fernandez que não teve dificuldades na abertura de seu comércio, o brasileiro Léo Costa conta sobre seu principal obstáculo no começo durante a abertura do estabelecimento, que foi em compreender a legislação do país e seus respetivos órgãos de funcionamento. “No início eu sofri muito para entender as regras, entender o porquê das coisas”. Reflete ainda que “a maioria dos imigrantes sofrem com isso” e que atualmente não sente mais essa dificuldade. Como consequência da desinformação, foram multados e pagaram 3 mil euros à ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica).

Através das novas tecnologias de comunicação como as redes sociais, e da interação com o cliente, ambos os comércios montaram suas estratégias de venda. Ao andar por sua loja, o dono da Calum apresenta os espaços que são adaptados à necessidade dos clientes: uma mesa com brinquedos para as crianças e um pequeno espaço adaptado para os animais de estimação. “A estratégia é ter um bom atendimento”, diz o proprietário.

Espaço para crianças
Espaço para animais de estimação.

Além do ambiente que busca proporcionar aos seus clientes, Fernandez destaca que sua maior estratégia de venda são os preços baixos e roupas de marcas “em boa qualidade” que atraem principalmente os jovens. A localização estratégica, ao lado do Fórum Viseu e as publicações nas redes sociais, no caso o Instagram.

Já Costa fala sobre suas estratégias de venda e a adaptação com a cultura portuguesa. Afirma que muita coisa muda comparado ao Brasil. “O povo português é um povo muito ligado a tradições. Então, para você romper essa tradição, exige muito tato exige, como nós chamamos, muito jogo de cintura”.

A ideia de abrir um café, veio da necessidade de “atingir o coração do povo português”, através da venda de produtos típicos como a coxinha e o pão de queijo. Percebeu que a comunidade portuguesa buscava por produtos brasileiros principalmente os jovens que vão à procura por conta da influência das redes sociais, que estão frequentemente presentes na sua vida, mas, a ligação entre países também se deve à migração portuguesa e/ou a vivência de parentes no país tropical.

Oferecer pão de queijo gratuito aos portugueses que frequentarem o estabelecimento pela primeira vez, é uma estratégia de venda, ou segundo o proprietário, “a regra da casa”

Sobre a participação do estabelecimento nas redes sociais, o proprietário brasileiro confessa que o envolvimento é muito frequente, porém, afirma que está “preparando uma campanha massiva na rede social” com o objetivo de atrair mais clientes para a loja.

Para ambos os comércios a expansão, seja para um novo espaço, ou seja, por uma nova unidade, foi inevitável. No estabelecimento argentino, Claudio diz que uma nova unidade já está para abrir no Porto, não dando mais detalhes sobre o assunto.

No Empório Brasilis, o comércio irá deslocar-se para um espaço maior. A constante movimentação de funcionários no fundo da loja, mostra que o tempo para mudança é curto: “Lá terá todo o conforto, infraestrutura. Não teremos problema de nenhum desconforto, tanto de acomodação quanto de temperatura. Lá vai ser um lugar bem mais confortável” declara após confessar que o espaço era um de seus maiores problemas. Diz ainda que vão deslocar-se “por necessidade e por oportunidade. Foi a junção dos dois.” Outro detalhe que fez com que tomasse essa decisão foi o aumento da “clientela.”

As histórias de Léo Costa e Claudio Fernandez mostram que empreender, para muitos imigrantes, é mais do que abrir uma porta comercial: é criar raízes, adaptar-se a novas leis e encontrar uma forma de adaptação em um município que também se adapta com a sua presença. Em Viseu, cafés, mercados, lojas e outros pequenos negócios geridos por estrangeiros ajudam na diversidade, na junção de culturas e movimentam a economia.

Os dados oficiais reforçam essa realidade. Em 2024, o concelho de Viseu registava 8 917 residentes estrangeiros, segundo a AIMA, num contexto em que o setor terciário tem um grande peso.

Entre burocracias, adaptação cultural e estratégias de venda, os comerciantes imigrantes continuam em grande número. Em Viseu, estas novas raízes têm vindo a traduzir-se em novos negócios e em novas formas de participar ativamente na vida económica da cidade.

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