O outro lado da competição: entre a titularidade e a confiança

O futebol de formação é marcado pelo desenvolvimento de jovens atletas, mas também pela pressão sentida dentro e fora de campo. Desde muito cedo, os jovens crescem a sonhar em ser o próximo Ronaldo ou Messi, criando uma ideia de que é preciso chegar rapidamente ao topo para ter sucesso no futebol. Durante vários anos, o futebol foi maioritariamente masculino, mas o futebol feminino continua a crescer e a conquistar o seu espaço na modalidade. No escalão Sub-17 feminino do Futebol Clube de Alverca, o entusiasmo de jogar futebol é muitas vezes acompanhado pela pressão de ser titular, corresponder às expetativas dos treinadores e de lidar com a frustração quando as coisas correm mal.

Por: Leonor Lopes (aluna do 1ºano de Comunicação Social)

Foto: Instagram do Futebol Clube de Alverca Feminino

Segundo Lúcia Pereira, treinadora da equipa de sub-17 do Alverca, existe uma ideia pré-concebida de que o futebol feminino deve ser igual ao masculino. “As coisas têm de estar sempre a ser observadas e as coisas têm de sair bem, porque o feminino tem de ser igual ao masculino, os outros são competitivos e estão aqui, estão ali”, o que pressiona que nos escalões femininos se viva a mesma realidade.

Susana Seixas, psicóloga do desporto, afirma que as atletas enfrentam a pressão de que o futebol não é só para rapazes e que têm de provar que também podem chegar a algum lado. E, devido a essa pressão, as atletas demonstram uma maior abertura para pedir ajuda psicológica. “O pedido de ajuda é completamente diferente de um feminino para um masculino, é muito mais frequente num feminino e ainda bem que o é, especialmente neste contexto”, explica.

Para combater a pressão, Lúcia Pereira foca-se no processo individual em que todos contam, “é como um puzzle, cada uma faz parte de uma peça do puzzle. E sem elas o puzzle está incompleto.” Mas, apesar de todas terem um papel fundamental na equipa, algumas decisões técnicas podem afetar a confiança das jogadoras.

É o caso de Viviane, para quem ser titular lhe dá mais confiança. Desmotiva quando começa o jogo no banco. A jogadora já pensou em desistir do futebol, mas não o fez devido ao forte apoio que recebeu no clube. “Acho que foi o apoio que os misters davam, que a equipa dava. Percebi que o que eu queria mesmo era jogar à bola”, refere. Quando o jogo corre mal, a sua maior motivação para voltar na segunda-feira de cabeça erguida é a equipa.

Para Lunara também é importante a titularidade: “Porque eu sinto que se por algum motivo eu não sou titular, penso que não estou lá porque não dei o meu máximo nos treinos”. Ao começar os jogos no banco a jogadora afirma que afeta a sua confiança, pois assim não consegue mostrar o que faz nos treinos. Apesar disso, nunca pensou em desistir e responde focando-se no treino.

Leonor expõe a sensação de favoritismo na equipa técnica, ao recordar as vezes que ficou de fora, a jogadora lembra a sua dor, dizendo que se sentiu “muito mal, porque é muito mau”, pois esforçava-se “mais do que uma pessoa que é a favorita do mister, e que, se calhar, joga melhor ou joga pior. E, mesmo assim, vai continuar em jogo”. Ela também já pensou em desistir, por causa de misters que não eram tão respeitosos e por causa de colegas que “não eram muito amigas”, mas não desistiu “porque no fundo há sempre aquelas pessoas que são amigas e que ficam contigo nos momentos maus”.

Numa outra perspetiva, Nicole e Leonor Lança afirmam que ser titular não é o mais importante. “Por vezes, até prefiro, por exemplo, quando nós temos um jogo assim muito difícil, prefiro começar no banco, fica mais fácil de tentar analisar.” E, embora sintam frustração quando o jogo corre mal, rejeitam a ideia de desistir. Para elas, voltar ao treino na segunda-feira é mais uma oportunidade para evoluir.

Nestes casos, a psicologia no desporto de formação é bastante importante, como explica Susana Seixas. “Elas acabam por reagir mais à base do choro, tristeza. Como é que o apoio psicológico pode ajudar aqui? O apoio psicológico é importante em qualquer situação. Nesta, acho que pode ajudar estar presente nesses momentos e conseguir ajudar e dar o apoio nesse momento, percebermos que não é o fim do mundo e que não ser titular não significa que não haja qualidade. Quando estamos frustrados, às vezes, é um bocadinho difícil olhar para as variáveis e para as coisas todas. E, assim, ter a presença de alguém é importante”.

Para além das opções técnicas e da confiança, existe um terceiro fator muito importante na vida destas atletas, a família. A psicóloga refere que alguns pais têm atitudes difíceis de gerir. No futebol feminino, a ideia de que é mais fácil chegar ao topo pode aumentar a pressão. “Muitos dos pais acabam por depositar nos filhos e nas filhas o sonho que muitos deles não conseguiram ter, que era o de ser jogador de futebol. Então, se calhar há pressão ou pode haver mais pressão imposta pelos pais quando veem que a filha até sabe jogar à bola, e que se calhar até não é assim tão difícil ir para um Benfica ou para um Sporting ou para um Braga”.

Os pais das atletas de sub-17 do Alverca têm visões diferentes da pressão sentida pelas suas filhas. Hugo Figueiredo considera que a pressão se torna real a partir do escalão de sub-17 e sub-19 e que não existe muita pressão. No fundo, diz só quer que a filha se divirta. “A minha filha está aqui para jogar futebol, para se divertir. Não é para mais nada. Enquanto ela se estiver a divertir, ela joga futebol. Portanto, é sempre dar-lhe apoio. Jogue muito, jogue pouco, não jogue. Como pai, a minha obrigação é apoiá-la para se divertir”, refere.

Já Susana Gaspar destaca a forte pressão que as jovens sentem no futebol e como isso influencia as famílias. “Eu acho que há muita pressão. Elas assumem isto como uma responsabilidade, de facto, delas e elas tentam dar o melhor e criam expectativas e, por vezes, nem sempre as expectativas correspondem depois à realidade. E a pressão é exatamente isso. Portanto, eu julgo que sim. Até eu, como mãe, sinto essa pressão”, confessa. Nos momentos difíceis, procura apoiar a filha, reforçando a importância de cada jogadora na equipa. “O que eu digo é que ela teve, de facto, muito bem, porque cada elemento da equipa tem um papel e ela, ao fazer o papel dela, está a ajudar de alguma forma a equipa”.

Nas sub-17 do Futebol Clube de Alverca, o sucesso vai muito além dos resultados, a verdadeira vitória é a criação de um bom ambiente no balneário, a equipa técnica, os psicólogos e as famílias apoiam as atletas para combater a pressão. O objetivo principal é estas atletas encontrarem no clube uma família e o mais importante, sentirem-se bem enquanto jogam.

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