Diabetes, a doença invisível que causa “cansaço mental e emocional”

“Não devias ter comido tanto açúcar!”; “Mas tu podes comer isso?”; “Esse bolo ainda te vai dar diabetes!”.  É quase impossível qualquer diabético nunca ter ouvido frases deste género, mas elas não vêm de um lugar de malícia, sendo apenas o resultado de anos e anos de desinformação relativamente a esta doença

Por Beatriz Tavares (aluna do 1º ano de Comunicação Social)

Diabetes tipo 1, tipo 2, gestacional – são vários os tipos de diabetes que afetam milhões de pessoas  em todo o mundo, de formas e com causas diferentes, mas, no entanto, é sempre reduzida ao “consumo de demasiado açúcar”, o que acaba por ser uma prática inocente com um impacto real e muitas vezes negativo na vida dos portadores desta doença. 

A verdade é que, independentemente do tipo de diabetes em questão, trata-se de uma doença invisível. Apesar dos dispositivos médicos utilizados por vários doentes, é impossível assumir o diagnóstico de alguém a olho nu, mas não é por isso que deixa de ser um “bicho de sete cabeças”.

Para uma jovem de 20 anos, a diabetes é “um cuidado extra que as pessoas têm de ter”, enquanto um jovem de dezanove anos diz que, para ele, a diabetes é “demasiado açúcar no sangue, criando um problema”. Não é mentira, mas só vem comprovar que o conhecimento geral da sociedade sobre esta doença é muito superficial relativamente a outro tipo de doenças crónicas – só porque é uma doença invisível não significa que não seja  complexa, que requer dignidade e respeito por parte de todos. Ao abrir uma caixa de comentários em qualquer rede social não se vê piadas com cancro ou até mesmo como uma simples gripe, mas é comum vermos, em publicações sobre comida, brincadeiras que dizem que ingerir aquele alimento vai “dar diabetes” a alguém. 

Desde a invenção da insulina em 1921, os avanços médicos e tecnológicos no ramo da endocrinologia ainda não pararam de evoluir.  

Manuel Tavares foi diagnosticado com diabetes tipo 1 há mais de trinta e cinco anos, podendo sentir esta evolução na primeira pessoa. Ele relembra um episódio, há mais ou menos vinte anos, em que estava a conduzir com uma quebra de açúcar, sem saber disso. “Fui a conduzir para uma festa, com uma quebra de açúcar, eu não sabia, e subi o passeio com o carro – são situações imprevisíveis que um diabético não controla.”, conta.  

Uma quebra de açúcar define-se por baixos níveis de açúcar no sangue, causando tremores, calafrios, tonturas e fraquezas, não sendo muito seguro conduzir durante estes episódios. Contudo, atualmente é mais fácil evitar este tipo de situações, devido aos vários avanços tecnológicos: “hoje em dia existe acesso à tecnologia de monotorização contínua da glicose, que permite rapidamente, em tempo real, ver como está o estado da glicose e reagirmos antes de qualquer situação”, diz Manuel. 

Segundo dados do Relatório Anual do Observatório da Diabetes, cerca de um milhão de portugueses são portadores desta doença. Todos têm a sorte de ter os seus recursos médicos comparticipados pelo Estado, o que facilita muito a vida de um diabético em Portugal. A diabetes é uma doença que pode aparecer a qualquer um, em qualquer fase da vida, independentemente das condições financeiras de cada um, por isso podemos considerar-nos afortunados em ter um acesso tão facilitado a medicação e dispositivos médicos, pois, por este mundo fora, há alguém que teve o infeliz azar de ter nascido com a predisposição genética para a diabetes, num país que não é tão simpático para os doentes. Ella Suvak tem vinte anos e é natural de Charleston, nos Estados Unidos da América, e admite a sua sorte em ter o apoio do seguro de saúde da sua família, pois, sem ele, a sua vida seria bem mais difícil: “Tenho imensa sorte em ter o seguro dos meus pais, temos um seguro bastante bom e eles basicamente cobrem tudo, tenho mesmo muita sorte nesse aspeto”. 

Contudo, a diabetes não deixa de ser complexa só porque a parte financeira não é um problema. Afinal, estamos a falar de uma doença autoimune que ataca as células produtoras de insulina, o que quer atenção por parte do utente diariamente. Existem, no entanto, várias complicações adjacentes a um mau controlo da diabetes, que nem sempre são o resultado de despreocupação para com a doença. A saúde mental é um dos fatores que pode contribuir para um desleixo por parte do utente. Ella Suvak relembra momentos da sua vida em que a exaustão relativamente ao controlo da doença era tanta, (ou seja, a despreocupação com a aplicação de insulina aumentava) que ela preferiu passar vários dias seguidos a ingerir poucos alimentos, para, consequentemente, não ter de se preocupar com as doses administradas, do que ter de lidar diretamente com a exaustão. “Para mim, o cansaço é a nível mental e emocional”, partilha Ella, pois “a coisa da qual os diabéticos mais se querem ver livres é o peso de ter de constantemente gerir a sua glicemia.” 

No início achei que a diabetes era muita limitativa”, diz Manuel Tavares, ao relembrar a falta de bens alimentares baixos em açúcar no início dos anos noventa e os preços elevados dos que existiam “Vim de uma família muito humilde, era difícil arranjar estes produtos.” Além disso, na altura havia um grande estigma de que diabéticos não podiam comer nada com açúcar ou até mesmo consumir qualquer tipo de álcool: “Bloqueei, e durante anos deixei de sair e de comer com os meus amigos, e em festas de aniversário, Natal, Páscoa, e passagem de ano não tocava em absolutamente nenhum doce, ficava simplesmente a ver”. Ao recordar estes momentos, Manuel refere que isto mexia com ele por dentro, apesar de “fingir que estava tudo bem”.  

É aqui que está a diferença entre duas gerações de diabéticos. Há trinta anos era muito difícil gerir a doença devido à falta de recursos tecnológicos e a resposta por parte dos profissionais de saúde era restringir as pessoas, fazendo-as sentir-se postas de parte em momentos de convívio à volta da mesa. Em contrapartida, na atualidade há  vários recursos, sejam eles bombas de insulina ou sensores que medem a glicose continuamente, que o controlo da doença se torna algo mais fácil, no entanto é comum o doente sentir este tipo de burnout diabético devido ao papel que são forçados a assumir em prol de uma boa qualidade de vida.

A diabetes é uma doença muito complexa, com vários ângulos e histórias para contar. É urgente educar a população para que todos sejamos mais conscientes sobre esta doença, pois, no caso da diabetes tipo 1, o utente não tem qualquer tipo de culpa no que toca ao seu diagnóstico. Não há cura, milagres nem prevenções. Não há como negar o convite sorrateiro da diabetes, que chega à vida de cada um de forma lenta, sintoma a sintoma, enquanto o mundo à volta continua a sorrir levemente.  

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