Saramago no secundário: alunos e professores refletem sobre a revisão do programa de leituras obrigatórias

“Lisboa está cheia de medo, mas finge que não, as pessoas baixam a voz quando falam, olham para os lados antes de dizer o que pensam, e no entanto tudo parece igual, os elétricos passam, os cafés estão cheios, a vida continua como se a vigilância não estivesse em toda a parte.”

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Por: Catarina Pereira (aluna do 1º ano de Comunicação Social)

A possível revisão do programa de Português do ensino secundário reacendeu o debate sobre o papel da literatura na escola. No centro da polémica está o nome de José Saramago, único nobel português da Literatura, cuja eventual saída das leituras obrigatórias foi amplamente noticiada e gerou reações de alunos, professores e figuras públicas. Nas entrevistas realizadas entre alunos e docentes, a opinião foi unânime relativamente à importância de Saramago, no entanto, também consideram que “Saramago é fantástico, deve merecer reconhecimento, mas não é o único”.

Carina, aluna do secundário, destaca o valor histórico e literário de O Ano da Morte de Ricardo Reis, obra que estudou em contexto escolar. Ressalta a descrição e contextualização do autor sobre o que foi a ditadura do Estado Novo, que o romance permite compreender melhor. O autor estabelece também pontes com outros autores portugueses, através de múltiplas referências a Fernando Pessoa e à tradição literária. A aluna considera que retirar Saramago seria uma perda, não só pelo seu estatuto como Nobel da Literatura, mas pela riqueza das suas “intertextualidades com tudo, Cesário verde, muitos autores do 10º e 11º ano”.

“A cidade é feita de ruas estreitas e largas, de gente que passa sem se ver, de trabalhadores cansados e sombras que se arrastam pelas paredes, como se Lisboa fosse um corpo doente que respira devagar sob o peso da sua própria história.”

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Também aluna do 12º ano, Alice considera a obra de Saramago particularmente cativante. “Achei particularmente interessante, é uma narrativa que cativa a atenção, acho que é um livro interessante de ler e de estudar”, afirma a aluna. Alice valoriza a capacidade de abordar simultaneamente temas históricos, como a ditadura, “que é uma coisa muito importante de se falar” e dimensões humanas, como as relações amorosas. “Há um pouco de seriedade relativamente à ditadura, a perspetiva amorosa para quem prefere, o que é muito interessante.” Apesar de admitir que a pontuação pouco convencional constitui um obstáculo inicial, considera a escrita acessível. “No meu caso pessoal, o que me dificultou mais a leitura foi mesmo a questão da pontuação, quando somos primeiramente confrontados com esse livro é o mais difícil, é compreender os diálogos, as pontuações. Tirando isso eu acho que a escrita até é acessível”. Defende ainda a importância de manter obras contemporâneas ao lado dos clássicos no percurso escolar, “deve haver um pouco de tudo”.

Foram ainda entrevistados dois professores, António Mendes e Teresa Fonseca. Ambos concordaram na relevância literária de Saramago, “Saramago é extremamente importante por vários motivos, além de ser o nosso Prémio Nobel, ele fala de assuntos que são extremamente importantes ainda na atualidade”, afirma um dos professores. O professor António considera que o autor continua a abordar temas profundamente atuais, como a liberdade, a democracia e o papel do povo na construção da sociedade portuguesa. “Porque os tempos são cíclicos”, “a qualquer momento podemos cair noutras ditaduras” e “é importante termos um autor que é contemporâneo e que fala dos assuntos dos tempos atuais”. Obras como O Ano da Morte de Ricardo Reis ajudam a refletir sobre acontecimentos e fenómenos que continuam na realidade atual.

No entanto, os docentes contestam a forma como a temática foi abordada pela comunicação social. Após verificação, concluiu-se que a proposta nunca foi retirar Saramago da lista de leitura obrigatória do 12º ano de português, mas sim aumentar o leque de opções, incluindo autores como Mário de Carvalho com a sua obra Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. Em títulos e manchetes publicadas sobre o assunto, as expressões utilizadas levam quase sempre o leitor a deduzir pelo título que a proposta seja a retirada do premiado. Numa notícia publicada pela SIC Notícias, o título escolhido foi “Saramago pode deixar de ser leitura obrigatória no 12º ano”, e o subtítulo foi “José Saramago, Nobel português da Literatura, pode deixar de ser obrigatório no 12º ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigatória”. Um subtítulo como este pode suscitar dúvidas na compreensão, visto que o que separa as duas temáticas é um ponto e vírgula, podendo dificultar a interpretação dos leitores.  Para estes docentes, a controvérsia terá resultado de uma interpretação simplificada. “A forma como a comunicação social em Portugal deturpa aquilo que é a situação, porquê? Porque é Saramago”, questiona e responde o professor António.

Os estudantes reconhecem que a pontuação e a construção dos diálogos podem causar estranheza numa primeira leitura, mas consideram que a linguagem em si não é particularmente difícil.

Já os professores admitem que muitos alunos não chegam a ler realmente as obras, daí as dificuldades. Ainda assim, defendem que a dificuldade faz parte do progresso e que é essencial para o crescimento do aluno. “Saramago quando temos 17 ou 18 anos, é um osso muito duro de roer”, “que a obra vai sempre à frente e o aluno tem de ir atrás para crescer”. Retirar obras complexas pela dificuldade de interpretação significaria empobrecer a formação literária dos alunos. Os professores sugerem ainda outros autores que consideram relevantes como Valter Hugo Mãe e António Lobo Antunes.

Perante as críticas suscitadas, o ministro da Educação Fernando Alexandre afirmou que a alteração não resulta de critérios ideológicos, mas de um processo de revisão curricular ainda em discussão, sublinhando que qualquer decisão final apenas produzirá efeitos a partir do ano letivo 2027/2028.

Em resposta a esta proposta, cerca de trinta escritores, professores, editores e agentes culturais subscreveram uma carta aberta dirigida ao ministro da Educação, defendendo a manutenção da obrigatoriedade da leitura de José Saramago no ensino secundário. Entre os signatários encontram-se a escritora Lídia Jorge, o escritor João Tordo, o encenador Tiago Rodrigues e o professor universitário Carlos Reis. Na carta, os subscritores alertam que “um aluno pode concluir o 12.º ano sem nunca estudar José Saramago” e argumentam que “um currículo nacional não pode deixar uma referência desta dimensão dependente de interpretações, de contextos ou de boa vontade de cada opção local”, considerando que o autor ocupa “um lugar singular” na literatura portuguesa e que a sua exclusão da lista de leituras obrigatórias representa uma perda cultural significativa para a formação dos alunos.

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