Da gestão do canil à vida doméstica: testemunhos sobre o verdadeiro valor da adoção
A adoção de animais e o combate ao abandono constituem dois dos maiores desafios na gestão do bem-estar animal em Portugal. Apesar da situação ter melhorado nos últimos anos, milhares de cães e gatos continuam a ser abandonados anualmente, sobrecarregando canis, associações de proteção animal e entidades públicas. Cláudia Correia, médica veterinária no canil de Seia, e Ana Dolgner, traçam um panorama sobre a evolução das adoções, os desafios do setor e a responsabilidade necessária para garantir uma convivência saudável entre os animais e as famílias que os acolhem.
Por: Maria Veríssimo (aluna do 1º ano de Comunicação Social)

Desde setembro de 2023 que canil de Seia passa por uma transformação significativa. Segundo Cláudia Correia, a instituição deixou de ser um espaço fechado para se tornar uma entidade mais aberta à comunidade, promovendo uma relação de proximidade com os cidadãos. A veterinária refere que apostaram “em atividades de sensibilização, visitas escolares, participação em festas locais e colaboração com diferentes instituições permitiu aproximar a população da realidade dos animais acolhidos.”
As redes sociais desempenharam igualmente um papel determinante nesta mudança. Para Cláudia Correia, “esta estratégia permitiu não apenas aumentar o número de adoções, mas também combater preconceitos associados aos animais que vivem em canis.” Dizendo ainda que “o contacto direto com os animais permite às pessoas compreender melhor as suas necessidades e perceber que muitos deles possuem capacidades de adaptação e afeto comparáveis às de qualquer animal adquirido através de criadores ou lojas especializadas”.
O mito do abandono sazonal
Quando surgem despesas inesperadas, problemas de saúde ou alterações nas rotinas familiares, alguns proprietários acabam por considerar o abandono como uma solução. A veterinária refere que situações relacionadas com a falta de esterilização também continuam a contribuir para o aumento do número de animais sem lar. A ausência de medidas preventivas conduz frequentemente a ninhadas não planeadas, colocando os tutores perante responsabilidades para as quais não estavam preparados. Em muitos casos, a incapacidade de encontrar famílias para os animais acaba por resultar no abandono ou na entrega aos canis municipais.
Para Cláudia Correia, a educação da população continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para combater este problema, dizendo que “as pessoas abandonam porque são inconsequentes”. A sensibilização para a esterilização, para os cuidados veterinários regulares e para a posse responsável pode contribuir significativamente para reduzir os números do abandono.
A experiência de Ana Dolgner, dona de vários animais adotados, oferece uma perspetiva complementar sobre a realidade da adoção. Diz que a adoção inicial é um processo natural e destaca que “sendo de raça ou de compra, os desafios acabam por ser os mesmos”. Segundo a sua experiência, a ligação emocional que se cria depende sobretudo da convivência diária e dos cuidados prestados. A entrevistada sublinha ainda que questões relacionadas com a educação, socialização, alimentação, cuidados de saúde e adaptação ao ambiente familiar surgem tanto em animais adotados como em animais adquiridos através de criadores.
A importância de uma adoção responsável
Apesar das vantagens associadas à adoção, tanto Cláudia Correia como Ana Dolgner concordam que a decisão deve ser tomada de forma consciente e responsável. Antes de integrar um animal na família, é essencial avaliar diversos fatores, incluindo as condições financeiras, o espaço disponível e o tempo necessário para garantir o seu bem-estar.
Os custos associados à alimentação, vacinação, desparasitação, consultas veterinárias e eventuais tratamentos médicos devem ser considerados previamente. Além disso, os animais necessitam de atenção diária, exercício físico adequado e estímulos que promovam a sua saúde física e emocional. A falta de preparação pode comprometer a qualidade de vida do animal e aumentar o risco de abandono futuro. Por esse motivo, a adoção não deve ser encarada como uma decisão impulsiva, mas sim como um compromisso de longo prazo.
As duas entrevistadas defendem igualmente que a sociedade deve abandonar a visão dos animais como objetos descartáveis. Um animal de companhia estabelece laços afetivos profundos com os seus tutores e depende inteiramente deles para satisfazer as suas necessidades básicas. Ambas têm a mesma opinião, é essencial realizar uma avaliação das condições financeiras, do espaço e tempo para o bem-estar do animal antes de o integrar na família.
A experiência no canil de Seia demonstra que a transparência e a proximidade com a comunidade são fundamentais para promover a adoção responsável. Tudo isto depende de uma mudança de mentalidade por parte da sociedade. Cláudia e Ana transmitem-nos que devemos tratar o animal como um membro da família e não como um objeto descartável.


