Voluntários de Arouca resgatam animais abandonados sem apoios nem instalações fixas

Todos os dias, um grupo de pessoas acorda com o mesmo objetivo. Não é para ir trabalhar, não é para tratar da sua vida. É para fazer a diferença na vida de animais que não têm lar, não têm dono e não têm ninguém que olhe por eles. São pessoas comuns, mas com um coração que não consegue ficar quieto perante o sofrimento destes animais.

Por: Gabriel Costa

Em Arouca, existe um grupo de voluntários com um nome simples e uma missão enorme: Arouca Cuida-me. São poucas pessoas, unidas pela mesma causa. Todos os dias fazem o que podem para ajudar animais abandonados nas ruas, doentes, sem tratamento e esquecidos por quem devia cuidar deles. Não têm grandes meios, não têm instalações modernas nem apoios institucionais. Mas têm algo que não se compra: vontade de ajudar.

Uma missão que nasceu da necessidade

Sem apoios fixos nem financiamento garantido, o grupo sobrevive à base de eventos solidários e vendas para conseguir pagar as contas da clínica veterinária. O dinheiro nunca é muito e as necessidades são sempre altas. Organizam rifas, vendem produtos e contam com a generosidade de quem os segue nas redes sociais para conseguir chegar ao fim do mês com as contas pagas. É um equilíbrio frágil, mas que se tem mantido graças ao esforço coletivo de quem acredita na causa.

Uma das formas de angariar fundos é a feirinha solidária. Toda a roupa e calçado doados são colocados à venda e o dinheiro angariado reverte integralmente para as despesas dos animais resgatados. Alimentação, consultas, medicação, esterilizações e tratamentos são alguns dos custos que o grupo enfrenta todos os meses. Quando recebem grandes quantidades de doações, organizam dias de liquidação solidária, onde os preços são simbólicos e cada pessoa contribui com o que pode. Nem sempre corre como esperado: tem havido situações em que algumas pessoas levam várias peças e contribuem com valores muito abaixo do razoável. Por isso, o grupo tomou uma decisão difícil, mas necessária: passar a existir um valor mínimo por peça nestes eventos. Não é uma decisão tomada por mal, mas por respeito ao trabalho de quem dedica tempo e coração a esta causa todos os dias.

Neste momento atravessam uma fase particularmente difícil. Acumularam uma dívida veterinária que ameaça a continuidade do trabalho e torna quase impossível continuar a receber novos animais que precisam de cuidados urgentes. Cada dia que passa sem resolver esta situação é um dia em que um animal pode ficar sem ajuda. E isso pesa. Pesa a quem trabalha para esta causa e sabe que do outro lado há um animal à espera.

“As nossas ajudas passam por voluntários, voluntários ativos, pessoas que se quiseram associar a esta causa. Como não temos espaço físico para acolher os animais enquanto não são adotados, necessitamos de famílias de acolhimento temporário. Necessitamos muito de verba, porque o nosso valor é maioritariamente gasto em clínicas veterinárias. E não menos importante, necessitamos muito que partilhem as nossas publicações, usar o poder das redes para que consigamos, o mais rápido possível, boas adoções e continuarmos o nosso trabalho”, explica Sandra Patrícia, responsável pelo grupo.

O Arouca Cuida-me marcou presença na XIII Cãominhada, uma iniciativa que juntou donos e animais de estimação numa manhã de exercício e convívio ao ar livre pelas ruas de Arouca. Para o grupo, foi mais do que um evento. Foi uma manhã de alegria, de partilha e de contacto direto com a comunidade. Os animais divertiram-se, os donos também, e o Arouca Cuida-me aproveitou para dar a conhecer a sua causa a quem ainda não a conhecia. Momentos como este lembram porque vale a pena continuar, mesmo nos dias mais cansativos e difíceis.

Sandra Patrícia não chegou à causa por acaso. “A iniciativa surgiu há sensivelmente dois anos, através de um convite de uma colega que me conhecia precisamente por ajudar animais e quando dei por mim já estava completamente envolvida na causa, cada vez mais a ajudar um animal atrás do outro”, conta. Havia animais abandonados em Arouca e alguém tinha de agir. O que começou pequeno, quase sem recursos, foi crescendo, impulsionado pela vontade de fazer a diferença e pelo apoio de quem foi conhecendo a causa.

Até hoje já ajudaram dezenas de animais. Cada um com a sua história, cada um resgatado de uma situação diferente. Alguns vieram da rua, outros de situações de maus-tratos, outros simplesmente abandonados como se nunca tivessem importado. O trabalho não tem horário nem descanso. Há sempre um animal que precisa, há sempre uma urgência, há sempre alguém que liga a pedir ajuda. E o grupo raramente diz que não.

“Quem acompanha o nosso trabalho sabe que o dia a dia de um grupo de proteção animal é feito de grandes desafios, mas também de um grande amor. Cada animal resgatado das ruas traz consigo uma história e nós só queremos um final feliz. É para isso que trabalhamos todos os dias, é uma missão muito difícil, que envolve muita gente, vários procedimentos, mas é para continuar e nunca baixar os braços, acima de tudo, porque eles merecem tudo o que possamos fazer”, afirma Sandra Patrícia.

Neste momento o grupo está ainda em processo de formalização. “Somos 11 elementos pertencentes ao corpo associativo e outros tantos de voluntários, embora alguns não sejam ativos, mas somos sensivelmente 22, 23 elementos”, refere a responsável.

As pessoas por detrás da causa

Por cada animal salvo, há um voluntário que abdicou do seu tempo livre, do seu descanso e, muitas vezes, do seu próprio dinheiro para tornar isso possível. São pessoas normais, com as suas vidas, os seus empregos e as suas famílias. Pessoas que podiam estar em casa a descansar, mas que escolheram estar ali. Quando é preciso, estão lá. Sempre.

Maria é uma delas. Descobriu a causa pelas redes sociais, numa tarde qualquer, e não conseguiu ficar indiferente ao que viu. Começou a ajudar aos poucos, sem grandes planos, sem saber bem até onde isso a ia levar. Hoje, ao fim de quase um ano como voluntária, diz que não consegue imaginar não fazer parte disto. Para ela, já não é uma opção deixar de ajudar. Tornou-se parte da sua rotina, parte de quem ela é.

Percebeu que não é preciso ter muito para dar. Basta aparecer, basta partilhar, basta não olhar para o lado quando se vê um animal a sofrer. Às vezes basta mesmo isso, não olhar para o lado. E foi isso que fez, e continua a fazer, todos os dias.

Ajudar é mais simples do que parece. Não é preciso ser voluntário nem ter muito dinheiro nem dispor de grandes quantidades de tempo. Basta partilhar a página nas redes sociais, divulgar a causa a um amigo ou contribuir com o que for possível. Cada gesto soma e faz diferença no final do mês, quando as contas da clínica chegam e o grupo precisa de as pagar.

O Arouca Cuida-me continua de pé porque há pessoas que escolheram não ficar indiferentes. Pessoas normais, com as suas vidas e as suas dificuldades, mas que decidiram fazer alguma coisa. E é exatamente esse tipo de pessoas que esta causa precisa de continuar a encontrar.

Em Arouca, há animais que não sabem que existe alguém a lutar por eles. Não percebem o que é uma feirinha solidária, nem sabem o que é uma doação. Mas estão vivos porque essas pessoas existem e não desistiram. E amanhã, mais animais podem ter a mesma sorte. Depende apenas de quantos decidirem ajudar.

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