Entre brasas e memórias: a tradição que recusa o esquecimento em Santo André
Ao fim da tarde, o Largo do Outeiro começa a ganhar vida. As mesas de madeira são postas ao sol, os grelhadores começam lentamente a aquecer, e o cheiro a sardinha assada vai preenchendo o ar, anunciando que Santo André, no concelho de Mangualde, vai ser, por um dia, a aldeia que outrora fora, enchendo-se de gente. Este ano, a sardinhada realiza-se a 20 de junho, e vai servir de ponto de encontro para quem vive, e para quem, apesar da distância continua a considerar o lugar, casa. Chegam carros que há muito não se viam. São pessoas que partiram, mas que regressam neste dia, porque há algo que ainda as liga à aldeia. Criada quase por acaso há seis anos, tornou-se o principal momento de encontro de uma comunidade. Apesar de ser uma tradição relativamente recente, carrega consigo um grande significado: juntar pessoas, preservar memórias e manter viva a ligação à terra.
Por: Andreia Figueira (aluna do 1º ano de Comunicação Social)
Entre a calma e o silêncio
Durante o resto do ano, o ritmo da vida é muito diferente em Santo André. Graça Lopes, habitante desde sempre, descreve o quotidiano como tranquilo. Viver ali, é, para ela, viver “com tranquilidade, calma e sem stress”. No entanto, reconhece que essa calma vem acompanhada de um certo vazio e silêncio. As crianças nas ruas são cada vez menos e isso faz-se sentir. “Fazem falta crianças, acho que há poucas”, admite. Ainda assim recusa a ideia de que a aldeia está condenada a cair no esquecimento, pelo contrário, acredita que o futuro pode ser positivo, porque há “muitas pessoas a virem para cá” e porque Santo André teve sempre “muita fama e muita cultura”.
A tradição que nasceu de uma pequena ideia
A sardinhada nasceu de forma simples, durante um jantar entre amigos. Nuno Figueira, um dos organizadores, recorda que uma vez que “o pessoal se via poucas vezes”, talvez uma sardinhada fosse capaz de juntar aquilo que a distância separou. Então, nesse ano, organizou-se pela primeira vez este ponto de encontro, e as pessoas aderiram. Com o passar dos anos o evento foi crescendo, e transformou-se no momento em que a aldeia mais ganha vida. A organização exige trabalho e dedicação. Há reuniões, listas de tarefas e coordenação através de grupos de WhatsApp. Apesar do esforço a vontade de continuar mantém-se, e, no final, o sentimento que fica é de orgulho. “Sentimo-nos orgulhosos de ter feito a sardinhada”, diz Nuno Figueira.
Quem parte também pertence
Para quem vive longe, este encontro anual tem um significado ainda mais profundo. José Sousa, vive atualmente em Lisboa, mas regressa todos os anos, porque Santo André continua a representar uma parte importante da sua história. É, como descreve, um local que lhe traz muitas recordações da infância, de casa, de onde tem raízes. Apesar de nunca ter vivido permanentemente na aldeia, procura transmitir essa ligação aos filhos. “Quero que os meus filhos percebam que ali também têm uma parte deles”. Ao mesmo tempo, reconhece algumas mudanças que a aldeia sofreu ao longo dos anos. Hoje vê “menos gente, pessoas mais envelhecidas e uma realidade um bocadinho mais deserta”. É precisamente por isso que considera a sardinhada tão importante. Para ele, “este encontro ajuda a aldeia a não cair no esquecimento”, e fortalece laços, que, sem momentos como este, acabariam por se perder. Destaca ainda o espírito de entreajuda que sente sempre que regressa. “Existe ali um sentimento de solidariedade…é muito bom”.
Enquanto houver vínculo, há razão para voltar
Enquanto as sardinhas estalam nos grelhadores e o largo se enche de vozes, percebe-se o significado dessas palavras. Há abraços de quem não se vê há anos, conversas interrompidas apenas pelo passar do tempo, crianças a correrem entre as mesas, e idosos que observam toda a agitação com um sorriso no rosto. Durante algumas horas, Santo André volta a ser a aldeia de outros tempos. A sardinhada não resolve problemas como o despovoamento. Não traz de volta as escolas, e não traz de volta as crianças durante o resto do ano, mas oferece algo igualmente importante, um sentimento de pertença. E enquanto esse sentimento existir, haverá sempre razões para se voltar. A aldeia vive hoje, entre a tranquilidade dos dias comuns, e a energia destes encontros anuais, entre quem ficou e quem partiu, entre a memória e o presente. Talvez a sardinhada não consiga mudar o futuro de Santo André, mas ajuda, pelo menos, a garantir que a sua história continuará a ser contada.
