O abandono animal agrava‑se: entre o testemunho de um resgate e a indignação de quem observa
Todos os anos, com a chegada do calor e a proximidade das férias de verão, as estradas e as cidades portuguesas tornam-se o cenário de um drama silencioso. O abandono de animais de estimação mantém‑se como um ciclo persistente e cruel. Nos últimos anos, o fenómeno não tem abrandado pelo contrário, o abandono animal tem vindo a agravar‑se, tornando‑se cada vez mais visível e preocupante. Mas o que leva alguém a descartar uma vida? E o que sente quem tenta travar esse ciclo?
Por: Lara Nascimento (aluna do 1º ano de Coumunicação Social)
Para compreender o impacto desta realidade na primeira pessoa, fomos escutar duas vozes com perspetivas distintas: Teresa Graça, que transformou o quintal da sua nova casa num refúgio, e Dulce Oliveira, uma cidadã sem animais de estimação que observa, com crescente preocupação, a desumanização deste fenómeno na sociedade.
A linha da frente: o resgate
Teresa Graça partilha que a sua jornada começou quando se mudou para uma nova rua, onde se deparou com um cenário desolador: vários animais abandonados à sua própria sorte. Movida pela compaixão, começou por lhes dar alimento, criando assim um vínculo especial com os gatos e acabando mesmo por ficar com dois .
“O primeiro estava muito magrinho, com falta de comer, pulgas… estava uma desgraça. O segundo, a mãe teve-o lá no quintal e abandonou-o também“, recorda Teresa.
Segundo esta testemunha os animais foram deixados para trás pelos antigos moradores da zona quando se mudaram. Apesar das dificuldades iniciais, que incluíram despesas veterinárias e longos tratamentos com o gato mais velho, Teresa conseguiu estabilizar a saúde dos felinos.
Com esta experiência, retirou uma lição dura sobre a natureza humana: “As pessoas querem os animais enquanto são pequenos, depois começam a crescer e já os abandonam. Para mim, abandonar um animal é como abandonar um filho.” A sua recomendação para quem pondera a adoção é clara: se não há intenção ou capacidade de cuidar, é preferível não os acolher. Além disso, apela a que se evite a compra massiva, priorizando os animais de rua que tanto precisam de um lar.
A visão de quem observa a sociedade
Afastada da linha direta de resgate, mas igualmente tocada pelo problema, Dulce Oliveira oferece uma perspetiva puramente cívica. Sem animais em casa, Dulce olha para o abandono não como um infortúnio, mas como um crime de desumanidade que viola a lei e a ética.
“Nota-se mais nas alturas em que as pessoas vão de férias, que é quando aumenta drasticamente o abandono dos animais. As pessoas já não veem o animal como um elemento da família, mas como um objeto”, aponta.
A análise da cidadã foca-se na facilidade com que se descarta uma vida assim que ela passa a exigir responsabilidade, espaço ou quando “suja a casa”. Sendo um problema visível no dia a dia, inclusive com animais deixados à sua sorte em plena autoestrada, Dulce defende que as pessoas ignoram deliberadamente as alternativas existentes, como o recurso a canis, associações ou o próprio poder de partilha do Facebook e de outras redes sociais para encontrar adotantes responsáveis. Num plano mais utópico, sugere mesmo uma mudança “radical”: se cada habitação acolhesse obrigatoriamente um animal, o problema das ruas deixaria de existir.
Duas margens, o mesmo apelo
Embora Teresa Graça e Dulce Oliveira partam de realidades destintas, uma focada no amor prático do cuidar e a outra na indignação cívica de quem observa a sociedade, as suas vozes fundem-se num aviso idêntico para o futuro.
Ter um animal de estimação requer assumir os custos, as doenças, o espaço e o tempo. Ambas concluem que, se a intenção for vacilar perante a primeira dificuldade, a melhor decisão será sempre a de não adotar. O abandono, mais do que um problema de superpopulação nas ruas, continua a ser um espelho desconfortável da falta de empatia humana. Juntos devemos lutar para uma sociedade melhor e mais empática.
