No Futebol de formação, o mais importante é “formar boas pessoas”
Num final de tarde, dezenas de crianças correm atrás da bola. Entre risos, chamadas de atenção e palavras de incentivo, no final, estão só a divertir-se e a aproveitar o momento. Fora das quatro linhas, estão os treinadores e os pais que olham para o futebol como um espaço de aprendizagem, crescimento e formação. No centro deste processo está Edgar Sousa, treinador de formação da equipa dos sub10 do Dínamo Clube da Estação, que vê no futebol infantil muito mais do que resultados e classificações.
Reportagem de José Pedro Silva
Edgar Sousa está, pelo segundo ano consecutivo, a trabalhar no futebol de formação, depois de uma primeira experiência como treinador-adjunto. Atualmente está como treinador principal, assumindo a responsabilidade de orientar e educar, não apenas atletas em crescimento, mas crianças numa fase de desenvolvimento emocional e social. Para o treinador, o futebol para estas idades tem uma missão clara: “É mais do que formar jogadores, é também formar boas pessoas.”
O respeito, o espírito de equipa, a responsabilidade, o compromisso, a humildade e, acima de tudo, a alegria em jogar futebol, são exemplos de valores que procura transmitir. “Nesta idade, é fundamental que as crianças gostem de estar no treino e no jogo. Só assim conseguimos fazer com que aprendam e evoluam”, explica Edgar Sousa.
Treinar crianças de 10 anos implica desafios constantes e para um treinador jovem como Edgar Sousa, a principal dificuldade está a ser gerir diferentes personalidades e ritmos de aprendizagem. “É preciso ter capacidade de fazer chegar a mesma mensagem a todos, sabendo que cada criança tem uma perceção diferente. Manter a motivação, a diversão e o foco no desenvolvimento não é fácil, mas é essencial.

Apesar do futebol de formação estar a entrar num contexto cada vez mais competitivo, o treinador dos sub-10 do Dínamo Clube da Estação acredita que o futebol de formação deve dar espaço ao erro. Além disso, Edgar Sousa defende que o problema não está nas crianças, mas muitas vezes nas ideias pré-concebidas dos adultos. “No futebol de formação em Portugal devia haver menos foco em ganhar e mais foco em aprender, ensinar, errar e evoluir. Os resultados são o que menos interessa nestas idades.”
Esta visão contrasta com uma cultura desportiva onde ganhar é, frequentemente, visto como sinónimo de sucesso. No entanto, Edgar Sousa sublinha que o verdadeiro impacto do futebol acontece a longo prazo: “ver a evolução dos miúdos, perceber que aquilo que trabalhamos no treino começa a aparecer no jogo, não só como jogadores, mas também como pessoas, é o que mais me motiva.”
Por vezes, os momentos mais marcantes não estão ligados a títulos ou vitórias. “Os sorrisos, a espontaneidade e o significado enorme que pequenas conquistas têm para eles, como marcar um golo ou ganhar um jogo que não conta para nada, são o que mais fica”, afirma Edgar Sousa.
Sobre o papel do futebol na educação, Edgar Sousa nega que o desporto substitua a escola, mas realça que são adquiridos outros conhecimentos e competências. “O futebol ensina trabalho em equipa, resiliência, lidar com vitórias e derrotas, respeito por regras e pelos outros”, sublinha.
Para o treinador, o futebol acaba por ser um reflexo da própria vida. “Nem sempre é fácil, às vezes jogamos contra equipas melhores, outras vezes ganhamos e outras perdemos. Temos de aprender a dar-nos bem com todos os colegas, mesmo que não gostemos de todos. Tudo isto prepara os miúdos para o futuro.”
Esta aprendizagem passa também pela gestão das emoções, um dos aspetos mais difíceis aos 10 anos. Edgar Sousa identifica a frustração, a revolta, a ansiedade e a dificuldade em lidar com o erro e com a derrota como os principais desafios emocionais nesta idade.

Pais não devem ser treinadores de bancada
Se o papel do treinador é central, o comportamento dos pais pode ser decisivo no rendimento e no bem-estar das crianças. Edgar Sousa admite já ter sentido alguma pressão, sobretudo em relação ao tempo de jogo, castigos ou convocatórias: “faz parte do processo, mas também reconheço que é a primeira vez que estou a lidar inteiramente com os pais.”
A crença de que o papel ideal dos pais passa por apoiar, incentivar e confiar no processo é uma das ideias que move o jovem treinador. “Devem ser um suporte emocional, motivar os atletas, mas não podem ser treinadores de bancada. Comentários como ‘tu é que és o melhor’ ou ‘o mister não sabe nada’ só criam falsas expectativas e prejudicam as crianças”, considera o técnico.
A influência dos pais no comportamento dos atletas da formação é clara. “Pais muito pressionantes ou negativos podem bloquear a criança e tirar-lhe o prazer de jogar. Por outro lado, pais que motivam de forma positiva ajudam a criança a querer aprender e evoluir”, refere Edgar Sousa.
Do lado dos pais, a consciência da importância do futebol como espaço educativo também está presente. António Jorge, pai de um dos atletas, destaca valores como o companheirismo, o fair play, a humildade, o trabalho em equipa e a maturidade. Para ele, o futebol ajuda as crianças a perceberem que “a vida não é assim tão fácil”.
Segundo António Jorge, existem alguns obstáculos no futebol infantil, que, muitas vezes, até vêm de casa. “Há pressão, e, maioritariamente, vem mais dos pais do que dos clubes”, admite. Além disso, acredita que o papel dos pais deveria ser mais discreto. “O papel é de mudos. Evitar comentários, dentro e fora do recinto de jogo”, considera o pai do atleta.
“É essencial. O treinador é uma referência para eles”, destaca António Jorge. Já sobre as redes sociais, este pai alerta para a forte influência destas aplicações: “Sim, passam muito tempo nessas redes”, o que pode acabar por ter um impacto negativo.
Também Edgar Sousa reconhece as várias repercussões que as redes sociais têm no futebol de formação. “Cada vez mais as crianças querem imitar os seus ídolos e criam expectativas pouco realistas para a idade que têm.” Apesar de entender que existem aspetos positivos, o treinador alerta para a dificuldade das crianças em distinguir o que é adequado ou não.
Nesse sentido, o trabalho do treinador passa também por recentrar os jovens atletas no essencial: o prazer de jogar, o esforço e a aprendizagem contínua. Quando uma criança perde a motivação, Edgar Sousa aposta no diálogo. “Converso com ela, tento perceber o motivo, criar um ambiente positivo onde se sinta valorizada.” O objetivo do treinador é mostrar que o futebol vai além de ser bom ou mau e recorre muitas vezes à sua própria experiência para relativizar dificuldades.
O respeito que consegue conquistar junto das crianças, permite criar maior proximidade. “Sendo justo, coerente, próximo e dando o exemplo. Nós somos o maior exemplo para eles”, recorda Edgar Sousa.
Para além do treinador e dos pais, o clube assume também um papel determinante no percurso das crianças. É lá que a filosofia de formação, o ambiente competitivo e os princípios que orientam o trabalho diário são definidos. Um clube que privilegia o desenvolvimento humano acima dos resultados cria condições para que treinadores e jogadores trabalhem sem a pressão constante de ganhar a qualquer custo.

Formar atletas e pessoas
No futebol de formação, para muitas crianças, o clube é o primeiro espaço de socialização fora da escola e da família, sendo também o local onde aprendem a conviver com colegas diferentes, a respeitar regras e a lidar com pessoas que devem respeitar e obedecer.
Entre ciclos de treinos, jogos e aprendizagens constantes, Edgar Sousa resume o seu trabalho numa só palavra: “Formar.” Formar atletas, mas sobretudo formar pessoas capazes de lidar com desafios, respeitar os outros e encontrar no desporto um espaço seguro de crescimento.
Com a pressão externa cada vez mais presente no futebol infantil, histórias como esta lembram que, aos 10 anos, o mais importante não é ganhar campeonatos, mas sim criar memórias, valores e aprendizagens que ficam para a vida inteira. Porque, no fim, o futebol pode até acabar, mas aquilo que se aprende dentro e fora do campo permanece.
