Cracks Clube de Lamego: Há mais de 50 anos a formar gerações
Há mais de meio século que os Cracks Clube de Lamego são um pilar na formação desportiva dos jovens na cidade de Lamego e arredores. Com títulos históricos, gerações de desportistas que passaram pelos relvados e uma bancada que, ao longo dos anos, se encheu de vozes para apoiar o plantel, o clube destaca-se como um espaço onde se vive o futebol com paixão.
Reportagem de Mariana Ferreira
Segundo o site oficial dos Cracks Clube de Lamego, o clube foi fundado em 1974, por José de Almeida. Nasceu da vontade de proporcionar aos jovens da cidade e arredores um espaço seguro para praticar desporto, e tornou-se ao longo dos anos um dos projetos mais consistentes da região. Atualmente, a presidência do clube está entregue a Marco Rodrigues, desde 2017.
Um dos momentos mais marcantes do clube foi em 1977/78, quando a equipa de juvenis ganhou o Campeonato Nacional em Tomar, derrotando o Vitória Futebol Clube por 1-0, com um golo decisivo marcado por Toni. Essa vitória foi um dos pontos altos do clube. Para além desse título, existem muitos mais, os sub17 conseguiram sete títulos de Campeão Distrital até ao momento e os sub15 10 títulos distritais. Em relação aos escalões mais jovens, os sub13 conquistaram dois títulos distritais, assim como os sub11, enquanto os sub10 reúnem apenas um título distrital e uma Taça da Associação de Futebol de Viseu (AFV), informação disponível no site oficial.
De momento, o clube tem escalões desde os sub6 até aos sub16, e os treinos são distribuídos ao longo da semana pelos vários níveis e pelos vários campos do clube. Dos sub6 aos sub10 os treinos realizam-se no campo do Liceu, quanto aos do sub12 ocorrem no campo de Cepões, e finalmente o sub14, 15 e 16 treinam no campo dos Remédios, explica David Teixeira, estagiário do clube.
Dos Cracks para a Academia do Sporting
Entre as centenas de jovens que passaram pelo clube, destaca-se Pedro Seixas de 25 anos, mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade de Coimbra. Começou a jogar aos 8 anos, e desde aí começou o gosto pelo futebol e aprendeu a dar os primeiros toques. Aos 10 anos surgiram-lhe propostas dos grandes clubes, FC Porto, SL Benfica e Sporting, para ir jogar para uma dessas equipas. “Na altura era muito novo e quando recebi os convites, para mim foi algo gratificante, porque eu sempre fui muito esforçado, só que nunca imaginei ter esses clubes atrás de mim, portanto na altura foi algo que me deixou muito feliz, mas acho que nem conseguia assimilar bem o que estava a acontecer”, recorda Pedro Seixas.
Inicialmente o que pensava aceitar, com a ajuda da sua família, era o FC Porto pois era o seu clube, mas acabou por escolher o Sporting. “O Sporting formou grandes jogadores e foi por isso que escolhi ir para lá”, conta. Na época 2010/11, o atleta durante a semana treinava no clube da sua terra e ao fim de semana ia jogar a Lisboa. “Fazia metade da época nos Cracks e a outra metade no Sporting, recordou. Para o atleta essa fase foi determinante, não só pelo desenvolvimento técnico, mas pela maturidade que ganhou.
Aos 13 anos, depois de já ter jogado pelo Sporting, durante duas épocas recebeu o convite para entrar na Academia do Sporting, em Alcochete e iniciou o seu percurso a 18 de agosto de 2013.
Essa mudança na vida do jogador teve um grande impacto. “Foi difícil porque sempre fui muito ligado à minha família. De repente estava a viver longe, com horários diferentes, pessoas novas, uma escola nova, tudo diferente”, explicou Pedro Seixas.
A mudança para Alcochete não só marcou a vida do jovem, alterou também a da sua família. Aurora Seixas, de 56 anos, explica que no início foi muito complicado, principalmente quando o deixaram em Lisboa. “Ele tinha apenas 13 anos, era um menino que estava muito ligado à família. Custou-nos muito, mas sabíamos que era para o futuro dele. Nós íamos lá todos os fins de semana, era muito complicado conciliar, porque ainda eram quatro horas de viagem até Lisboa, mas foi um esforço da nossa parte do qual não nos arrependemos”, conta a mãe do jogador.
A ligação aos Cracks Clube de Lamego nunca se perdeu. Em 2013, na gala dos Cracks, no Teatro Ribeiro Conceição, apesar de Pedro Seixas já não fazer parte da equipa e estar longe da sua cidade, foi convidado e homenageado com uma camisola emoldurada, por estar a jogar num dos maiores clubes do país e a representar Lamego. O atleta constata que foi especial: “senti que o meu percurso também era deles”.

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O regresso a casa e a conquista do Campeonato Distrital
Em 2016, depois de dois anos na Academia, regressou a Lamego. O clube leonino acabou por deixar de acreditar no seu potencial, e o jogador reconhece que deixou de corresponder às expectativas. “Segui o meu caminho, nem sempre corre como queremos, mas aprendi muito”, admite.
Quando voltou à sua terra, reencontrou o ambiente familiar dos Cracks e integrou o último escalão disponível no clube. Essa época, 2016/17, acabou por ser memorável, pois sagraram-se Campeões Distritais, um título que marcou o fecho de um ciclo. “Foi especial, aceitaram-me de volta, reencontrei-me com os meus amigos de infância e sagramo-nos campeões no clube onde nascemos”, recorda com nostalgia.
O sonho começa aqui
No mesmo campo em que Pedro Seixas começou a dar os seus primeiros toques, treinam dezenas de crianças que vivem o futebol com a mesma paixão. Entre elas está Guilherme Fernandes, de 7 anos, que treina com entusiasmo e uma ambição que não esconde: “eu gosto muito de jogar, sou muito feliz e quando for maior quero ser como o Cristiano Ronaldo, porque ele é o melhor do mundo”.

Para os pais, o clube tem um papel que vai além do futebol. Ana Pereira, de 44 anos, acompanha o filho David desde o início do seu percurso e destaca a importância do ambiente proporcionado pelos treinadores: “aqui eles aprendem a jogar, mas também aprendem a respeitar-se uns aos outros, a ouvir e a trabalhar em equipa. Para nós, país, isso é muito importante”, afirmou Ana Pereira.
A mãe do atleta explicou ainda que o clube tem uma forma de trabalhar que tranquiliza as famílias. “Os miúdos chegam felizes a casa e saem com vontade, mesmo nos dias de inverno, como agora, eles não querem ficar em casa, eles querem é vir jogar. Eu enquanto mãe e penso que falo por todos, sentimos que estão num sítio onde são bem tratados e onde crescem como pessoas”, acrescentou.
Ana Pereira nem sempre consegue estar presente em todos os torneios fora da cidade devido ao seu trabalho, mas sempre que consegue marca presença para apoiar e ver o filho, que joga nos Sub7. “Não consigo vir a todos os jogos, tento vir o máximo que consigo, porque ele gosta de nos ver na bancada a apoiá-lo e quando eu não posso vem o pai, está sempre alguém presente”, explica.
Rui Santos: Uma vida dedicada ao clube
Rui Santos, de 35 anos, e mais conhecido como Nikita, é coordenador e treinador dos Cracks Clube de Lamego. Segundo Rui Santos, a ligação que tem com clube é duradoura, começou aos 8 anos como jogador e permaneceu até aos 18, passando assim por todos os escalões, incluindo um, que atualmente já não existe, o sub19.
Depois de se licenciar em Ciências do Desporto pela Universidade Trás-os- Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, no final do terceiro ano iniciou numa associação desportiva que havia em Lamego, o LamegoFoot, onde esteve cerca de um ano, com crianças dos cincos aos sete anos.
Pouco tempo depois, regressou ao clube que considera ser a sua casa. “A partir daí, iniciou-se um percurso longo, cerca de sete a oito anos como treinador e mais dois a três como coordenador. Depois desse percurso, surgiu a oportunidade de integrar o Sporting Clube de Lamego na equipa sénior, onde estive quatro anos como treinador da equipa principal”, explica o coordenador.
Em 2024, voltou à formação e reassumiu o cargo de coordenador nos Cracks, acumulando também funções de treinador dos sub16 e neste momento lidera a equipa sub10.
A ligação emocional ao clube é notável: “Estamos a falar de um percurso de quase 20 anos ligado ao clube, 10 como jogador e 10 como treinador e coordenador. É aqui que eu me sinto bem, é aqui que eu me sinto feliz”, concluiu o Rui Santos em entrevista dada ao clube.
Os Cracks Clube de Lamego, são mais do que um clube de formação, tornaram-se num símbolo de continuidade na região. Permanecem como um projeto que une gerações e mantém vivo o compromisso de fazer do futebol um espaço de crescimento.
