Aglomeração de sonhos origina nova constelação. Quando é que a arte existe?

Em 2018 existia um grupo de quatro amigos, em Viseu, com um sonho bastante claro, fazer teatro. Quando formaram um grupo de teatro amador, o Re´start, estavam longe de imaginar que, atualmente, se tornassem numa associação, a Associação de Estrelas em Constelação.

Reportagem de Mariana Santos

Daniel Martins, Joana Pina, Micael De Almeida e Ricardo Cálix foram convidados a abandonar o grupo de teatro que frequentavam anteriormente devido a ideias revolucionárias, que, na verdade, Micael De Almeida, ator e atual estudante do curso de Artes Performativas da Escola Superior de Educação de Viseu, acredita apenas que defendiam ideias diferentes.

Não havia um espaço para fazer teatro, mas havia muitos sonhos para concretizar que levaram à criação desde projeto. Joana Pina, fundadoras dos Re´start, estava grávida e queria realizar o desejo de subir a palco durante a gestação. “Quando nos vimos sem sítio onde fazer teatro e reparámos que a Joana estava grávida, percebemos que precisávamos de um grupo que nos deixasse concretizar esse sonho” recorda o ator. A estreia do projeto Entre Quatro Paredes realizou-se com três atores em palco e dois bebés na barriga de duas atrizes, foi a peça que permitiu que o Re´start não fosse apenas um grupo de teatro temporário. A peça é de um dos autores favoritos de Micael De Almeida, Jean Paul Sartre, cujo tema principal se resume numa frase: o inferno são os outros.

Os quatro fundadores da Re’start

O Re´start, grupo de teatro amador, nasceu do sonho destes quatro jovens que não sabiam que, passado oito anos, seriam uma associação cultural com cerca de 57 elementos. A Associação das Estrelas em Constelação, conta com a direção e vários subgrupos, como Madalenas Arrependidas, Experimental Sigilo, Re´start, entre outros.

Antes de se formar a associação, o Re´start sobreviveu de apoios informais de associações locais e famílias que contribuíam com figurinos. Micael De Almeida, presidente da associação, partilha que nunca tiveram apoios de nada público. “Não nos candidatamos porque não éramos uma associação e estávamos sempre ligados a outras identidades” acrescenta o ator.

O fundador recorda que nos primeiros tempos foi complicado conseguir angariar membros para o grupo. “Tivemos quase de bater às portas para conseguir arranjar 10 pessoas que quisessem estar connosco. É muito difícil convencer pessoas a participarem num projeto quando ele ainda não existe” explicou Micael De Almeida.

Após o primeiro ano, em 2019, no Festival de Teatro Jovem de Viseu, o Re´start conquistou o prémio de Melhor Peça, Melhor Interpretação Feminina, para a atriz Joana Pina, grávida em cena, e Melhor Interpretação Masculina.

O grupo regista, em 2023 o prémio de Melhor Texto Original Sala de Espera Para Quem Não Tem Onde Ir, de Micael De Almeida. O autor recorda que escreveu o original há 15 anos e nunca tinha encontrado o elenco ideal para o representar. Em 2024, ganham o Prémio Melhor Peça Auto da Barca do Inferno.

Festival de Teatro Jovem, 2019

O encenador Micael De Almeida acrescenta: “fomos tão abençoados nos festivais em que participámos que fomos obrigados a ficar”. A partir do momento em que o Re´start mostrou trabalho a angariação de membros tornou-se mais fácil.

Atualmente, o grupo regista 57 elementos de todas as faixas etárias, nomeadamente conta com um elemento de aproximadamente 60 anos. O lema deste projeto é que todas as pessoas dos 10 aos 100 possam participar. Para frequentar o Re´start não há audições formais nem é exigido formação. Apenas é pedido uma conversa inicial para perceber a intenção de quem chega e deseja fazer teatro. Com a quantidade de membros que o grupo adquiriu foi necessária uma reorganização interna. A criação de subgrupos nasce de não ser possível por 57 pessoas em palco todos os anos. Dessa subdivisão foram criados projetos próprios que incorporam a associação.

Érica Santos, estudante de Artes Performativas e elemento do grupo de teatro há quase dois anos, afirma que encontrou ali uma família. A estudante destaca o trabalho técnico e humano da associação. “Fazemos exercícios de confiança com os membros do elenco da peça que participamos. Ajuda-nos a conhecer melhor uns aos outros e a criar intimidade. É um espaço seguro, de portas abertas, onde partilhamos o amor pelo teatro”, declara a atriz.

Sala de Espera Para Quem Não Tem Onde Ir, de Micael De Almeida

A formação da Associação Estrelas em Constelação trouxe ao grupo uma validação do trabalho até então realizado. “Este novo cargo deu uma seriedade que fez com que mais pessoas quisessem participar” admite Micael De Almeida. A associação permitiu dar nome e reconhecimento aos apoios silenciosos que tinha. Hugo Barros, encarregado de educação de uma das jovens do grupo, ajudou financeiramente e burocraticamente o projeto por achar que havia qualidade, mas que não era reconhecida.

Micael De Almeida é um dos principais fundadores do grupo e atual presidente da associação. Porém, para além de ator há 24 anos, é encenador e dramaturgo. O amante de teatro revela que pela primeira vez os textos não são apenas da sua autoria. “Há uma menina com 15 anos que escreveu o seu primeiro texto e agora estamos a começar a trabalhá-lo. Ou seja, há sempre espaço para contarmos a história de todas as pessoas. Tento, claro, agradar à maioria, mas nem sempre é possível”.

Apesar do fundador ter um lugar de destaque no grupo houve momentos de dúvida. “Houve uma fase em que pensei que talvez não fosse a melhor pessoa para estar à frente do projeto, ou seja, tive algum medo de que as minhas relações pessoais, a forma como sou visto ou o facto de eu ter às vezes algumas opiniões muito próprias pudessem danificar o grupo. Mas depois, juntamente com o resto da direção, apercebi-me que estava tudo bem”, confessou Micael De Almeida. A prioridade do encenador é garantir que todos se sintam representados e realça o facto de que ninguém irá passar vergonhas em palco.

Leonor Pais, de 18 anos, é estudante de Design de Comunicação e entrou há um ano para o grupo. Para a estudante, o grupo é feito de entrega coletiva e de confiança. “Somos incentivados a colaborar e a pensar em conjunto para chegar a um resultado. Além disso, melhorei as minhas capacidades performativas, ajudou-me a desenvolver capacidades de comunicação, concentração e resolução de problemas. O nosso encenador está sempre disponível para as dificuldades e inseguranças de cada um para que possam ser trabalhadas” partilha a jovem.

Elementos do grupo

“A arte que se reparte, re´start!” é o lema do grupo. Para Micael De Almeida, a arte só existe quando é partilhada. De grupo amador a associação cultural, o Re´start não abandonou o sonho inicial e formaram uma constelação. O sonho de contar histórias continua presente e a urgência de fazer teatro acompanha não só o desejo de quatro jovens, mas de uma constelação inteira.

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