“Enquanto houver quem conte Sever do Vouga, continuaremos vivos”
ViverSever é uma associação num território onde as serras convivem com o rumor constante da água, Sever de Vouga. Com 5 anos a atuar para um grande desenvolvimento desta terra a associação foi criada por um grupo de 11 jovens que decidiu não aceitar a invisibilidade e mostrar que Sever de Vouga é muito mais do que paisagem, é memória, pertença, identidade e futuro. A Associação ViverSever nasce exatamente deste pensamento, de que uma terra só morre quando as pessoas deixam de a contar.
Reportagem de Inês Vassalo
À frente da direção está Gonçalo Carvalho de 30 anos, videógrafo de profissão numa agência criativa, mas no contexto associativo, presidente da direção da ViverSever. Ao seu lado, Pedro Martins, designer e vice-presidente, que integra uma equipa maior, formada por voluntários que decidiram transformar a vontade em ação. A associação foi fundada a 17 de dezembro de 2020, em pleno contexto pandémico, por pessoas maioritariamente severenses ou residentes no concelho.
Gonçalo Carvalho começa por explicar como nasceu a ViverSever. “Sentíamos que havia recursos naturais incríveis, uma história forte, tradições vivas, mas tudo isso não estava a ser devidamente dinamizado nem promovido”. Em vez de esperar que as instituições públicas assumissem esse papel, o grupo decidiu agir. A ViverSever nasce, assim, como uma espécie de gabinete de comunicação comunitário, feito a partir de dentro, com a comunidade e para a comunidade.

Promover o que Sever de Vouga tem de melhor
Nos primeiros tempos, a associação tinha um foco mais evidente no turismo, a ideia passava por promover Sever do Vouga enquanto destino. No entanto, ao longo do percurso, a missão foi ajustada, a equipa percebeu que a cultura poderia ser o verdadeiro motor de transformação.
O presidente explica que comunicarmos menos para fora e mais para dentro ajuda a despertar orgulho para os severenses. “Ao promovermos a cultura severense, as tradições e o património, estamos automaticamente a promover o território”. Para o responsável, um habitante que valoriza a sua terra é, por si só, o melhor embaixador possível. Essa visão assenta numa metáfora que Gonçalo Carvalho usa com frequência, o “efeito catapulta”, antes de projetar o futuro, “é preciso olhar para trás para podermos descobrir, preservar e compreender o que já existe, só depois é possível lançar novas ideias criativas que reinterpretam esse património para as gerações mais jovens”.

Conhecer para ficar
Sever do Vouga é hoje um dos concelhos mais envelhecidos do distrito de Aveiro. A desertificação não se explica apenas pela falta de atividades culturais, mas a associação acredita que trabalhar a identidade local pode fazer a diferença. “Se conseguirmos que um em cada cem jovens fique porque gosta da terra onde vive, já é uma vitória”, sublinha o vice-presidente.
O problema, muitas vezes, não é a ausência de património, mas o desconhecido, muitos severenses conhecem a Cascata da Cabreia, mas ignoram que existem mais de uma dezena de cascatas espalhadas pelo concelho. Conhecem meia dúzia de referências, mas desconhecem a profundidade histórica e cultural do território que habitam. É nesse espaço entre o que existe e o que é conhecido que a ViverSever atua.
Atividades que ligam pessoas, memórias e lugares
A associação desenvolve atividades abertas, transversais, pensadas para diferentes faixas etárias, embora com maior incidência no público jovem adulto. Todas têm um ponto em comum, a ligação à cultura, à história ou à criação artística. Um dos exemplos mais emblemáticos são as Caminhadas Fotográficas. O que começou como uma necessidade de criar conteúdo visual para as redes sociais transformou-se num evento comunitário que mobiliza fotógrafos locais e amantes da imagem, o objetivo deixou de ser apenas documentar Sever do Vouga, mas passou a ser vivê-lo coletivamente, através do olhar de quem o percorre.

Outro exemplo é a Expedição Braçal, uma experiência imersiva criada em torno das antigas minas o primeiro complexo mineiro de Portugal. Em vez de uma visita guiada tradicional, os participantes são convidados a assumir o papel de exploradores que descobrem, passo a passo, a história das ruínas através de desafios e pistas, a história deixa de ser um discurso distante e passa a ser uma experiência vivida.
A associação tem também trabalhado a preservação de tradições através do registo e da documentação, um caso simbólico é a desfolhada tradicional de Couto de Esteves, que convidada por uma associação local, a ViverSever registou fotograficamente o ritual comunitário, preservando-o para a posteridade.
Para Pedro Martins, o papel da associação não é só reinventar, mas respeitar, observar e guardar e para “preservar não é só conservar. Muitas vezes é dinamizar, dar contexto, permitir que as pessoas entrem em contacto com essas práticas”.
Um território com passado de vanguarda
Sever do Vouga carrega um passado industrial e produtivo muitas vezes esquecido. Foi aqui que surgiu a primeira cooperativa de laticínios portuguesa, onde nasceu o leite Gresso, e que existiu o primeiro complexo mineiro do país. Foi também nesta região que se desenvolveu uma das maiores fábricas de massas e cereais de Portugal. A Linha do Vouga, embora não exclusiva do concelho, foi fortemente impulsionada por esta dinâmica industrial.
Houve um tempo, entre o final do século XIX e o início do século XX, em que Sever do Vouga esteve na linha da frente em várias áreas, depois, esse ciclo quebrou. Para Gonçalo Carvalho, a ViverSever revive essa história, não é um lamento é prova de potencial e “se já existiu, é porque houve condições e se houve condições, pode voltar a haver”.
Redes sociais como montra, não como fim
Apesar de o impacto nacional ainda ser limitado, a associação tem usado as redes sociais como principal ferramenta de comunicação, mais do que números, interessa a coerência da narrativa. A página da ViverSever funciona como uma montra digital do território, permitindo que Sever do Vouga entre no “algoritmo” e seja descoberto por pessoas de diferentes pontos da Europa.
Ainda assim, a prioridade mantém-se clara, comunicar para dentro. A associação não quer ser uma agência turística nem lucrar com o território, quer fortalecer laços, criar orgulho e fazer com que os próprios severenses levem a sua terra para fora, através do boca-a-boca, das relações pessoais e da partilha genuína.
Cocriação como método
Em cinco anos de atividade, a ViverSever estabeleceu 52 parcerias com associações, empresas e entidades públicas, num concelho com mais de 70 associações muitas delas inativas e este trabalho em rede assume especial relevância.
A associação tem uma medida simples, ninguém trabalha sozinho. A ViverSever acredita na cocriação, na partilha de saberes, no reconhecimento de que há conhecimento espalhado por cada freguesia, por cada grupo, por cada geração. “Nós somos jovens, estamos a aprender. Precisamos dessas associações para conhecer melhor a história severense”, sublinha Gonçalo Carvalho.
Este trabalho conjunto tem, inclusivamente, contribuído para revitalizar associações adormecidas, criando dinâmicas novas e projetos partilhados.
Associados, voluntariado e pertença
A ViverSever conta atualmente com 87 associados. Todos são voluntários. Não há remuneração, não há fins lucrativos. Há tempo, ideias, mãos a ajudar e, nalguns casos, apoio financeiro de quem acredita no projeto, mesmo sem poder participar ativamente.
Entre os associados há bombeiros, empresários, políticos, membros de outras associações, pessoas com perfis distintos, unidas por um objetivo comum: fortalecer a ligação à terra.

Desafios, resistência e futuro
Nem tudo foi fácil, desde o início, a associação enfrentou desconfiança por parte de alguns setores da comunidade e resistência no campo político. Ainda assim, a associação mantém uma ambição, não ter uma cara única, não ter uma cor política, não excluir ninguém, ser um espaço onde qualquer severense independentemente da idade, classe ou ideologia se possa rever.
A mensagem final de Gonçalo Carvalho é simples: “uma terra é feita de pessoas. Se as pessoas se desligam da sua terra, a terra morre.” A ViverSever é, antes de tudo, uma tentativa de evitar esse desligamento. A quem visita Sever do Vouga, o convite é claro, parar, observar, cheirar as flores, caminhar sem pressa, a quem é jovem, o apelo é ainda mais direto, usar a associação ou qualquer outro espaço como plataforma para alimentar o amor pela terra.
“Porque enquanto houver quem conte Sever do Vouga, Sever do Vouga continua vivo”.
