Onde ganhar não é chegar primeiro: o desporto adaptado como espaço de inclusão
Há competições, deslocações e vitórias, mas na Associação Portas P´rá Vida, em Lamego, o desporto adaptado ganha sentido fora dos pódios. Para pessoas com deficiência cognitiva, esta prática funciona como um espaço de inclusão e desenvolvimento pessoal, onde o progresso nem sempre se mede em classificações.
Reportagem de Mariana Marcela, no âmbito da UC Jornalismo para os Novos Media, lecionada pela docente Liliana Carona
Fundada há mais de 35 anos, a Associação “Portas P´rá Vida” (APPV) atua na região de Lamego, oferecendo uma variedade de atividades adaptadas e consolidando parcerias com outras organizações de modo a promover oportunidades e participação social para pessoas com deficiência cognitiva.
Para compreender de que forma o desporto assume este papel, é preciso olhar para o trabalho desenvolvido pela associação. O presidente da direção, Marco Almeida, apresenta o papel da instituição e os objetivos que orientam o desporto adaptado.
As modalidades desenvolvidas na associação são diversas, incluindo boccia, futsal, polybat, mini-golfe, natação, entre outras. De acordo com o presidente da direção, estas atividades combinam um carácter lúdico, permitindo reconhecer e valorizar os atletas, sobretudo à medida que a associação reforça parcerias com outras organizações de desporto adaptado.

Outro aspeto central do trabalho da associação é a relação com a comunidade local. Para além de atividades internas, o mesmo explica como a instituição se insere no território e qual o impacto social das suas ações.
Inclusão com poucos recursos
Sobre os apoios e desafios financeiros, salienta a necessidade de mais recursos: “O maior apoio que precisamos é financeiro. O desporto adaptado ainda não tem o mesmo apoio que o desporto normalizado.” Acrescentou ainda “Sentimos que, a nível governamental, podia haver mais medidas de apoio e mais reconhecimento do desporto adaptado em si, porque os nossos atletas também têm valor, e muito valor, e conseguem alcançar objetivos como qualquer pessoa dita normal”.
Um dos pontos mais exigentes do trabalho da associação está ligado à diversidade dos utentes e a necessidade de cada um ser acompanhado de forma adequada às suas características individuais.
Guiar, apoiar e motivar
Para além da dimensão institucional, o impacto do desporto adaptado é visível no acompanhamento diário dos utentes. Tatiana Pinto e Aida Cardoso são as profissionais responsáveis pela planificação e acompanhamento dos treinos e atividades.

A bancada onde todos têm lugar
Na associação, o desporto adaptado vai muito além do exercício físico, tornando-se também um espaço de interação social e construção de autoestima. A técnica Aida Cardoso explica de que forma esta prática influencia o bem-estar dos utentes.
O trabalho das técnicas depende diretamente da formação especializada, mas a oferta para profissionais que atuam com pessoas com deficiência intelectual ainda é limitada. Tatiana Pinto destaca que é necessário conhecer as diferentes patologias e adaptar os exercícios a cada utente, mas nem sempre há cursos que forneçam este conhecimento de forma abrangente. Aida Cardoso reforça a importância destas formações para o desenvolvimento do trabalho diário: “É importante termos formação específica, porque nos ajuda a adaptar melhor as atividades às capacidades e necessidades dos utentes.”
A intervenção técnica no desporto adaptado exige uma atenção constante às capacidades individuais de cada praticante. Mais do que cumprir exercícios, o trabalho passa por reconhecer limites, ajustar expectativas e valorizar progressos que, muitas vezes, são invisíveis para quem está fora deste contexto.
Quando o apoio é escasso, a criatividade é infinita
A escassez de eventos e atividades na região obriga a instituição a criar soluções próprias para os utentes. Tatiana Pinto explica: “muitas atividades são longe daqui e raramente conseguimos levar todos os utentes”, o que torna a participação mais complicada.
Para contornar este desafio, a equipa desenvolveu iniciativas próprias, como o Futsal Cup adaptado, em colaboração com o Município de Lamego e o Boccia com Cereja, em Resende. Segundo Aida Cardoso, estas atividades refletem que mesmo com poucos recursos, os utentes têm experiências significativas que permitem que convivam de forma inclusiva.

O inesperado faz parte do jogo
A prática do desporto adaptado é também marcada por uma constante incerteza. As técnicas lidam diariamente com alterações físicas, emocionais e comportamentais dos utentes, o que exige flexibilidade e uma capacidade contínua de adaptação a essas mudanças.

Quando a camisola diz tudo: “Portas P’ra Vida”
Vozes que dão sentido ao desporto
No final do dia, são os próprios atletas que dão rosto e sentido ao desporto adaptado. Apesar das dificuldades cognitivas, cada treino e cada atividade representam para eles uma oportunidade de inclusão, de convívio e de conquista pessoal. Cátia Cardoso, utente da instituição, sublinha a importância do apoio das técnicas no dia a dia, referindo que este acompanhamento contribui para o reforço da sua confiança, autonomia e perceção das próprias capacidades.
A inclusão estende-se também às rotinas da associação. Alguns utentes participam em tarefas do dia a dia, como apoio na cozinha ou na limpeza dos estábulos, assumindo papéis ativos no funcionamento da instituição. Hélio Lourenço, um dos utentes, pratica boccia, joga à bola e também colabora na manutenção dos estábulos: “Gosto muito, faz-me sentir útil”, afirma.
Para Amílcar Loureiro, o desporto adaptado é sinónimo de desafio e superação. A motivação para competir está presente em cada treino, assumindo que: “Gosto de praticar, para depois conseguir competir e conseguir ganhar”.
Entre vitórias e dificuldades, a Associação Portas P’rá Vida prova que o desporto adaptado é mais do que competição, é o direito à igualdade e ao convívio.
