O Bailarino: quando a dança é mais do que espetáculo
Na sala onde a música dita o ritmo das tardes, os corpos alinham-se sem pressa. Há passos que falham, risos que interrompem a contagem e pausas que servem para respirar. Não é apenas uma aula de dança, é um espaço de encontro. Em Amarante, é aqui que um projeto jovem começa a ganhar forma e significado. Mais do que ensinar coreografias, as aulas tornam-se momentos de escuta, partilha e construção de confiança.
Reportagem de: Maria Eduarda
Num concelho onde a oferta cultural chega de forma desigual, um jovem professor criou um projeto que começa a mudar rotinas, corpos e formas de estar, longe dos grandes palcos mas perto das pessoas. Num território marcado pela distância aos grandes centros urbanos, iniciativas como esta assumem um papel fundamental no acesso à cultura.
Daniel Varejão tem 20 anos, é professor de dança e fundador de um projeto comunitário que nasceu há cerca de um ano. Num território pequeno, onde a oferta cultural é vasta mas nem sempre chega a todos, decidiu criar um espaço onde a dança pudesse ser acessível, inclusiva e vivida sem pressão. A iniciativa surgiu da vontade de criar alternativas culturais regulares e acessíveis à população local, respondendo a necessidades que são mais ouvidas por quem está mais próximo das pessoas.

Amarante começa a mudar a forma como olha para a dança
Apesar de fazer parte da vida de muitas pessoas, a dança continua a ser vista, em alguns contextos, como algo secundário. Criar um projeto nesta área, sobretudo for a dos grandes centros urbanos, implica enfrentar preconceitos e limitações estruturais. A escassez de apoios financeiros e institucionais representam um dos principais obstáculos à continuidade de projetos culturais independentes.
Para Daniel Varejão, o maior desafio passa por contrariar a ideia de que a dança é apenas um passatempo ou uma atividade pouco relevante . O projeto procura afirmar-se como um espaço de educação cultural, onde o corpo também é um grande instrumento de aprendizagem e desenvolvimento pessoal.
“A maior dificuldade foi chamar pessoas”, refere Daniel Varejão, professor de dança e criador deste projeto. “Amarante é pequena e já existe alguma oferta”. Ainda assim, o projeto cresceu de forma consistente, muito por recomendação direta, mas, segundo Daniel Varejão, quem entra acaba por ficar.
A ligação do professor à dança vem de cedo. Cresceu rodeado de música e convívios e percebeu logo que queria seguir este caminho. A decisão de transformar essa paixão num projeto próprio surgiu no final de 2024, após integrar uma associação local e ser incentivado a criar algo com identidade própria.
Do percurso pessoal ao compromisso com a comunidade
O projeto começou a estruturar-se com um objetivo claro: levar a dança à comunidade de Amarante de forma acessível. Mais do que formar bailarinos, Daniel Varejão queria criar um espaço onde crianças, jovens e adultos pudessem sentir-se bem.
Os primeiros meses foram marcados por dificuldades como falta de espaço, poucos meios e muita incerteza. Ainda assim, o envolvimento dos alunos tornou-se o principal motor de continuidade, criando uma relação de proximidade entre professor e alunos. Essa relação próxima contribuiu para a criação de um ambiente seguro, onde o erro faz parte do processo de aprendizagem.
Essa ligação acabou também por reforçar o sentido de compromisso com a comunidade e fez com que o projeto deixasse de ser apenas uma iniciativa individual para se tornar um espaço onde cada pessoa tem o seu papel e se sente parte de uma grande família. A noção de pertença surge como um dos principais fatores de motivação para a permanência dos alunos.
Quando a dança começa a ter impacto real
Entre os mais pequenos, os resultados são visíveis. Daniel Varejão recorda uma criança da turma dos mais novos que, no início, apresentava dificuldades motoras significativas mas com o tempo e a criação de rotinas, a evolução tornou-se evidente. A observação contínua do progresso dos alunos permite ajustar os métodos e reforçar a importância destas aulas para o quotidiano das pessoas.
Este tipo de acompanhamento contínuo permite criar rotinas saudáveis e estimular capacidades que vão além da sala de aula, refletindo-se no comportamento, na autonomia e na auto-estima dos alunos, principalmente os mais novos.
Este progresso não se reflete apenas a nível físico, mas também na confiança e na forma como a criança passou a encarar os desafios. Para Daniel Varejão, “este tipo de evolução demonstra o verdadeiro impacto da dança”, mostrando que o trabalho desenvolvido nas aulas pode contribuir de forma concreta para o desenvolvimento pessoal e para a melhoria da qualidade de vida dos alunos. O desenvolvimento emocional dos alunos ajuda as famílias a valorizarem o trabalho do professor e a dança como mecanismo de confiança.
Mas o impacto da dança não se limita às crianças. A influência do projeto estende-se a jovens e adultos, que encontram nas aulas um espaço de bem-estar, reforçando a ideia de que a dança pode ter um papel transformador. Para muitos, as aulas representam uma pausa necessária num quotidiano marcado pelo stress e pela pressão do dia-a-dia.

Uma aluna, um grupo, um lugar seguro
Rute de 13 anos, frequenta as aulas desde o início. Chegou com curiosidade, mas ficou pelo ambiente, “quando estou a dançar, sinto-me bem e esqueço os problemas da escola e o stress”, refere Rute. A experiência da jovem reflete a importância da dança como ferramenta de gestão emocional.
Para a jovem aluna, a dança tornou-se uma forma de expressão emocional. “Sou uma pessoa reservada e quando danço consigo mostrar sentimentos que não consigo explicar”, e o grupo segundo Rute, funciona como uma família. Para Rute, projetos como este ajudam a valorizar Amarante, mesmo que nem todos reconheçam isso.
Famílias que acompanham o percurso
O impacto do projeto é também sentido pelas famílias. Olga, bombeira de 38 anos, foi uma das primeiras a inscrever-se, juntamente com a filha e a mãe. Desde então, nota mudanças claras. A participação de todos reforça os laços familiares e cria momentos de partilha for a do contexto doméstico.
“Mais concentração, mais leveza, mais vontade”, enumera Olga, para ela as aulas representam uma pausa no quotidiano, pois segundo ela não é só dançar, é ter uma hora de tranquilidade. Apesar disso, Olga aponta a falta de acompanhamento institucional a este tipo de iniciativas culturais, considerando que projetos como este deveriam ser mais apoiados e valorizados pelo município, tendo em conta o impacto positivo que têm na vida das pessoas e na comunidade. A dança surge, assim, como uma forma de auto cuidado acessível.
Levar a danca para além do centro
Nos últimos meses, o projeto começou a chegar a outras freguesias do concelho. A descentralização das atividades permite alcançar públicos que, de outra forma, ficariam excluídos da oferta cultural. Através de parcerias, Daniel Varejão tem conseguido levar aulas e atividades a zonas onde o acesso à oferta cultural é mais limitado. Um trabalho particularmente relevante num concelho como Amarante, onde nem todas as pessoas têm facilidade em deslocar-se até ao centro da cidade. Desta forma, o projeto contribui para o acesso à cultura e à atividade física e leva a dança a públicos que, de outra forma, ficariam afastados destas experiências culturais.
Através destas parcerias locais, o projeto reforça a ideia de que o acesso à cultura não deve depender da localização geográfica, contribuindo para uma maior coesão social no concelho de Amarante.
Um futuro em construção
Daniel Varejão sonha com um projeto cada vez mais acessível, capaz de garantir que crianças, jovens e adultos possam participar sem barreiras económicas. Acredita que a dança pode ser uma ferramenta de inclusão, educação e bem-estar. A pergunta impõe-se: estará Amarante preparada para reconhecer plenamente o valor destes projetos culturais?
Enquanto a resposta não chega, a mudança continua a acontecer todos os dias, no silêncio entre músicas, nos corpos que ganham confiança e numa comunidade que, passo a passo, começa a dançar junta.
