“Terapia de luxo”: quando a indicação médica não é o suficiente

Associação hípica de Viseu tem as portas abertas a todos que precisam, seja da terapia com os cavalos ou do próprio desporto. É um lugar que acolhe praticantes encaminhados por prescrição médica ou por recomendação, numa realidade em que a equitação terapêutica permanece sem comparticipação estatal.

Reportagem de Mariana Lira

O ar no picadeiro é frio e carrega o cheiro a couro e terra húmida, no exterior, o verde ainda resiste na paisagem de outono de Farminhão. O Centro Hípico Montebelo não é apenas o lar de cavalos; mas também de gatos e cães, que recebem todos os visitantes. Este é o reflexo da filosofia da Associação Hípica e Psicomotora de Viseu (AHPV), de prover acolhimento a todos. Seja no hipismo adaptado ou na equitação acompanhada por fisioterapeuta, os profissionais da associação “fazem questão de não distinguir”. “Todos interagem uns com os outros, então acaba por ser uma escola de todos”, conta a terapeuta Diana Silva.

A chegar na Associação…
Diana Silva a dar comida a um dos cavalos auxiliares de terapia, a Pipoca.

A profissional de 34 anos de Tondela explica que a maior parte das alunos que procuram os serviços da Associação são por indicação médica, mas que também há muitos que vão por recomendação de pessoas que já estiverem no estabelecimento. Isto inclui pessoas de Viseu, Tondela, Mortágua, Santa Comba Dão, Albergaria-a-Velha e Castro Daire.

A instituição surge em 2014 por uma vontade de impulsionar o acesso a terapias assistidas por equinos (TAE) no concelho de Viseu. “O cavalo é um meio ímpar para o desenvolvimento de sessões de terapêuticas, pois provoca estímulos físicos únicos no praticante”, diz Joana Coimbra, diretora de serviços da Associação.

A importância dos serviços da AHPV também é percebida através das diversas parcerias, como a com o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), com as câmaras municipais e com os agrupamentos escolares, possibilitando que crianças e jovens com necessidades educativas especiais usufruam dos serviços da Associação. “Uma pessoa pode chegar para fazer a terapia e depois evoluir para o desporto adaptado, mas não é a maioria que consegue”, refere a terapeuta, pois são “casos complicados” que exigem cuidado.

Além disso, foi iniciado neste verão um projeto chamado “SaudavelMente”, voltado para adultos com doença mental em situação de exclusão social no concelho de Tondela.

Fotografia de uma parte das instalações da AHPV, com a filosofia deles exposta em um dos muros “#AHPVsomostodos”.

Contudo, a problemática surge no financiamento. Diana Silva lamenta que, apesar dos benefícios comprovados cientificamente, a equitação com fins terapêuticos não seja comparticipada pelo Estado. “Infelizmente, é considerada uma terapia de luxo porque se usa os cavalos”, explica. Sem apoios governamentais diretos para a prática, existindo apenas apoios generalizados da Segurança Social (que raramente cobrem esta especificidade), os custos recaem quase inteiramente sobre as famílias.

“Se houvesse um plafond, ou algum apoio extra, nem que fosse generalizado, poderiam surgir mais atletas a nível nacional”, desabafa a profissional.

Um desporto de rigor, não de passeio

O instrutor Bernardo Pereira, de 23 anos, explica que a transição ao desporto exige autonomia. “Dependendo do tipo da patologia que a criança tenha e se cumprir os requisitos necessários, passamos a fase inicial de volteio. Depois podemos fazer os três andamentos do cavalo: passo, trote e galope. Eventualmente, se eles estiverem a adaptar bem, começamos a utilizar as rédeas e, se tiverem autonomia suficiente, começam a fazer aulas sozinhos ou no grupo”, explica o professor.

Competições desportivas

Para competições, a AHPV rege-se pelas normas do Special Olympics, uma instituição que surge de um Movimento Desportivo Internacional, com o objetivo de apoiar as pessoas com deficiência Intelectual e a sua integração social através do Desporto.

A competição pode ser realizada de forma autónoma ou com auxílio (onde um guia acompanha o cavalo), dependendo do grau de limitação do atleta, seja ela física ou cognitiva. “É um desporto olímpico incrível”, reforça Diana Silva, embora lamente que nem sempre é possível participar. O principal motivo para isso é a dificuldade de levar os cavalos para longe, o próprio custo da inscrição e a disponibilidade dos atletas. “O mais perto que já conseguimos foi organizado no Centro Hípico de Rio de Loba”, relembra a terapeuta.

Um dos picadeiros externos da AHPV. Raramente é utilizado em dias chuvosos por causa da dificuldade de montar no terreno molhado.

Nesse sentido, Bernardo Pereira reforça que o desporto adaptado “deveria ter mais reconhecimento“, já que muitas vezes o esforço e o resultado que são conseguidos pelos atletas passam despercebidos.

Os cavalos

Diana Silva refere que uma das maiores dificuldade da equitação adaptada é “encontrar cavalos que vão de encontro” às necessidades dos alunos. Ela diz que “nem sempre é fácil. Os cavalos ou são muito bons e têm muita energia, e eles não conseguem acompanhar, ou então não tem energia alguma e não querem trabalhar”.

A selecção dos cavalos

“O nosso cavalo é o nosso segundo terapeuta. Funciona como mesa e secretária, mas ao ar livre”, essa é a comparação que a profissional faz, ressaltando a importância e singularidade do animal no desenvolvimento físico e mental.

O processo terapêutico começa sempre com a exigência de uma autorização médica, garantindo que não existem contraindicações. À partida, muitos alunos chegam com medo, mas a criação do vínculo com o animal torna-se uma ferramenta essencial para a própria autoestima e confiança. “Muitas vezes é mais fácil criar essa ligação com o cavalo do que connosco”, admite a tondelense.

Nesse sentido, a Associação conta com um total de oito equinos para desporto e quatro para fins terapêuticos. Um deles é o Stravinsky, que teve de ter uma orelha amputada por complicações médicas. “Até no cavalo somos inclusivos”, brinca Diana.

Foto do Stravinsky, cavalo que perdeu uma das orelhas por uma complicação médica, a relinchar.

O animal que auxilia nas transições da terapia para o desporto é o Tango, “meigo, tranquilo e faz os três andamentos”, perfeito para os iniciantes na equitação desportiva.

Os cavalos só começam a atividade desportiva “a partir dos três a cinco anos”. “Há quem comece mais cedo, mas achamos que a partir deste idade é o certo para aprender. Antes disso, eles ainda são muito imaturos e fazem muitas brincadeiras”, diz Diana Silva.

Imagem de Tango, o companheiro mais indicado para aqueles que vão começar na equitação adaptada.

Equitação terapêutica

A profissional de 34 anos dinamiza as sessões de equitação terapêutica e comenta que há duas vertentes, que dependem da necessidade e dificuldade do paciente: a hipoterapia, que usufrui dos movimentos do próprio cavalo e tem objetivos neuro motores, e o próprio hipismo com fins terapêuticos, que desenvolve diversos tipos de competências, através de atividades, em conjunto com o animal, com finalidade psicomotoras.

Além dos ganhos físicos, como o equilíbrio e o controlo postural, o impacto psicológico é imensurável. Tarefas simples, como escovar o cavalo, dar-lhe uma cenoura ou conseguir montar, gera um sentimento de utilidade e capacidade. Este processo gradual de conquista de confiança combate a insegurança, permitindo que os praticantes reconheçam a sua própria evolução.

A verdade é que o cavalo é um meio, e coterapeuta, único, e quando se fala de equitação adaptada, é preciso falar de terapia, pois o desporto não é “um ponto de partida, mas sim uma etapa evolutiva dentro do percurso das TAE”, comenta Joana Coimbra.

As TAE são intervenções terapêuticas estruturadas, orientadas por profissionais especializados (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psicomotricistas). E é neste contexto que se avalia a evolução, a capacidade física, cognitiva e emocional e as condições de segurança de cada pessoa. 

Quando o praticante progride para o hipismo adaptado, isso significa que ganhou equilíbrio suficiente, estabilizou padrões motores, adquiriu mais autonomia, compreende regras e comandos, consegue interagir com o cavalo com segurança, demonstrando uma consistência terapêutica.

Caso de transição para o desporto

Mesmo com as dificuldades técnicas, de transporte e de encontrar os cavalos ideais, a diretora de serviços afirma que estes “são desafios que procuram superar paulatinamente”. “No final valem bastante a pena, pela felicidade e orgulho dos atletas e da equipa de trabalho”, afirma Joana.

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