Alterações climáticas e baixa rentabilidade ameaçam produção da maçã Bravo de Esmolfe

Por: Matilde Fernandes

A produção da maçã Bravo de Esmolfe, uma das maiores referências agrícolas de Penalva do Castelo e peça central da chamada “trilogia da excelência” ao lado do queijo Serra da Estrela e do vinho do Dão, vive um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Entre o peso crescente das alterações climáticas, a fraca rentabilidade para o agricultor e a falta de renovação geracional, tanto Francisco Carvalho, antigo presidente da Câmara de Penalva do Castelo e atual presidente da Assembleia Municipal, como Nuno Marques, produtor desde jovem e presidente de Junta da Freguesia de Esmolfe, deixam o mesmo aviso: se nada mudar, o futuro desta variedade DOP (Denominação de Origem Protegida) está seriamente comprometido.

Francisco Carvalho recorda que a Bravo de Esmolfe “tem o seu berço histórico em Esmolfe” e beneficia de um microclima único, marcado pelos vales e pelos rios que envolvem o concelho, o que favorece verões mais amenos e invernos menos rigorosos. Dessa combinação resulta uma maçã com “sabor mais adocicado, polpa macia e, muitas vezes, uma tonalidade rosada”, difícil de replicar noutros territórios, além de um aroma tão intenso que, em tempos, servia para perfumar as casas rurais, neutralizando os odores vindos das cortes de animais. É esse produto, símbolo da identidade local e motor da estratégia de promoção turística do concelho, que hoje se vê confrontado com uma conjuntura adversa.

No pomar, Nuno Marques traduz em números e gestos o que a teoria climática anuncia. Fiel à tradição passada pelo pai, garante que a apanha “nunca começa antes de 25 de setembro”: colher antes dessa data é “asneira”, porque a maçã não chega a desenvolver o sabor, o cheiro e a polpa macia que a distinguem. Apanhada cedo demais, a fruta fica rija, sem aroma é “quase como borracha”, afirma Marques. Este ano, apesar de ter havido muita maçã nas árvores, a produção ficou marcada por frutos pequenos e de calibre insuficiente, resultado de um verão “muito seco e prolongado”, com temperaturas a rondar os 42 e 43 graus, quando o ideal seriam 30 a 32 graus para permitir um crescimento equilibrado. Nessas condições, as árvores “param os crescimentos e vivem para elas próprias”, sacrificando o tamanho e a qualidade comercial. Como se não bastasse, a Bravo de Esmolfe é uma variedade de produção alternante, “ano sim, ano não”, o que faz com que a fraca colheita num ano que deveria ter sido “ano forte” represente uma oportunidade perdida que não voltará de imediato.

Perante este cenário, as alterações climáticas surgem como obstáculo maior e praticamente incontornável. Nuno Marques admite que “não há alternativas” e que se trata de “um problema que nos assola e não tem retorno”, embora sublinhe que o agricultor vive sempre na esperança de que “o ano a seguir seja melhor”. Francisco Carvalho concorda e acrescenta outro elemento estrutural: o interior continua, na sua visão, “esquecido” pelas políticas agrícolas. Defende que fertilizantes, fitofarmacêuticos e seguros devem ser ajustados à realidade do agricultor, com apoios na origem, para reduzir custos e garantir que, “o agricultor não vai para a cama preocupado” e “indemnizado integralmente” se perder a colheita. Sem esse tipo de proteção, insiste, não há forma de sustentar a produção num contexto de risco crescente.

No mercado, a Bravo de Esmolfe continua a ser um produto apreciado e procurado. A maior parte da produção nacional é absorvida pelo próprio país, embora exista algum escoamento para a Suíça, França, Alemanha e Bélgica, através de transportadores que abastecem as comunidades emigrantes. Porém, o verdadeiro problema está na diferença entre o que o consumidor paga e o que o produtor recebe. Nos supermercados, o quilo de Bravo de Esmolfe pode aproximar-se dos cinco euros, enquanto o agricultor recebe cerca de 60 cêntimos. “Não são 60, são 30”, clarifica Nuno Marques, lembrando que, como a árvore produz um ano sim e ano não, o rendimento real tem de ser dividido. Em comparação, a Golden “dá dinheiro muito mais rápido”, o que leva muitos produtores a substituírem os pomares tradicionais por variedades mais estáveis e menos trabalhosas, acelerando o abandono da maçã Bravo de Esmolfe.

Ainda assim, a variedade guarda traços únicos difíceis de igualar. Segundo Nuno Marques, trata-se de uma maçã especialmente rica em antioxidantes e cálcio, ao ponto de estar associada à doença de “peterpit”, ligada ao défice de cálcio, que obriga a um maior cuidado durante o ciclo produtivo, mas resulta num fruto com concentração muito elevada desse mineral. “Quando se dá uma trinca, fica logo castanha, oxida logo”, descreve, vendo nessa reação um reflexo da carga de antioxidantes. Estudos laboratoriais, refere, já apontam benefícios na saúde óssea e até em certas áreas de investigação oncológica. Francisco Carvalho reforça que estas propriedades, aliadas ao sabor e ao aroma único, fazem da Bravo de Esmolfe um produto de grande potencial para o consumo de qualidade e para a valorização turística do concelho, sobretudo quando integrada em roteiros que juntam a maçã, o queijo e o vinho.

Mas o maior desafio pode estar na sucessão. Nuno Marques, que participa em feiras, especialmente a feira ligada a esta maçã, Feira Bravo de Esmolfe, e procura envolver a comunidade, diz ter apelado várias vezes aos jovens para que abracem a produção, nem que seja como complemento a outra profissão. Apesar disso, reconhece que “não tem surtido efeito” e que “cada vez há menos produtores”, travados pelos custos de mão de obra, pelo esforço exigido e pela fraca rentabilidade. Francisco Carvalho partilha a preocupação, lembrando que muitas das novas gerações rumam ao ensino superior e não regressam, porque a agricultura deixou de ser uma opção viável, mantendo-se os pomares sobretudo por tradição, e não como aposta económica estruturada.

Face a tudo isto, o antigo presidente da Câmara defende que a resposta tem de ser articulada: passa por reforçar as feiras e a promoção dos produtos endógenos, criar condições de armazenamento em câmaras frigoríficas no próprio concelho para prolongar a disponibilidade da maçã ao longo do ano, subsidiar parte dos custos de produção e assegurar seguros de colheita. Acredita que, se o município e o Estado conseguirem criar um ambiente favorável e garantir que quem produz não trabalha “à sua conta e risco”, a Bravo de Esmolfe continuará a ser um cartão de visita do concelho e uma fonte de rendimento relevante, sobretudo ligada ao turismo.

Entre o realismo duro do produtor e a visão estratégica do autarca, o retrato converge: a Bravo de Esmolfe, que colocou Penalva do Castelo no mapa agrícola e turístico, atravessa um momento decisivo. Entre clima extremo, custos elevados, rendimentos reduzidos e falta de sucessores, a continuidade da variedade está em causa. Mas ambos deixam uma ideia-chave: se for devidamente apoiada, valorizada e modernizada, esta maçã poderá continuar a perfumar pomares, mercados e casas de Penalva por muitas mais gerações; se nada for feito, arrisca-se a tornar-se apenas memória de um tempo em que o concelho se reconhecia no sabor intenso de uma fruta pequena e única.


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