«Desculpa, Avó, a PIDE voltou!» e não vejo forma de ela ir embora…

Há momentos em que o silêncio não deve, nem pode, ser uma opção. Ainda mais quando conseguimos comparar um passado desastroso e impiedoso, vivido pelos nossos pais e avós, com a realidade atual de um povo que deveria ter acesso, pelo menos, ao que é básico, mas que nem isso consegue garantir.

Por: Mariana Silva

A questão que se impõe é: como é possível que, décadas depois do fim de uma ditadura, as pessoas continuem a ter de lutar por direitos e condições de vida dignas? Lutar por aquilo que gerações anteriores também tiveram de conquistar, para que, anos mais tarde, alguém pareça esquecer o valor dessas mesmas conquistas. Afinal, de que serve aprender com a História se continuamos a correr o risco de a repetir?

Eu, enquanto jovem e fazendo parte daqueles a quem tanto gostam de chamar «o futuro do país», infelizmente, já não consigo imaginar um futuro num país onde aqueles que ocupam cargos políticos nos chamam «egocêntricos» por lutarmos por algo que, na realidade, deveria ser um direito nosso. Afinal, como podemos ser considerados o futuro se, quando tentamos lutar por ele, somos criticados por quem deveria contribuir para o construir?

Ir para as ruas, protestar e dar voz a quem merece ser ouvido não deveria ser visto como «egoísmo». Manifestar-se é um direito de todos, um direito da democracia. É uma forma de participação cívica que permite aos cidadãos expressar o seu descontentamento, contestar decisões e exigir mudanças. No entanto, para alguns dos nossos representantes, aquilo que o povo está a fazer transmite «uma ideia de um país que parece que está em turbulência, não está».

Mas como é possível afirmar que o país não está em turbulência quando a renda média de um T1 na capital ronda os 1188 euros, quando o combustível ultrapassa os dois euros por litro e quando o salário mínimo não chega para assegurar as necessidades básicas de uma família, quanto mais para conseguir poupar e construir um futuro melhor? Perante estas dificuldades, e tantas outras que marcam a realidade portuguesa, como podemos esperar que as pessoas permaneçam em silêncio?

E é neste cenário que nos dizem constantemente: «E que tal imaginares um futuro?» Mas que futuro posso eu imaginar neste país? Num país onde a voz do povo parece não ser ouvida e onde, em vez de procurarem escutar-nos, tantas vezes nos tentam silenciar. Em que momento poderei construir a minha família, ter um emprego estável que não me pague uma miséria, comprar um carro ou uma casa sem começar a vida endividada? Quando poderei simplesmente viver com a tranquilidade de quem não tem de lutar constantemente pelo básico? E como poderei acreditar num futuro onde a liberdade de expressão parece ter limites impostos por quem não aceita ser contestado e onde os jovens são reduzidos a «preguiçosos»?

É precisamente por estes motivos, e tantos outros, que as manifestações são necessárias. Não podem ser consideradas desordem quando a única coisa que o povo quer é aquilo que é seu: lutar por um futuro que nós próprios consigamos e que queremos construir. Manifestar não é criar problemas, é mostrar que existem problemas que não podem continuar a ser ignorados. E não, as forças de segurança não podem ser consideradas «respeitosas» quando aquilo que fazem é atacar mal se sentem atacadas, agredir sem serem desrespeitadas ou agredidas. O respeito não pode ser exigido apenas a quem sai à rua para lutar pelos seus direitos, também deve ser exigido a todos aqueles que defendem Portugal e nos representam.

Custa-me acreditar que, décadas depois, ainda tenhamos de lutar por direitos que tantos sacrificaram para conquistar. Que a liberdade, pela qual tantos perderam tanto, possa voltar a parecer uma ameaça aos olhos de quem nos governa. Não quero acreditar que estamos condenados a repetir a História, mas também não quero esperar que seja tarde demais para percebermos o que estamos a perder. Porque a ditadura não foi apenas um capítulo que nos ensinaram na escola: foi uma realidade vivida por pessoas que amamos, que tiveram medo, que foram silenciadas e que lutaram para que hoje pudéssemos ter voz. E é por elas, por nós e por aqueles que ainda virão que não podemos aceitar que a liberdade se transforme numa memória distante. “Desculpa, Avó, a PIDE voltou!” E o que mais me assusta não é dizê-lo, mas sentir que, afinal, talvez ela nunca tenha ido embora.

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