{"id":9788,"date":"2020-07-08T15:20:25","date_gmt":"2020-07-08T15:20:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=9788"},"modified":"2020-07-08T15:20:28","modified_gmt":"2020-07-08T15:20:28","slug":"25-anos-depois-as-gravuras-nao-sabem-nadar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=9788","title":{"rendered":"25 anos depois &#8220;as gravuras n\u00e3o sabem nadar&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Conhecida como a mais antiga mem\u00f3ria gr\u00e1fica da humanidade, a arte rupestre est\u00e1 presente em cerca de 1200 rochas espalhadas por mais de 80 s\u00edtios ao longo do Vale do C\u00f4a. Apoiadas por um punhado de arque\u00f3logos e milhares de estudantes que levaram a avante o <em>slogan<\/em> \u201c<em>As gravuras n\u00e3o sabem nadar!\u201d,<\/em> estas manifesta\u00e7\u00f5es de arte que fizeram parar um pa\u00eds inteiro e levaram \u00e0 suspens\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de uma barragem, hoje s\u00e3o Patrim\u00f3nio Mundial e celebram 25 anos de luta pela sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Ana Catarina Correia <\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" width=\"425\" height=\"280\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Imagem1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-9789\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Imagem1.png 425w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Imagem1-300x198.png 300w\" sizes=\"(max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><figcaption>Museu do C\u00f4a<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em 1991 foram encontrados os primeiros n\u00facleos de arte rupestre. No entanto, s\u00f3 em 1994 \u00e9 que estes achados se tornam p\u00fablicos \u201cpor interm\u00e9dio do arque\u00f3logo Nelson Rebanda que chamou ao local alguns colegas e informou-os sobre a import\u00e2ncia das descobertas\u201d, esclarece Jos\u00e9 Ribeiro, professor e presidente do conselho diretivo da Escola Secund\u00e1ria de Vila Nova de Foz C\u00f4a em 1995. Em janeiro do mesmo ano, Jos\u00e9 Ribeiro levou a escola a tomar uma posi\u00e7\u00e3o e a dar origem ao <em>Movimento Internacional Para a Preserva\u00e7\u00e3o das Gravuras Rupestres do Vale do C\u00f4a<\/em>, admitindo que \u201cinicialmente a esperan\u00e7a era pouca. Era a primeira vez na hist\u00f3ria das na\u00e7\u00f5es que uma obra enorme como uma barragem seria abandonada e preterida pela preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No seguimento do movimento que levou a avante o <em>slogan<\/em> <em>\u201cAs gravuras n\u00e3o sabem nadar!\u201d,<\/em> inspirado numa m\u00fasica da banda Black Company, surgiram diversas atividades com o objetivo de dar a conhecer o valor das descobertas. Entre confer\u00eancias, debates televisivos, desloca\u00e7\u00f5es \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica, recolha de assinaturas em todas as escolas do pa\u00eds e muito mais, deu-se a conhecer a terra que viria a fazer parar a constru\u00e7\u00e3o de uma barragem. \u201cFoz C\u00f4a era uma terra desconhecida para a esmagadora maioria dos portugueses e, de repente, o patrim\u00f3nio do C\u00f4a era not\u00edcia no New York Times\u201d, diz Dalila Correia, arque\u00f3loga do Museu do C\u00f4a, lembrando a luta na qual participou ativamente enquanto estudante do 12\u00ba ano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma vit\u00f3ria para a Cultura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A 20 de fevereiro de 1995, os estudantes liceais recebem a visita do ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, M\u00e1rio Soares. \u201cO Presidente foi recebido por n\u00f3s, estudantes, a cantar em grande coro <em>As gravuras n\u00e3o sabem nadar.<\/em> A resposta dele pr\u00f3prio foi \u201cE n\u00e3o sabem\u201d e isso foi o refor\u00e7o numa esperan\u00e7a que, no m\u00eas de outubro, com a vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es legislativas pelo governo liderado pelo engenheiro Ant\u00f3nio Guterres, se viu alcan\u00e7ada. Finalmente o C\u00f4a e a arte paleol\u00edtica estavam a salvo\u201d, conta a arque\u00f3loga que sentiu a arte rupestre mudar a sua forma de pensar e projetar o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o pedido para o abandono da constru\u00e7\u00e3o da barragem tivesse surgido em janeiro de 1995 por parte do Instituto Portugu\u00eas do Patrim\u00f3nio Arquitet\u00f3nico e Arqueol\u00f3gico, a suspens\u00e3o da obra apenas acontece em 1996, quando Ant\u00f3nio Guterres vence as elei\u00e7\u00f5es legislativas. Considerando a opini\u00e3o dos especialistas e arque\u00f3logos acerca da import\u00e2ncia art\u00edstica e cient\u00edfica das rochas descobertas no C\u00f4a, e contrariando quem afirmava ser poss\u00edvel manter a barragem ao mesmo tempo que se salvavam as gravuras, o governo de Guterres, com Manuel Maria Carrilho no papel de ministro da Cultura, ordena o abandono da obra. No mesmo ano nasce o Parque Arqueol\u00f3gico do Vale do C\u00f4a (PAVC), que \u201ctinha por fun\u00e7\u00e3o gerir, proteger, musealizar e organizar para visita p\u00fablica os monumentos inclu\u00eddos na sua zona especial de prote\u00e7\u00e3o, tornando-se no primeiro, e at\u00e9 ao momento \u00fanico, parque arqueol\u00f3gico portugu\u00eas\u201d, como explica Jo\u00e3o Paulo Sousa, vereador da C\u00e2mara Municipal de Vila Nova de Foz C\u00f4a.<\/p>\n\n\n\n<p>No seguimento do que j\u00e1 havia sido conquistado pelo governo de Ant\u00f3nio Guterres, chega, no dia 2 de dezembro de 1998, o reconhecimento da import\u00e2ncia cultural das gravuras rupestres pelo Comit\u00e9 do Patrim\u00f3nio Mundial da UNESCO que as integra na \u201clista de s\u00edtios classificados como patrim\u00f3nio da humanidade num dos processos mais r\u00e1pidos de classifica\u00e7\u00e3o por parte daquela institui\u00e7\u00e3o\u201d, refere ainda o vereador. Este reconhecimento surge como mais uma vit\u00f3ria para o estatuto da Arqueologia, do Patrim\u00f3nio Cultural e da Arte que a UNESCO acabou a classificar como sendo \u201cuma ilustra\u00e7\u00e3o excecional do desenvolvimento repentino do g\u00e9nio criador, na alvorada do desenvolvimento cultural humano\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no ano de 1998 surge a promessa de um museu que j\u00e1 era pensado desde a pol\u00e9mica de 1995, mas que apenas come\u00e7aria a ser constru\u00eddo em 2007. Inicialmente projetado pelo primeiro diretor do Parque Arqueol\u00f3gico do Vale do C\u00f4a, o arquiteto Fernando Maia Pinto, para que se constru\u00edsse no pr\u00f3prio rasg\u00e3o feito pela barragem. Mais tarde, a obra passou para as m\u00e3os de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, uma equipa de arquitetos da cidade do Porto. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Museu do C\u00f4a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aliado ao parque de 200 quil\u00f3metros quadrados que exibem o Vale do C\u00f4a, est\u00e1 o Museu do C\u00f4a que completa, a 30 de julho, uma d\u00e9cada ao servi\u00e7o da cultura e \u00e9 candidato ao pr\u00e9mio de melhor museu do ano pela Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Museologia. O espa\u00e7o sofreu entretanto uma atualiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, reinventando-se e adaptando as pinturas rupestres ao s\u00e9culo XXI, com o acrescento de realidade virtual e intera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de tablets. Jo\u00e3o Paulo Sousa admite que esta candidatura por parte do museu j\u00e1 causa impacto na regi\u00e3o. \u201cA candidatura ao pr\u00e9mio de melhor museu j\u00e1 est\u00e1 neste momento a possibilitar maior visibilidade, maior n\u00famero de visitantes e consequentemente com o pr\u00e9mio ganho aumenta exponencialmente a vertente econ\u00f3mico-tur\u00edstico do concelho.\u201d O vereador refere ainda que este poder\u00e1 vir a ser \u201cmais um contributo precioso para a (nossa) pretens\u00e3o: Foz C\u00f4a, capital cultural do Interior\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristina Rebelo exerce a fun\u00e7\u00e3o de guia desde 1997, inicialmente pelo PAVC e, atualmente, pela Funda\u00e7\u00e3o C\u00f4a Parque, criada em 2011 para gerir o Parque Arqueol\u00f3gico, o Museu, e para assegurar a salvaguarda, conserva\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da arte rupestre do Vale do C\u00f4a. A guia acredita que \u201cpassados quase 24 anos desde a cria\u00e7\u00e3o do PAVC, 10 anos ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o do Museu e contando as mais de 725.000 pessoas que j\u00e1 visitaram o C\u00f4a, j\u00e1 existem argumentos mais que suficientes para se ter conquistado o cora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o\u201d e encarar o museu como uma grande vit\u00f3ria tanto para os fozcoenses, como para a Cultura e para a Arqueologia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Museu do C\u00f4a, j\u00e1 com v\u00e1rios pr\u00e9mios arrecadados, foi pensado ao pormenor, desde a sua perfeita integra\u00e7\u00e3o na paisagem at\u00e9 aos bancos do seu interior, que \u201cforam concebidos para representar o relevo das montanhas onde a obra assenta celebrando o encontro dos dois patrim\u00f3nios mundiais da regi\u00e3o: a arte rupestre e a paisagem do Douro Vinhateiro\u201d, como afirma Karina Soares, guia de arte rupestre desde 2009 pela <em>DouroTotal<\/em>, uma empresa parceira do Museu. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cH\u00e1 tr\u00eas n\u00facleos de arte rupestre abertos ao p\u00fablico. A Canada do Inferno, a Penascosa e a Ribeira de Piscos. E \u00e9 aqui que est\u00e1 presente o verdadeiro museu, ao ar livre, e que nos leva a afirmar que o Museu do C\u00f4a n\u00e3o substitui, de todo, a visita aos n\u00facleos. O Museu serve como complemento, como um portal que abre as portas do mundo da arte do paleol\u00edtico aos visitantes\u201d.<\/p><cite>Karina Soares, guia da DouroTotal<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cA Arte Rupestre do Vale do C\u00f4a \u00e9 o mist\u00e9rio que representa a ess\u00eancia da Humanidade e que em si encerra os enigmas de uma exist\u00eancia grandiosa pelo tempo esquecida, mas n\u00e3o apagada\u201d. \u00c9 assim que Ricardo Periquito descreve a arte do C\u00f4a. Formado em Artes Pl\u00e1sticas e com um percurso acad\u00e9mico assente numa forte componente em Hist\u00f3ria de Arte, na qual abordou a arte da qual \u00e9 agora guia, Ricardo Periquito \u00e9, assim como Karina Soares, um dos parceiros do Museu do C\u00f4a, representando a empresa <em>O Transmontano Errante. <\/em>O guia v\u00ea na Arte do C\u00f4a \u201cum <em>ex-libris <\/em>da regi\u00e3o e de Portugal. N\u00e3o apenas pelo impacto que esta descoberta teve a n\u00edvel mundial, por ser o maior s\u00edtio com a maior colec\u00e7\u00e3o de Arte do Paleol\u00edtico Superior a c\u00e9u aberto em todo o Mundo, mas tamb\u00e9m por tudo que ainda est\u00e1 por descobrir e estudar e por todo o impacto que continuar\u00e1 a ter durante gera\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecida como a mais antiga mem\u00f3ria gr\u00e1fica da humanidade, a arte rupestre est\u00e1 presente em cerca de 1200 rochas espalhadas<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":9789,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[462,11],"tags":[2809,2807,254,2808,199],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9788"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9788"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9788\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9790,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9788\/revisions\/9790"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9788"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9788"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}