{"id":9670,"date":"2020-06-22T11:42:33","date_gmt":"2020-06-22T11:42:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=9670"},"modified":"2020-06-22T11:42:37","modified_gmt":"2020-06-22T11:42:37","slug":"os-preconceitos-sao-os-mesmos-mas-com-a-visibilidade-nas-redes-sociais-da-a-impressao-que-sao-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=9670","title":{"rendered":"&#8220;Os preconceitos s\u00e3o os mesmos, mas com a visibilidade nas redes sociais d\u00e1 a impress\u00e3o que s\u00e3o mais&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>Professora de ingl\u00eas e a terminar o doutoramento, ser\u00e1 que ainda importa referir que \u00e9 de etnia cigana? Maria Miguel fala sobre o que \u00e9 crescer nesta cultura, dos preconceitos e do impacto que os mesmos t\u00eam na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Raquel Guerra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode descrever o que \u00e9 a cultura\ncigana? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em poucas palavras \u00e9 uma cultura, a meu ver e de quem est\u00e1 de dentro, bonita, alegre e de uni\u00e3o familiar. Principalmente a alegria, \u00e9 das melhores partes da cultura, porque \u00e0s vezes o mundo l\u00e1 fora pode estar um caos, mas h\u00e1 sempre aqueles dias de festa, em que nos esquecemos que h\u00e1 problemas.<\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na \u00e9poca da escola era mais conhecida\npela etnia ou pelo Renault 4L cor de rosa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>[Risos] At\u00e9 uma certa idade a refer\u00eancia era a etnia, e quando tive a possibilidade de conduzir sim, foi pela 4L cor de rosa. Todos sabiam que eu estava na escola.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nasceu numa fam\u00edlia com ra\u00edzes\nciganas, mas hoje em dia n\u00e3o vive de acordo com todas as normas dessa cultura.\nQuando \u00e9 que percebeu que n\u00e3o queria viver de acordo com essas tradi\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu nasci dentro da cultura cigana, mas talvez durante a minha adolesc\u00eancia apercebi-me de que n\u00e3o queria reger-me pelas tradi\u00e7\u00f5es. \u00c9 quase um 50-50, eu tenho a parte do meu pai que tem essas ra\u00edzes ciganas e a minha m\u00e3e que n\u00e3o tem qualquer liga\u00e7\u00e3o. O meu pai sempre demonstrou \u00e0s filhas o que era o bom da cultura cigana, mas fomos percebendo, \u00e0 medida que fomos crescendo, aquilo que quer\u00edamos. Tanto eu como as minhas irm\u00e3s apercebemo-nos daquilo que \u00e9ramos e acab\u00e1mos por tentar viver o melhor de dois mundos. Quase como disfrutar de tudo aquilo que era bom, mas tamb\u00e9m viver de outra forma e n\u00e3o abra\u00e7ar inteiramente tudo o que eram os costumes, visto que os nossos pais nos deram essa possibilidade. Nunca uma das formas de viver nos foi imposta, tivemos sempre liberdade nesse aspeto. Viver de acordo com a cultura cigana \u00e9 ter algumas restri\u00e7\u00f5es, que para mim, para a minha pessoa e para aquilo que eu j\u00e1 estava a querer ser, n\u00e3o faziam sentido. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sendo a cultura cigana t\u00e3o enraizada, como foi o processo de se afastar dos costumes e das tradi\u00e7\u00f5es ciganas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim \u00e9 uma cultura bastante enraizada, como qualquer cultura minorit\u00e1ria, em que h\u00e1 aquele sentimento de perten\u00e7a e de manter intacto quase que um legado. Eu nunca me vi obrigada a afastar-me dos costumes e das tradi\u00e7\u00f5es, porque nem sequer me foram impostos. Eu conseguia viver e conviver com a maior parte dos costumes e deixar de parte aqueles que n\u00e3o me agradavam. Nunca foi um processo de afastamento de forma negativa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em que sentido \u00e9 que o apoio da\nfam\u00edlia foi importante? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre foi incondicional e baseado na liberdade, era muito no sentido do \u201cvoc\u00eas t\u00eam um pensamento independente, t\u00eam de fazer o que acham que \u00e9 correto\u201d, era o que os nosso pais nos ensinavam. O meu pai tem realmente pessoas na fam\u00edlia que, como se diz, s\u00e3o de \u201cpura etnia cigana\u201d (de pai e m\u00e3e ciganos). De certa forma n\u00f3s pod\u00edamos pensar que seria inc\u00f3modo para o meu pai n\u00e3o optarmos por ter essas viv\u00eancias, mas acabou por n\u00e3o ser assim.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que perspetiva de vida tenta passar\n\u00e0s suas sobrinhas e futuramente aos filhos? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo aquilo que os meus pais tamb\u00e9m me passaram, tanto a mim como \u00e0s minhas irm\u00e3s. Primeiramente, vou-lhes dar essa possibilidade de escolha, vou-lhes mostrar o que \u00e9 a comunidade cigana e que n\u00e3o \u00e9 aquilo que \u00e0s vezes demonstram. Os meus filhos v\u00e3o ter as mesmas possibilidades de escolha que eu tive. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conforme foi crescendo como \u00e9 que era imaginado o futuro,\nquais eram as ambi\u00e7\u00f5es, sonhos e objetivos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu tive fases, principalmente na adolesc\u00eancia, \u00e0s vezes imaginava como \u00e9 que seria se casasse com uma pessoa de cultura cigana\u2026 era engra\u00e7ado porque t\u00ednhamos as festas v\u00edamos as pessoas e acab\u00e1vamos por ter aquelas paixonetas da \u00e9poca, e eu pensava como \u00e9 que seria\u2026. Ser\u00e1 que se eu casasse com uma pessoa cigana tenho de ter filhos, viver para o meu marido e para a feira\u2026 Estas quest\u00f5es sempre foram crescendo comigo, mas num dado momento percebi o que queria e ent\u00e3o foram nascendo as ambi\u00e7\u00f5es e os sonhos, em que viver inteiramente na etnia cigana n\u00e3o fazia parte dos planos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sei que pretende casar-se em breve, vai ser um dia planeado\ntendo em conta as tradi\u00e7\u00f5es ciganas ou n\u00e3o? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>[Risos] toda a gente pergunta isso, porque os casamentos ciganos s\u00e3o conhecidos pelas grandes festas de no m\u00ednimo tr\u00eas dias. Mas n\u00e3o, ser\u00e1 algo mais simples.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O meu namorado n\u00e3o pertence \u00e0 etnia cigana e as tradi\u00e7\u00f5es ciganas em rela\u00e7\u00e3o ao casamento t\u00eam certos pormenores que s\u00f3 podem acontecer se ambos os noivos forem ciganos. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Numa publica\u00e7\u00e3o do <em>Facebook<\/em> escreveu que \u201cA educa\u00e7\u00e3o\ntem ra\u00edzes amargas, mas os seus frutos s\u00e3o doces\u201d o que \u00e9 isso significa para\nsi?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Significa muito, diz muito de mim, da minha pr\u00f3pria vida e diz muito da minha cultura. Esta frase est\u00e1 muito relacionada com o esp\u00edrito de sacrif\u00edcio. A parte das ra\u00edzes amargas, \u00e9 a quest\u00e3o de termos de fazer sacrif\u00edcio de ter de lutar pelas coisas, para mais tarde usufruir o bom que eles podem dar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se disser que \u00e9 a \u201cMaria, professora de ingl\u00eas\u201d ou a \u201cMaria\nque tem ra\u00edzes ciganas\u201d, a maneira como as pessoas a tratam muda?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente ainda muda\u2026 \u00e0s vezes parece que n\u00e3o faz sentido estar a falar sobre isto e falar do preconceito, do racismo&#8230; Mas ainda faz muito sentido estas quest\u00f5es serem faladas, quem est\u00e1 deste lado percebe que \u00e0 medida que vais crescendo as pessoas n\u00e3o esperam mais de ti, ent\u00e3o tu tens a necessidade de provar mais que os outros.&nbsp; Eu n\u00e3o tenho problemas em assumir que uma parte de mim \u00e9 cigana, mas na primeira intera\u00e7\u00e3o com as pessoas, se disser \u00e0 priori que sou cigana nota-se o preconceito.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 lidar com as crian\u00e7as? Elas espelham o mesmo\npreconceito que est\u00e1 presente na sociedade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, as crian\u00e7as s\u00e3o o espelho daquilo que lhes \u00e9 dito e lhes \u00e9 incutido em casa. Adoro lecionar, mas elas apenas se apercebem quando s\u00e3o chamadas \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, porque em determinadas situa\u00e7\u00f5es o preconceito e esse subestimar a etnia nota-se. Depois desculpam-se pelo que disseram, os mais crescidos, porque os mais novos s\u00e3o o espelho do que se passa em casa, ent\u00e3o se o tentar corrigir eles v\u00e3o dizer na mesma.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sente que a sociedade apenas se foca em ter uma perspetiva\nnegativa da comunidade cigana?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o posso dar uma vis\u00e3o completamente negativa das coisas, porque na verdade tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim. Temos uma parte da sociedade que j\u00e1 tem uma vis\u00e3o mais positiva da comunidade cigana, mas ainda h\u00e1 outro tanto a pensar que os ciganos s\u00e3o os que vivem do rendimento, os que fazem asneiras, os que roubam\u2026 at\u00e9 porque, hoje em dia, temos pol\u00edticos que fazem este tipo de propaganda infeliz.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os preconceitos para com a comunidade cigana s\u00e3o cada vez\nmais ou cada vez menos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acabam por ser os mesmos preconceitos, mas como t\u00eam mais visibilidade nas redes sociais d\u00e1 a impress\u00e3o que s\u00e3o mais. E o tipo de preconceito, atitudes preconceituosas e racistas est\u00e3o a ser cada vez mais filmados e com uma proje\u00e7\u00e3o diferente que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o acontecia, o que leva a que tenham um impacto maior.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que pensa de termos deputados que criticam publicamente a comunidade cigana?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que se t\u00eam uma voz e um impacto nacional, deviam fazer jus \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es e ajudar a educar civicamente as pessoas e n\u00e3o incitar a pensar em ideias que n\u00e3o s\u00e3o concretas. Basta uma pessoa que tenha import\u00e2ncia medi\u00e1tica centrar-se em apenas um acontecimento negativo, para levar toda a gente a pensar de forma negativa tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que impacto \u00e9 que estas opini\u00f5es podem ter na opini\u00e3o\np\u00fablica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um impacto brutal porque \u00e9 visto pela sociedade como uma figura de autoridade e a sua maneira de pensar afeta diretamente a maneira de pensar das pessoas. Quer seja no bom ou no mau sentido\u2026 Mas isso j\u00e1 depende de pol\u00edtico para pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel que as personalidades de etnia cigana t\u00eam na\ndesmitifica\u00e7\u00e3o dos preconceitos que existem na sociedade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 visibilidade que t\u00eam, assumem um papel importante, porque conseguem demonstrar que o cigano, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o cigano que casa cedo e tem n\u00e3o sei quantos filhos, mas \u00e9 o cigano que \u00e9 estilista, advogado, professor, jogador de futebol. Estas personalidades, independentemente da fama, ajudam a construir um pensamento mais positivo ou menos preconceituoso das pessoas que pertencem \u00e0 comunidade cigana.&nbsp; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora de ingl\u00eas e a terminar o doutoramento, ser\u00e1 que ainda importa referir que \u00e9 de etnia cigana? Maria Miguel<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":9671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[2772,1321],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9670"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9670"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9755,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9670\/revisions\/9755"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}