{"id":8872,"date":"2020-02-14T09:33:59","date_gmt":"2020-02-14T09:33:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=8872"},"modified":"2020-02-14T09:34:11","modified_gmt":"2020-02-14T09:34:11","slug":"meio-seculo-nao-apaga-as-marcas-da-guerra-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=8872","title":{"rendered":"Meio s\u00e9culo n\u00e3o apaga as marcas da Guerra Colonial"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>A Guerra Colonial ter\u00e1 sido a face mais dura e sangrenta do regime ditatorial que durante 40 anos governou Portugal. Perpetrada em tr\u00eas das col\u00f3nias portuguesas, Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9-Bissau, em resposta aos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia destes povos, ceifou vidas, devastou fam\u00edlias e deixou profundas marcas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas em todos aqueles que com ela se cruzaram.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Ana Rita Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas de 60 e in\u00edcio de 70 do s\u00e9culo XX, as alternativas para os jovens do sexo masculino que atingiam a maioridade eram apenas duas. Cumprir a recruta militar e ser enviado para \u00c1frica, para combater por uma causa que desconheciam, numa guerra para a qual n\u00e3o tinham sido preparados. Ou deixar tudo para tr\u00e1s, e fugir, ilegalmente, do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Lopes e Jorge Figueiredo, amigos desde os tempos de escola na cidade de Viseu, escolheram caminhos opostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo seguiu o percurso que o Estado\nNovo delineou para si, tendo sido um dos 30 mil combatentes que regressou de\n\u00c1frica com les\u00f5es permanentes, entre os cerca de um milh\u00e3o que participaram no\nconflito armado. \u201c<em>Estive em Angola apenas tr\u00eas meses.<\/em> <em>A explos\u00e3o de\numa mina terrestre levou-me a perna esquerda e provocou-me les\u00f5es menores no\nresto do corpo\u201d, <\/em>lamenta-se o antigo combatente<em>.<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p>Aos 22 anos, as perspetivas para Ricardo n\u00e3o eram as mais animadoras. Sem estudos, com uma perna amputada e sem qualquer experi\u00eancia profissional, as oportunidades de trabalho eram escassas. \u00c0s dificuldades f\u00edsicas, somavam-se as consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas: \u201c<em>Revivi a explos\u00e3o daquela mina centenas de vezes. Acordado ou a sonhar, os tremores, suores e ansiedade davam-me todos os dias<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"511\" height=\"437\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Sempreatentos...aoperigo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8874\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Sempreatentos...aoperigo.jpg 511w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Sempreatentos...aoperigo-300x257.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 511px) 100vw, 511px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>As marcas psicol\u00f3gicas da Guerra\nColonial acabariam por ser ainda mais dram\u00e1ticas do que as f\u00edsicas. Se os dados\ndo Estado-Maior General das For\u00e7as Armadas (EMGFA) apontam para nove mil mortos\ne 30 mil feridos graves, o n\u00famero de antigos combatentes com stress p\u00f3s-traum\u00e1tico\nde guerra superar\u00e1 os 140 mil. Os relatos impressionam: priva\u00e7\u00e3o de sono,\nataques de ansiedade, dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o e \u00edmpetos de viol\u00eancia.\nConsequ\u00eancias com as quais o Estado n\u00e3o soube lidar, demasiado focado no\ntratamento das mazelas f\u00edsicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de transversais, os traumas\nassociados \u00e0 Guerra s\u00e3o diversos. Se muitos, como Ricardo, revivem o medo que\nsentiram da morte, outros sucumbem perante a mem\u00f3ria dos colegas e amigos que\nperderam as vidas nos seus bra\u00e7os. H\u00e1 ainda um terceiro grupo, porventura o\nmais gravoso, que inclui todos aqueles que experimentaram a sensa\u00e7\u00e3o de tirar a\nvida a outro ser humano. Em entrevista ao P\u00fablico, Afonso Albuquerque,\npsiquiatra pioneiro no tratamento do stress p\u00f3s-traum\u00e1tico de guerra, explica\nque estes jovens \u201c<em>partiram para a guerra como her\u00f3is e regressaram, j\u00e1\ndepois do 25 de Abril, como assassinos<\/em>\u201d. A insuficiente prepara\u00e7\u00e3o\npsicol\u00f3gica e a desconstru\u00e7\u00e3o dos mitos da propaganda salazarista, ap\u00f3s a\nRevolu\u00e7\u00e3o, tornaram a realidade das atrocidades cometidas em \u00c1frica demasiado dif\u00edcil\nde lidar para muitos dos antigos combatentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Figueiredo, opositor do regime de\ninspira\u00e7\u00e3o fascista, recusou bater-se por uma causa com a qual n\u00e3o concordava.\n\u201c<em>Sempre defendi o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. N\u00e3o suportava a\nideia de arriscar a minha vida, a dos meus pares e, sobretudo, daqueles cujos\nideais eu subscrevia, para servir apenas os intentos de um ditador<\/em>\u201d,\nexplica.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidiu, por isso, partir. Em 1972, com 19 anos, abandonou a casa, a fam\u00edlia e o pa\u00eds, e desertou sozinho rumo a Fran\u00e7a. Sem documenta\u00e7\u00e3o, contactos ou qualquer apoio, procurou trabalho em Fran\u00e7a, na Alemanha e no Luxemburgo, onde finalmente conseguiria fixar-se. \u201c<em>Foi muito complicado para mim na altura sair do pa\u00eds sozinho e deixar tudo para tr\u00e1s, sem ter certezas do que me esperava l\u00e1 fora<\/em>\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"617\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/800px-PAIGC_posto_de_controlo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8873\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/800px-PAIGC_posto_de_controlo.jpg 800w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/800px-PAIGC_posto_de_controlo-300x231.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/800px-PAIGC_posto_de_controlo-768x592.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foi pelos jornais que tomou conhecimento\nda queda do Estado Novo, em 1974. Sabia, contudo, que essa revolu\u00e7\u00e3o tinha sido\nexecutada pelos mesmos militares a que recusara juntar-se para a Guerra\nColonial. Regressar ao pa\u00eds poderia representar a sua pris\u00e3o, pelo que foi\nadiando sucessivamente esse retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00ea-lo apenas em 1982, exatamente dez\nanos depois do ex\u00edlio. Receoso, conseguiu regularizar a sua situa\u00e7\u00e3o militar e\nevitar a pris\u00e3o atrav\u00e9s do pagamento das taxas de servi\u00e7o militar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se livrou, contudo, do estigma moral de refrat\u00e1rio. No total, entre desertores, aqueles que fugiram entre a recruta e o embarque para \u00c1frica, refrat\u00e1rios, que se exilaram ap\u00f3s a inspe\u00e7\u00e3o, e os faltosos, que nem compareceram \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o, estima-se que o pa\u00eds tenha visto partir 240 mil jovens entre 1961 e 1974. Miguel Cardina, historiador especializado no estudo da Guerra Colonial, defende que o pa\u00eds ainda n\u00e3o perdoou estes homens. Em entrevista \u00e0 Radio Renascen\u00e7a, o historiador considera que \u201c<em>se, por um lado, eles est\u00e3o do lado certo da Hist\u00f3ria porque recusaram a guerra, por outro lado, ao terem sa\u00eddo da institui\u00e7\u00e3o militar, acabaram por n\u00e3o participar nesse processo de mudan\u00e7a pol\u00edtica<\/em>\u201d. O tema mant\u00e9m-se como tabu, face ao julgamento moral, lesivo e amargo, \u201c<em>associado ao bin\u00f3mio coragem\/cobardia<\/em>\u201d, conclui Miguel Cardina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcas da guerra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os antigos combatentes t\u00eam entre\n65 e 75 anos. O Estatuto do Antigo Combatente, que poderia garantir o aumento\ndas pens\u00f5es de reforma e de invalidez, mant\u00e9m-se por aprovar. Ricardo Lopes\nlamenta a indiferen\u00e7a do Estado face aos antigos combatentes. Depois de alguns\nanos a realizar pequenos biscates como canalizador e de submeter in\u00fameros\nrequerimentos, conseguiu finalmente a reforma e uma pens\u00e3o adicional pela\nincapacidade f\u00edsica. \u201c<em>Insuficientes para compensar os rendimentos de que\ntive de abdicar pela defici\u00eancia f\u00edsica. E, sobretudo, insuficientes para\nalgu\u00e9m que arriscou a vida pelo pa\u00eds\u201d,<\/em> aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas da guerra, essas, permanecem bem vis\u00edveis. Para l\u00e1 da les\u00e3o f\u00edsica, a medica\u00e7\u00e3o bidi\u00e1ria para a ansiedade n\u00e3o lhe permite esquecer o que passou. \u201c<em>Antes isso do que os pesadelos que me atormentavam at\u00e9 come\u00e7ar a ser seguido clinicamente\u201d, <\/em>afirma o antigo combatente. Ricardo \u00e9 um dos 500 utentes da Associa\u00e7\u00e3o de Apoio aos ex-Combatentes V\u00edtimas do Stress de Guerra (Apoiar), fundada em 1994 com o intuito de apoiar ex-combatentes com stress p\u00f3s-traum\u00e1tico, bem como os seus familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Figueiredo n\u00e3o esteve em \u00c1frica,\nmas recorda com amargo a pior d\u00e9cada da sua vida. \u201c<em>Foram dez anos que me\nroubaram. Uma d\u00e9cada longe de todos os que amava\u201d, <\/em>recorda o viseense<em>.<\/em>\nJorge lamenta a incompreens\u00e3o de alguns dos pares face \u00e0 decis\u00e3o que tomou. \u201c<em>Eu\nrecusei ser c\u00famplice de um regime com o qual n\u00e3o concordava. Hoje, tomaria a\nmesma decis\u00e3o\u201d, <\/em>defende.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias de Jorge e de Ricardo s\u00e3o\ncontadas na primeira pessoa. Muitas, perto de nove mil, n\u00e3o o s\u00e3o. Segundo a EMGFA,\nforam 8&nbsp;831 os militares que perderam a vida no conflito, e cujas fam\u00edlias\nreceberam o t\u00e3o temido telegrama do Ministro do Ex\u00e9rcito. Muitas destas\nfam\u00edlias conservam ainda, na aus\u00eancia de outra forma de homenagem, o recorte do\njornal em que o Minist\u00e9rio da Guerra anunciava a morte em combate do seu filho,\nirm\u00e3o ou sobrinho. Meio s\u00e9culo depois, a ang\u00fastia pelas perdas na \u201cdefesa da\nP\u00e1tria\u201d, conforme o Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito as intitulava, n\u00e3o esmoreceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge e Ricardo s\u00e3o duas faces da mesma\nmoeda. S\u00e3o apenas dois entre os 1,5 milh\u00f5es de portugueses que viram a sua vida\ndiretamente afetada pela Guerra Colonial. Importa, contudo, ouvir as suas\nhist\u00f3rias. Porque por detr\u00e1s dos n\u00fameros est\u00e3o pessoas, com viv\u00eancias e\npercursos pr\u00f3prios. Em comum, esses percursos t\u00eam o medo, a m\u00e1goa e o sentimento\nde injusti\u00e7a. Mas cada um dos caminhos representou desafios, barreiras e\nobst\u00e1culos diferentes. Mais do que isso, a meta, para aqueles que lograram\natingi-la, trouxe consequ\u00eancias cujo impacto se estende at\u00e9 aos nossos dias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar uma fam\u00edlia\nportuguesa que conviva saudavelmente com o tema da Guerra Colonial. Na forma da\nmorte, da les\u00e3o f\u00edsica, do dano moral ou da aus\u00eancia, o conflito deixou uma\nprofunda marca no seio da sociedade nacional. Uma ferida aberta, que nem o\ntempo tem conseguido cicatrizar.<\/p>\n\n\n\n<p>O saldo da Guerra Colonial \u00e9 claro: uma\nGuerra sem vencedores, mas com mais de dois milh\u00f5es de vencidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Guerra Colonial ter\u00e1 sido a face mais dura e sangrenta do regime ditatorial que durante 40 anos governou Portugal.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":8875,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[308],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8872"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8872"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8952,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8872\/revisions\/8952"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}