{"id":7503,"date":"2019-07-11T08:43:44","date_gmt":"2019-07-11T08:43:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=7503"},"modified":"2019-07-11T08:43:44","modified_gmt":"2019-07-11T08:43:44","slug":"a-voz-esquecida-cigano-de-nascenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=7503","title":{"rendered":"A voz esquecida. Cigano de Nascen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A maioria das pessoas carrega uma imagem negativa da etnia cigana. S\u00e3o muitos os adjetivos que est\u00e3o pautados na voz da sociedade. A \u201cmente n\u00f3mada\u201d atribu\u00edda socialmente existe desde o s\u00e9c. X, quando Portugal ainda n\u00e3o era Portugal. Vindos do Noroeste da \u00cdndia, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, encontraram o extremo ocidental da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e Portugal foi um dos pa\u00edses escolhidos pela etnia cigana. Lusitanos, Visigodos, Celtas e Mouros misturaram-se com o povo portugu\u00eas, mas por algum motivo a etnia cigana n\u00e3o se misturou. N\u00f3madas durante s\u00e9culos, carregam v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es, v\u00e1rios lemas e regem-se pela express\u00e3o \u201co c\u00e9u por teto, a terra por p\u00e1tria, a liberdade por religi\u00e3o\u201d. Segundo a reportagem \u201cUma longa Sina\u201d, exibida pela TVI, existem atualmente, em Portugal, cerca de 40 a 60 mil ciganos, mas o povo chega a falar em 100 mil.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Na cidade de Viseu, apenas uma minoria considera que um cigano \u00e9 uma \u201cpessoa normal, tem outra maneira de se viver, \u00e9 um povo unido\u201d. \u00c9 diante destas minorias que come\u00e7a a ideia de mudan\u00e7a. A realidade da vida de tantas pessoas que por carregarem a palavra \u201ccigano\u201d como \u201capelido\u201d veem os seus direitos enquanto cidad\u00e3os n\u00e3o reconhecidos \u00e9 uma realidade, tal como Ant\u00f3nio Pinto Nunes, representante da Federa\u00e7\u00e3o Cigana Portuguesa referiu recentemente na TVI: \u201cSomos cidad\u00e3os de segunda classe, n\u00e3o nos s\u00e3o reconhecidos os mesmos direitos (da popula\u00e7\u00e3o em geral), mas temos os mesmos deveres\u201d.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Marisa Amaral, Maria dos Anjos, Ant\u00f3nio Soares e V\u00e2nia Louren\u00e7o s\u00e3o todos de etnia cigana. Apenas V\u00e2nia Louren\u00e7o aceitou revelar a sua imagem, mas todos falaram com o #dacomunica\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Por Diana Lopes<\/strong><\/p>\n<h1><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7504\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/19621091_10213854214014244_7898866413024894092_o.jpg\" alt=\"\" width=\"1322\" height=\"2048\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/19621091_10213854214014244_7898866413024894092_o.jpg 1322w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/19621091_10213854214014244_7898866413024894092_o-194x300.jpg 194w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/19621091_10213854214014244_7898866413024894092_o-768x1190.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/19621091_10213854214014244_7898866413024894092_o-661x1024.jpg 661w\" sizes=\"(max-width: 1322px) 100vw, 1322px\" \/><\/h1>\n<p><strong>Os 3 pilares ciganos: Casamento, luto e leis de apaziguamento<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cN\u00e3o existe o namoro em termos de rela\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 s\u00f3 mesmo para o casamento. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 essa. J\u00e1 h\u00e1 quem quebre as regras. E homem da etnia que toque naquela menina por mal, ele vai ter de ficar com ela, praticamente j\u00e1 \u00e9 casado com ela. Tem de assumir o compromisso<\/strong><strong>\u201d, <\/strong>Marisa Amaral, cigana, 38 anos, trabalhadora independente.<\/p><\/blockquote>\n<p>O casamento \u00e9 uma das tradi\u00e7\u00f5es ciganas mais comentadas popularmente. Quem nunca ouviu falar de que o casamento cigano dura 1 semana inteira? Marisa Amaral, 38 anos, trabalhadora independente, \u00e9 m\u00e3e de fam\u00edlia em Viseu e vivenciou o que \u00e9 casar dentro dos padr\u00f5es ciganos. Atribui a palavra \u201cfesta\u201d ao ato matrimonial. <strong><em>\u201cAntigamente eram 3,4,5 dias, agora passou a 1 dia. Ao outro dia v\u00e3o s\u00f3 as pessoas, familiares, comer o resto que sobrou.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A ideia da longa durabilidade da festa do casamento \u00e9 acompanhada pela ideia de que os pais escolhem os futuros companheiros para os seus filhos. Recuando no tempo, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que os pr\u00f3prios pais escolhiam o\/a pretendente e sem perguntar se gostavam ou n\u00e3o, davam seguimento \u00e0 grande festa. <strong><em>\u201cUmas vezes dava certo, outras vezes n\u00e3o\u201d, <\/em><\/strong>relembra Marisa Amaral.<\/p>\n<p>E quem acha que a express\u00e3o <em>\u201cmudam-se os tempos, mudam-se as vontades\u201d<\/em> n\u00e3o se aplica ao \u201cmundo\u201d cigano, est\u00e1 enganado. O casamento, que era uma pr\u00e1tica sagrada, est\u00e1 nos dias atuais a perder a ades\u00e3o, mesmo entre os ciganos. Maria dos Anjos, cigana, 74 anos, compara os tempos passados aos atuais: \u201c<strong><em>O casamento n\u00e3o se faz na igreja, o amor n\u00e3o vem da igreja. Muitas pessoas n\u00e3o casam, porque j\u00e1 n\u00e3o precisam de se separar. At\u00e9 aqui acontecia s\u00f3 na vossa etnia, agora tamb\u00e9m \u00e9 na nossa\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>E como homem, Ant\u00f3nio Soares n\u00e3o desmente a afirma\u00e7\u00e3o de Maria dos Anjos. Os 80 anos que carrega e a vida cigana a que teve direito d\u00e3o-lhe propriedade: <strong>\u201cEu n\u00e3o sou casado pela igreja. Tenho filhos, netos, bisnetos. A amizade n\u00e3o se vai buscar \u00e0 igreja. Juntamo-nos pronto, \u00e9 igual. Nunca me viram de forma errada por n\u00e3o ter escolhido seguir o casamento pela igreja.\u201d <\/strong><\/p>\n<p>Tal como no casamento pela igreja, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao luto, cada um decide, de forma individual, como o viver\u00e1. E este \u00e9 o outro pilar pelo qual a etnia cigana carrega respeito. Segundo o <strong>site da <a href=\"https:\/\/amucip.weebly.com\/\">AMUCIP<\/a><\/strong><strong>, <\/strong>Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Ciganas, constitu\u00edda em 2000, que trabalha para o desenvolvimento das crian\u00e7as e mulheres ciganas em Portugal, o ritual de luto tem as suas singularidades. A mulher, ao ficar vi\u00fava, costuma cortar o cabelo e cobrir a cabe\u00e7a. Usam-se dois len\u00e7os: um mais pequeno, interior, cobre o cabelo. O outro len\u00e7o, maior e exterior \u00e9 utilizado desde a cabe\u00e7a at\u00e9 \u00e0 cintura. Os detalhes s\u00e3o a demonstra\u00e7\u00e3o da dor. Maria dos Anjos perdeu todos os filhos homens. Eram 4. <strong><em>\u201cJ\u00e1 sofri de tudo um pouco. Mortes, desgosto. O \u00faltimo que tinha de filhos homens, morreu esbarrado. Eu revoltei-me\u201d, conta. <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os ciganos costumam ser vistos como pessoas revoltadas, que agem por impulso, \u201cconflituosas\u201d. Mas, h\u00e1 regras estabelecidas para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas. Tal como o site da <strong>AMUCIP <\/strong>relata <strong><em>\u201c<\/em><\/strong><strong><em>Os mais\u00a0velhos s\u00e3o tidos como pessoas com sabedoria e importantes para a coes\u00e3o da comunidade\u201d <\/em><\/strong>e o papel do homem <strong><em>\u201c\u00e9 de protetor. H\u00e1 um problema qualquer, e como eu sou uma pessoa com uma certa idade, chamam-me a mim. E eu resolvo. A tend\u00eancia \u00e9 chamar um homem mais velho\u201d, <\/em><\/strong>acrescenta Ant\u00f3nio Soares, 80 anos. Como feirante j\u00e1 se viu no papel de apaziguador, ou o cumpridor da lei de apaziguamento como \u00e9 conhecida pela comunidade cigana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tr\u00e1fico, viol\u00eancia, abusos<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 habitual associar o tr\u00e1fico, a viol\u00eancia e os abusos \u00e0 etnia cigana. A palavra cigana \u00e9 associada tamb\u00e9m <strong><em>\u201cao medo\u201d,<\/em><\/strong> como reflete Marisa Amaral, de etnia cigana. Pensa tamb\u00e9m que h\u00e1 casos excecionais em todas as culturas e que h\u00e1 os bons e os maus. O estere\u00f3tipo est\u00e1 presente, pois os ciganos tamb\u00e9m sentem medo, para surpresa de muitas pessoas. <strong><em>\u201cQuem n\u00e3o tem medo?\u201d, <\/em><\/strong>questiona Ant\u00f3nio Soares, 80 anos, feirante em Viseu.<\/p>\n<p>Esta ideia errada que se forma na sociedade \u00e9, aos olhos de Maria dos Anjos, um problema que vem diretamente de ideias pr\u00e9-concebidas. <strong><em>\u201cSe mandasse mudava muita coisa: outra ra\u00e7a faz tudo e mais alguma coisa, n\u00e3o \u00e9 nada, acabou. O pol\u00edcia vende droga, rouba o Estado, as multas metem ao bolso&#8230; O cigano mata, e \u00e9 isto e aquilo\u201d, comenta.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ao analisar a sequ\u00eancia das not\u00edcias, apenas em Portugal, vamos dar-nos conta que:<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cNa nossa etnia o que tem de melhor \u00e9: pode haver uma briga, mas passa r\u00e1pido. A respeito dos filhos matarem os pais, as m\u00e3es, os filhos&#8230; na nossa ra\u00e7a h\u00e1 pouco. Assim como a viola\u00e7\u00e3o. Essa n\u00e3o se v\u00ea. Na nossa etnia, a n\u00edvel europeu, n\u00e3o se v\u00ea dizer aquele pai violou a filha, aquele tio violou a sobrinha\u201d<\/strong>, Maria dos Anjos, 74 anos, reformada e ex-feirante.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Feiras, Ciganos e Chineses<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7509\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/file4-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"1958\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/file4-1.jpeg 1958w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/file4-1-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/file4-1-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/file4-1-1024x768.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1958px) 100vw, 1958px\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 20 anos a comunidade cigana dependia das feiras, pagava-se em escudo e os chineses ainda n\u00e3o tinham chegado. Os ciganos vendiam muito barato e ajudavam a vestir e a cal\u00e7ar os seus clientes. Hoje, o neg\u00f3cio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 igual. As roupas s\u00e3o mais baratas nos chineses. Muitos ciganos est\u00e3o a deixar os neg\u00f3cios e, sendo uma popula\u00e7\u00e3o com um longo hist\u00f3rico de vida em feiras, consideram que ningu\u00e9m imagina a vida por detr\u00e1s de uma barraca.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cA gente sofre muito. Levant\u00e1vamo-nos \u00e0s 4H30, 5H, 6H. Quando \u00e9 a \u00e9poca dos emigrantes, a gente j\u00e1 tinha de ter o artigo todo pronto muito cedo. Depois a gente chegava a casa, tinha os filhos, a casa. Deitava-me 1h\/2h da manh\u00e3, a passar a ferro. Andei na feira quase 45 anos\u201d<\/strong>, conta Maria dos Anjos, 74 anos, reformada e ex-feirante.<\/p><\/blockquote>\n<p>O cigano escolhe as feiras porque n\u00e3o tem oportunidade e as portas est\u00e3o sempre trancadas. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade nenhuma a n\u00e3o ser por conta pr\u00f3pria, d<strong>escreve Marisa Amaral.<\/strong><\/p>\n<p>A feira das Talhas \u00e9 mencionada por esta mulher, que mesmo a trabalhar por conta pr\u00f3pria, cresceu no meio das feiras. Essa feira durava cerca de 18, 19 horas, sempre a trabalhar. J\u00e1 as feiras de Aveiro duravam 2, 3 dias e <strong><em>\u201cnesse caso t\u00ednhamos de dormir l\u00e1. N\u00e3o havia s\u00edtios para tomar banho, para irmos \u00e0 casa de banho e a gente tinha de montar uma tenda para tomar banho, fazer comida, fazer tudo. E as pessoas n\u00e3o imaginam o sofrimento por tr\u00e1s, porque temos de fazer de tudo para dar de comer aos filhos\u201d<\/em><\/strong>, reflete Marisa Amaral.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre uma causa por detr\u00e1s de qualquer escolha. A escolha de um cigano que ganha o p\u00e3o para si e para os seus filhos atrav\u00e9s das feiras, n\u00e3o foge \u00e0 regra. Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 <strong>revista magazine<\/strong>, em Portugal, o estudo mais completo sobre a rela\u00e7\u00e3o dos ciganos com o trabalho remonta a 2014. Na altura, 57% dos inquiridos dizia nunca ter trabalhado. Entre os restantes, a venda ambulante era a principal atividade econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O trabalho e o RSI<\/strong><\/p>\n<p>A regra da vida \u00e9 que s\u00f3 sobrevive quem trabalha ou quem, de uma forma mais justa ou menos justa, alcan\u00e7a possibilidades financeiras. Mas e quando n\u00e3o conseguimos o trabalho que dar\u00e1 sustento aos nossos filhos? Com base no PORDATA, o \u00cdndice Sint\u00e9tico de Fecundidade por mulher, ou seja, o n\u00famero de filhos por mulher em Portugal passou de 3,20 em 1960 para 1,37 em 2017. Mesmo com 1 filho, a situa\u00e7\u00e3o em Portugal n\u00e3o \u00e9 vista nos melhores momentos, e cada vez \u00e9 mais apertado ter dinheiro para sustentar esse mesmo filho.<\/p>\n<p>Entre a etnia cigana, onde a m\u00e9dia ronda os 4 a 5 filhos, as portas encontram-se muitas vezes fechadas ao emprego, porque carregam no rosto a palavra \u201ccigano\u201d. <strong>\u201cJ\u00e1 existem pessoas que aceitam, que t\u00eam a mente aberta, mas \u00e9 s\u00f3 a partir de agora\u201d<\/strong>, reflete Marisa Amaral, 38 anos, trabalhadora independente.<\/p>\n<p>A ideia de que o trabalho \u00e9 s\u00f3 para alguns verifica-se na comunidade cigana. S\u00f3 aqueles que viajaram muito, como Ant\u00f3nio Soares, e que conviveram com outros povos, conseguem integrar-se de forma diferente na sociedade em geral. \u201c<strong><em>Eu sempre viajei para o Brasil, Luanda, Angola, Cabo verde, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe. Ent\u00e3o nunca senti essa barreira.\u201d <\/em><\/strong>\u00a0Quanto aos que ingressam na escola, crescem e constituem fam\u00edlia num mesmo local, que seja conservador, \u00e9 mais dif\u00edcil serem desfeitos os estere\u00f3tipos e os julgamentos.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO meu genro \u00e9 de Mangualde e estudou l\u00e1. E h\u00e1 uns anos atr\u00e1s foi chamado ao centro de emprego e foi mandado para uma f\u00e1brica em Mangualde. Conheceram que ele era de Mangualde (\u2026). Disseram \u201cn\u00e3o\u201d, discriminaram logo. Depois foi chamado para outro trabalho e foi o mesmo\u201d, conta <\/strong>Maria dos Anjos, 74 anos, reformada e ex-feirante<em>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Por\u00e9m, a sociedade est\u00e1 a mudar e <strong>\u201cj\u00e1 h\u00e1 muito ciganos empregados a n\u00edvel fixo\u201d. <\/strong>A jovem V\u00e2nia Louren\u00e7o, estudante de Direito, com 21 anos, acredita que este \u00e9 um trabalho longo, mas acredita que dar\u00e1 frutos.<strong> \u201c<em>Eu costumo dizer que a mudan\u00e7a tem de ser da parte dos ciganos, mas tamb\u00e9m dos n\u00e3o ciganos<\/em><em>\u201d<\/em><\/strong>, reflete a jovem.<\/p>\n<p>Outro dos estere\u00f3tipos associados \u00e0 etnia \u00e9 que os ciganos dependem do Rendimento Social de Inser\u00e7\u00e3o, mas a vis\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o contraria esta ideia:<\/p>\n<p><strong>\u201cOs ciganos querem trabalhar, h\u00e1 muitos anos. Aqui em Viseu, querem trabalho mesmo, andam todos nos cursos\u201d<\/strong><strong>, diz <\/strong>Maria dos Anjos, 74 anos, ex-feirante.<\/p>\n<p>Marisa Amaral concorda com a ideia e defende que a sociedade maiorit\u00e1ria acha que o RSI \u00e9 dado aos ciganos por n\u00e3o quererem trabalhar. <strong><em>\u201cAlguns dependem\u201d<\/em><\/strong> do rendimento, <strong><em>\u201cporque n\u00e3o encontram trabalho<\/em><\/strong>\u201d, afirma. E Maria dos Anjos confirma:<strong><em> \u201cMuitos, n\u00e3o s\u00f3 da nossa etnia, se n\u00e3o fosse o rendimento e o abono das crian\u00e7as, morriam \u00e0 fome.\u201d <\/em><\/strong>\u00a0Maria dos Anjos viveu das feiras durante 45 anos e acabou por desistir, por causa da falta de lucro. Hoje, com 74 anos, frequenta cursos para desempregados \u201cpara espairecer a cabe\u00e7a\u201d e considera que alguns ciganos de Viseu j\u00e1 t\u00eam trabalho fixo, mas outros tamb\u00e9m frequentam estas forma\u00e7\u00f5es. \u201c<strong>Eles querem alguma coisa, nem que seja um curso, n\u00e3o s\u00e3o malandros como o povo diz\u201d, defende.<\/strong><\/p>\n<p>Uma das grandes quest\u00f5es centra-se no papel que a mulher cigana assumia na comunidade no passado e a grande mudan\u00e7a para a atualidade. Nas palavras de S\u00f3nia Matos, respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas, a mulher cigana tinha como objetivo saber ler e escrever. O percurso escolar ia apenas at\u00e9 ao 4\u00ba ano. A feira era o pr\u00f3ximo passo na \u201cescola\u201d de uma menina cigana. <strong><em>\u201cAntigamente as pessoas n\u00e3o ciganas tamb\u00e9m s\u00f3 cuidavam da casa e dos filhos. Mas a etnia n\u00e3o cigana evoluiu um pouco mais r\u00e1pido e n\u00f3s tamb\u00e9m estamos a evoluir, mas mais lentamente\u201d<\/em><\/strong><em>, <\/em>afirma S\u00f3nia Matos.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cCostumo dizer que o processo de integra\u00e7\u00e3o na sociedade da mulher cigana \u00e9 id\u00eantico ao da mulher portuguesa em geral, s\u00f3 que com 40 anos de atraso\u201d, <\/em><\/strong>conclui.<\/p>\n<p>O RSI, criado em 1996, garantiu, aos olhos de S\u00f3nia Matos, a oportunidade de meninas sem oportunidades de estudo, poderem chegar a casa e dizer que tinham um contrato e eram obrigadas a ir \u00e0 escola. Foi importante tamb\u00e9m para levar o Estado a preocupar-se com a escolaridade cigana e \u00e0s pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es pelo acolhimento em escolas que antes era apenas dedicada a crian\u00e7as n\u00e3o ciganas. O problema \u00e9 a pouca progress\u00e3o nos estudos.<\/p>\n<p>Apesar destas mudan\u00e7as, a mulher cigana deve obedi\u00eancia ao seu marido, sendo ele o protetor da casa e o representante da fam\u00edlia. Mas, atualmente j\u00e1 sente que \u00e9 reconhecida. Ant\u00f3nio Soares, fala com propriedade que se a <strong><em>\u201cesposa falar com outra pessoa qualquer, eu n\u00e3o tenho problema nenhum. Ela tem voz, independentemente de ser mulher\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0O caso da Escola de Paradinha<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7514\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7496.jpg\" alt=\"\" width=\"1680\" height=\"1120\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7496.jpg 1680w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7496-300x200.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7496-768x512.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7496-1024x683.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1680px) 100vw, 1680px\" \/><\/p>\n<p>Ter voz ativa \u00e9 o que a comunidade cigana anseia h\u00e1 s\u00e9culos. E a m\u00e1goa por n\u00e3o ter essa voz reconhecida j\u00e1 come\u00e7a a ser resolvida no que se refere \u00e0 escola. Hoje em dia, na escola de Paradinha, em Viseu, ciganos e n\u00e3o ciganos podem aprender juntos. Mas nem sempre foi assim.<\/p>\n<p>A Escola do 1\u00ba ciclo do bairro de Paradinha era frequentado por crian\u00e7as n\u00e3o ciganas. O bairro tinha m\u00e1 fama. Mas o jardim de inf\u00e2ncia praticava o contr\u00e1rio: inclu\u00eda a comunidade maiorit\u00e1ria e minorit\u00e1ria. As crian\u00e7as sentiam-se acolhidas, mas quando estava na altura de entrar para o 1\u00ba ano, a comunidade n\u00e3o cigana n\u00e3o colocava os seus filhos na Escola B\u00e1sica de Paradinha. Tinham de se deslocar para outras escolas, longe da sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Nada muda enquanto ningu\u00e9m tomar uma atitude. Foi o que Mara Maravilha,<\/p>\n<p>presidente Associa\u00e7\u00e3o de Pais Escola de Paradinha, decidiu fazer: ir contra as ideias<\/p>\n<p>da sua pr\u00f3pria comunidade. Ouviu muitas vezes, como demonstra a reportagem do P\u00fablico <strong><em>\u201cCom tantas escolas em Viseu, foste p\u00f4r as tuas filhas em Paradinha!\u201d. <\/em><\/strong>Essa foi a atitude dela. Como representante da Associa\u00e7\u00e3o dos Pais decidiu colocar as suas pr\u00f3prias filhas na escola b\u00e1sica de Paradinha e n\u00e3o foi preciso muito tempo para a realidade mudar. Hoje, estamos diante uma escola inclusiva.<\/p>\n<p>Tem <strong><em>\u201cum projeto de ensino inclusivo, que possibilita que a institui\u00e7\u00e3o escolar seja frequentada por todo o tipo de alunos\u201d<\/em><\/strong><em>, <\/em>afirma o presidente da C\u00e2mara Municipal de Viseu, Almeida Henriques em declara\u00e7\u00f5es ao Jornal do Centro.<\/p>\n<p>O diretor do Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique, Jo\u00e3o Caiado, em declara\u00e7\u00f5es ao mesmo jornal, acredita que inserir a comunidade cigana com a n\u00e3o cigana \u00e9 <strong>\u201cum processo lento trabalhar com mi\u00fados da etnia cigana, n\u00f3s queremos que em primeiro lugar haja mudan\u00e7as de comportamento e em termos de Agrupamento, tem sido a nossa grande luta\u201d. <\/strong>\u00c9 necess\u00e1rio adaptar a sociedade a qualquer cultura e n\u00e3o a cultura adaptar-se \u00e0 sociedade. \u00c9 uma mudan\u00e7a de mentalidades.<\/p>\n<p>Os professores s\u00e3o elementos essenciais para fazer a integra\u00e7\u00e3o na mente da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>LN\u00d3MADAS, ROMED e OPR\u00c9<\/strong><\/p>\n<p>Ter professores ativos na constru\u00e7\u00e3o de uma liga\u00e7\u00e3o entre diversas culturas \u00e9 dinamizar as comunidades ciganas. H\u00e1 diversas formas de colocar a comunidade cigana em p\u00e9 de igualdade com a comunidade maiorit\u00e1ria. Bruno Gomes, figura central nos projetos LN\u00d3MADAS, ROMED e OPR\u00c9, j\u00e1 esteve por de tr\u00e1s de v\u00e1rias conquistas para ultrapassar o preconceito. Os projetos centram-se nas crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p>Segundo Bruno Gomes, a LN\u00d3MADAS promove a escolaridade; empregabilidade; igualdade de oportunidade no ensino superior; forma\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de conhecimentos. A liga\u00e7\u00e3o com a ROMED \u00e9 clara desde 2013. Este programa foca-se no emprego, servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 obtiveram resultados na <strong><em>\u201ccampanha de sensibiliza\u00e7\u00e3o promotora da escolariza\u00e7\u00e3o, incentivar os pais ciganos, para a import\u00e2ncia da escola na vida ativa dos seus filhos e motivar os jovens ciganos atrav\u00e9s de bons exemplos (da comunidade) para o exerc\u00edcio de uma cidadania ativa, tendo como pano de fundo a ESCOLA<\/em>\u201d, <\/strong>dados disponibilizados por Bruno Gomes.<\/p>\n<p>O projeto ROMED, desde 2016, \u00e9 parceiro do programa governamental OPR\u00c9. O dinamizador de bolsas de estudo no Ensino Superior que apoia 25 jovens ciganos.<\/p>\n<p>As mentalidades precisam mudar, e <strong>\u201cse n\u00e3o houver programas que reparem o ostracismo a que os ciganos foram vetados durante 5 s\u00e9culos, dificilmente haver\u00e1 aproxima\u00e7\u00f5es\u201d<\/strong>, acrescenta o Vice-Diretor da LN\u00d3MADAS e ROMED, conclui a ideia em que acredita que <strong>\u201ca diversidade \u00e9 que faz a sociedade rica\u201d. <\/strong>Por isso a necessidade de existir um esfor\u00e7o entre a comunidade cigana e n\u00e3o cigana pela igualdade. A igualdade come\u00e7a em casa e na escola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cigana e o sonho de ju\u00edza<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_7506\" aria-describedby=\"caption-attachment-7506\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-7506 size-full\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/60145529_2223668537710195_6530383828085637120_o.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"1316\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/60145529_2223668537710195_6530383828085637120_o.jpg 640w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/60145529_2223668537710195_6530383828085637120_o-146x300.jpg 146w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/60145529_2223668537710195_6530383828085637120_o-498x1024.jpg 498w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7506\" class=\"wp-caption-text\">V\u00e2nia Louren\u00e7o, estudante do curso de Direito<\/figcaption><\/figure>\n<p>S\u00e3o estes projetos que ajudam jovens como a V\u00e2nia Louren\u00e7o, a \u00fanica jovem cigana em Viseu a frequentar a universidade. Est\u00e1 no 2\u00ba ano e \u00e9 uma das poucas ciganas a estudar Direito em Portugal, no Porto. Pensa n\u00e3o ter feito uma escolha entre universidade ou cumprir as tradi\u00e7\u00f5es da sua comunidade.\u00a0 S\u00e3o <strong><em>\u201ccoisas distintas, mas podem perfeitamente coexistir\u201d, <\/em><\/strong>reflete.<\/p>\n<p>O projeto ROMED foi um alicerce para a sua entrada na universidade e como <strong>\u201cum grupo espantoso\u201d<\/strong> conseguiu encontrar jovens da etnia cigana com os mesmos objetivos de vida e, dessa forma, entreajudarem-se nas dificuldades. Est\u00e1 no grupo desde que entrou na universidade. Assim, n\u00e3o s\u00f3 as cidades maiores como Lisboa ou Porto, mas cidades como Viseu, podem ser beneficiadas desse projeto.<\/p>\n<p>V\u00e2nia sente que a decis\u00e3o de ingressar na universidade foi em parte incentivo da fam\u00edlia, mas que o seu pai teve maior influ\u00eancia na decis\u00e3o. N\u00e3o teve oportunidade de estudar e teve que <strong><em>\u201cse virar desde muito cedo porque n\u00e3o conseguiu estudar. Ele costuma sempre dizer para n\u00f3s fazermos aquilo que ele n\u00e3o pode.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A jovem quer ser o exemplo para a sua fam\u00edlia e para tantas crian\u00e7as e jovens a quem sempre disseram que estudar n\u00e3o era essencial. V\u00e1rias crian\u00e7as de etnia cigana encontram V\u00e2nia e surpreendem-na com a ideia de que assim como ela est\u00e1 a estudar, mais tarde, tamb\u00e9m querem. <strong><em>\u201cSurpreende-me um bocado pois n\u00e3o \u00e9 costume e as crian\u00e7as olharem para mim e dizerem que querem ir para a escola \u00e9 algo que me deixa feliz, e que me diz<\/em><\/strong> que n\u00e3o estou a fazer isto em v\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A universidade tem aberto horizontes a V\u00e2nia Louren\u00e7o, e, apesar de n\u00e3o ter sentido preconceito enquanto cigana no in\u00edcio da sua caminhada escolar, houve momentos menos positivos que a marcaram.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO meu professor gostava de explicar uma mat\u00e9ria sobre os neg\u00f3cios e disse: n\u00f3s tamb\u00e9m podemos partir do princ\u00edpio de que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o como os ciganos e que agem com boa f\u00e9\u201d,<\/em><\/strong> <strong><em>como se os ciganos fossem todos maus. Fiquei um pouco sem rea\u00e7\u00e3o\u201d<\/em><\/strong>, recorda.<\/p>\n<p>O que a anima \u00e9 saber que, apesar de n\u00e3o poder fazer a justi\u00e7a toda no mundo, se, atrav\u00e9s dela, alguma poder ser aplicada, diz sentir-se satisfeita.<\/p>\n<p>Em breve estar\u00e1 formada, pois o tempo n\u00e3o para, mas a ideia base da vida de V\u00e2nia \u00e9 gostar de mostrar aquilo que \u00e9 e afirma que nunca ir\u00e1 conseguir estar num ambiente de trabalho ou at\u00e9 numa amizade sem que as pessoas a aceitem por aquilo que \u00e9.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201c<\/strong><strong>Sou cigana e n\u00e3o tenho nada que esconder. Ser cigano n\u00e3o \u00e9 uma coisa m\u00e1 pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma coisa que me d\u00e1 muito orgulho. E se tiver que levar com as consequ\u00eancias positivas ou negativas, eu vou levar, mas nunca vou esconder aquilo que sou. Eu quero ser feliz como toda a gente e acho que isso n\u00e3o vai ser poss\u00edvel se eu tiver que viver com medo de que as pessoas saibam que eu sou cigana<\/strong>\u201d, V\u00e2nia Louren\u00e7o, 21 anos, cigana, estudante de Direito.<\/p><\/blockquote>\n<p>A jovem estudante tem revolucionado as ideias dos mais jovens ao seu redor e em Viseu. Acredita que um cigano pode ser ele mesmo, com a sua cultura, mas com mais algum conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Discrimina\u00e7\u00e3o e a Luta pela igualdade<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de V\u00e2nia Louren\u00e7o estar a destacar-se como cigana, ainda h\u00e1 muitas desigualdades na comunidade minorit\u00e1ria. A luta pela igualdade est\u00e1 h\u00e1 muitos anos a tentar ser implantada. A discrimina\u00e7\u00e3o est\u00e1 aliada \u00e0 palavra \u201ccigano\u201d.\u00a0 S\u00e3o v\u00e1rios os casos de revolta. Exemplos de vida que ser\u00e3o descritos abaixo e que mostram a voz de tantos ciganos em Portugal, que muitas vezes, vivem calados.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cNum hospital se for preciso, chamam outra pessoa e n\u00e3o chamam a gente. \u00c0s vezes temos raz\u00e3o de falar, as outras pessoas \u00e9 que fazem o mal e ainda ficam com a raz\u00e3o e o direito a falar\u201d<\/strong>, Maria dos Anjos, 74 anos, reformada e ex-feirante.<\/p>\n<p><strong>\u201cH\u00e1 algumas pessoas que s\u00f3 por dizer que \u00e9 cigano j\u00e1 come\u00e7am a olhar de lado, porque tem-se a ideia que ser cigano \u00e9 pressuposto para se cometer um crime e n\u00e3o \u00e9<\/strong><strong>\u201d<\/strong>, V\u00e2nia Louren\u00e7o, cigana, estudante de Direito.<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 uma vida dif\u00edcil. Porque os ciganos v\u00e3o a uma aldeia vender \u201cah vem ali um cigano\u201d, eu n\u00e3o acho isso bem<\/strong><strong>\u201d<\/strong>, Ant\u00f3nio Soares, 80 anos, cigano, feirante.<\/p><\/blockquote>\n<p>A vergonha por mostrar a sua real identidade \u00e9 uma das consequ\u00eancias desta falta de igualdade.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cTenho algu\u00e9m de fam\u00edlia que j\u00e1 de pequena, esconde a identidade. V\u00ea-nos passar e finge que n\u00e3o nos v\u00ea. Tenta passar que n\u00e3o \u00e9 cigana. Ela namora com um rapaz n\u00e3o cigano. E quando passa por n\u00f3s finge n\u00e3o nos ver e aquilo custa-nos. Existe muitas que o fazem e seguem aquilo que querem, ficam com um rapaz n\u00e3o cigano, mas n\u00e3o precisam estar a esconder o que s\u00e3o. \u00c9 a ess\u00eancia dela. Ela est\u00e1-se a enganar a ela pr\u00f3pria\u201d<\/strong>, Marisa Amaral, 38 anos, cigana, trabalhadora independente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O Bairro, A BALSA<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7519\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7522.jpg\" alt=\"\" width=\"2100\" height=\"1400\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7522.jpg 2100w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7522-300x200.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7522-768x512.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/IMG_7522-1024x683.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 2100px) 100vw, 2100px\" \/><\/p>\n<p>A vida na Balsa decorre naturalmente. Localizado junto \u00e0 Central de Camionagem de Viseu, \u00e9 quase imposs\u00edvel chegar a Viseu e n\u00e3o se deparar com o bairro. Pessoas ciganas e n\u00e3o ciganas vivem ali. Ao longo de v\u00e1rios blocos, os ciganos concentram-se numa parte deles e os n\u00e3o ciganos na outra. \u00c9 aqui que s\u00e3o vistas as fam\u00edlias numerosas e os in\u00fameros filhos a brincar na relva que decora as entradas dos blocos. \u00c9 aqui que as roupas estendidas nos varais, s\u00e3o colocadas a secar no outro lado da estrada, sem qualquer vergonha ou receio.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que vivem novos e velhos. Ciganos, n\u00e3o ciganos e os que n\u00e3o veem na sua etnia uma diferen\u00e7a racial. Mas h\u00e1 quem veja. Marisa Amaral vive aqui, assim como Maria dos Anjos e revelam as suas ideias.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>\u201cEm Portugal, quando fazem um bairro fazem-no e em vez de por um cigano aqui e outro al\u00e9m, vamos p\u00f4-los todos juntos. \u00c9 pior, porque juntam-se todos c\u00e1 fora e h\u00e1 as confus\u00f5es. \u00c9 como os negros que os juntam todos. Eu penso que a ra\u00e7a mais discriminada somos n\u00f3s ciganos e as pessoas de cor (negras)\u201d<\/em><\/strong>, Marisa Amaral, cigana.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u201c<strong><em>N\u00e3o. Aqui n\u00e3o. Mas noutros bairros h\u00e1 muita discrimina\u00e7\u00e3o. Aqui em Viseu mesmo. Agora, a maior parte das pessoas conhecidas v\u00eam-me na rua, param, abra\u00e7am-me, beijam-me. Homens igual. Os conhecidos da feira. Eu ando numa forma\u00e7\u00e3o, e uma senhora em que a m\u00e3e dela vinha fazer-me limpeza \u00e0 casa ficou feliz de me ver, ela apanhou-me as m\u00e3os e n\u00e3o me largava<\/em><\/strong>\u201d, Maria dos Anjos, cigana.<\/p><\/blockquote>\n<p>O bairro, a Balsa, como \u00e9 chamado, \u00e9 onde existe tanto o conflito como a serenidade. Segundo as declara\u00e7\u00f5es de ambas, Maria e Marisa, os ciganos s\u00e3o pessoas sempre unidas, mas tamb\u00e9m quando mexem com eles s\u00e3o os piores uns para os outros. \u201c<strong><em>Tanto s\u00e3o amigos como se podem matar uns aos outros\u201d,<\/em><\/strong> mas concluem e afirmam que a tend\u00eancia \u00e9 ajudar e defender o parceiro. Os problemas dos outros s\u00e3o como os problemas deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cCigano \u00e9 cidad\u00e3o portugu\u00eas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Pessoas simples, pessoas ciganas. \u00c9 assim que se definem. Na voz das mulheres ciganas, consideram que para serem felizes apenas precisam de um casamento feliz, terem maridos bons para elas e para os filhos. Que sejam trabalhadores, pobres, mas amigos da casa e da mulher. <strong><em>\u201cIsso \u00e9 o que a gente adora\u201d, <\/em><\/strong>Maria dos Anjos. Mas a sa\u00fade tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria, a paz, terem aquilo que \u00e9 seu por direito. Gostam de estar uns com os outros, felizes.<\/p>\n<p>Na voz dos homens, atrav\u00e9s de Ant\u00f3nio Soares, \u00e9 ainda mais simples explicar o que traz felicidade \u00e0 etnia cigana: <strong><em>\u201cTudo, ter uma fam\u00edlia, filhos e netos.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na sociedade do s\u00e9culo XXI, subsistem ideias pr\u00e9-concebidas. Os ciganos carregam a dor do julgamento, do apontar do dedo. T\u00eam medo, como qualquer outro cidad\u00e3o portugu\u00eas. Na verdade, <strong><em>\u201cum cigano \u00e9 um cidad\u00e3o portugu\u00eas\u201d,<\/em><\/strong> explica Ant\u00f3nio Soares.<\/p>\n<p>Portugueses e com tradi\u00e7\u00f5es, muitos tentaram quebrar as regras impostas na cultura cigana, como Marisa Amaral, quando se deparou restrita na tentativa de quebra das tradi\u00e7\u00f5es. Mas as mesmas s\u00e3o importantes, assim como o c\u00f3digo da estrada, para \u201cevitar acidentes\u201d. Sente que quando abriu os olhos j\u00e1 era tarde e que perdeu uma oportunidade de ser feliz por dar asas ao que n\u00e3o devia.<\/p>\n<p>Uni\u00e3o \u00e9 o outro alicerce da comunidade. Podem passar por dificuldades financeiras, mas ajudam quem quer que seja que lhes bate \u00e0 porta.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO cigano \u00e9 assim: tens fome? Ele leva-te a casa dele e d\u00e1-te de comer. Sejas cigana ou n\u00e3o sejas. Mata-te a fome. Na nossa etnia, se tiveres que morrer \u00e0 fome, \u00e0 fome morres\u201d<\/strong>, Eduarda, n\u00e3o cigana, ajudante Sr. Ant\u00f3nio Soares.<\/p>\n<p><strong>\u201cE o cigano \u00e9 aquela pessoa que l\u00e1 no fundo tem pena. V\u00ea algu\u00e9m, uma mulher levar porrada de um homem. Ele vai dar a cara por aquela mulher e ningu\u00e9m v\u00ea isso\u201d<\/strong><strong>,<\/strong> Marisa Amaral, cigana, trabalhadora independente.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 o retrato de quem vive em Portugal h\u00e1 mais de 600 anos. O romani, tamb\u00e9m chamado o Roman\u00eas \u00e9 a sua l\u00edngua m\u00e3e, que se foi perdendo aos poucos dadas as persegui\u00e7\u00f5es dos povos dominantes e que a proibiram. Mas n\u00e3o s\u00f3 a l\u00edngua se pode perder. Pode-se perder gente com sabedoria, gente boa e gente com uma cultura rica.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a voz esquecida. S\u00e3o ciganos de nascen\u00e7a. T\u00eam os mesmos direitos do de qualquer cidad\u00e3o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O futuro \u00e9 de esperan\u00e7a, para que um dia a etnia cigana se possa integrar na sociedade de forma total,<strong><em> \u201cmas vai demorar muito tempo, assim como os homens aceitarem as mulheres e a igualdade\u201d, <\/em><\/strong>Marisa Amaral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maioria das pessoas carrega uma imagem negativa da etnia cigana. S\u00e3o muitos os adjetivos que est\u00e3o pautados na voz<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":7504,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,11],"tags":[2189,2292,2294,2293,271,76],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7503"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7503"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7610,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7503\/revisions\/7610"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/7504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}