{"id":7407,"date":"2019-07-04T08:58:47","date_gmt":"2019-07-04T08:58:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=7407"},"modified":"2019-07-04T08:58:47","modified_gmt":"2019-07-04T08:58:47","slug":"corpos-tiros-bombardeamentos-o-cheiro-do-mato-e-medo-e-o-que-mais-me-lembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=7407","title":{"rendered":"\u201cCorpos, tiros, bombardeamentos, o cheiro do mato e medo \u00e9 o que mais me lembro\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Jos\u00e9 Oliveira, aos 22 anos, \u00e9 enviado para a Guerra Colonial para defender Portugal. Em Angola, come\u00e7a por combater contra os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o \u2013 UNITA, MPLA e FNLA \u2013 que desejavam a liberta\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds.\u00a0<\/strong><strong>Agora, Jos\u00e9 tem 66 anos, reformado e recorda mem\u00f3rias que considerava inesquec\u00edveis deste conflito. Fala-nos um bocado da sua experi\u00eancia no p\u00f3s-guerra, em primeira pessoa.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Por Andreia Duarte<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-7445\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"2765\" height=\"2133\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1.jpg 2765w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1-300x231.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1-768x592.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1-1024x790.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 2765px) 100vw, 2765px\" \/><\/p>\n<p><strong>Ainda se lembra do dia em que foi para Angola?<\/strong><\/p>\n<p>Claro que me lembro. Fui no dia 4 de dezembro de 1974. S\u00e3o mem\u00f3rias que nunca se esquecem. Corpos, tiros, bombardeamentos, o cheiro do mato e medo \u00e9 o que mais me lembro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E ficou l\u00e1 quanto tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Quase um ano, voltei no dia 20 de outubro de 1975. Estivemos l\u00e1, mais ou menos, at\u00e9 terem declarado independ\u00eancia, que foi no dia 11 de novembro. Mesmo sendo pouco tempo comparando com outros soldados, foi uma experi\u00eancia muito marcante para mim. Vi e vivi coisas que a vida nunca me tinha preparado para tal. Acho que ningu\u00e9m est\u00e1 preparado para estas coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Que idade \u00e9 que tinha quando foi?<\/strong><\/p>\n<p>Tinha 22 anos, mais ou menos. Era jovem. Um jovem soldado, bom corpo para combate e uma mente fresca com os reflexos bem apurados. Era sangue novo e isso \u00e9 que importava na altura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foi obrigado a ir ou foi volunt\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Naquela altura ningu\u00e9m queria ir, era tudo obrigado a ir. Fui para l\u00e1 porque me mandaram. N\u00e3o havia escolhas ou n\u00e3o quereres. Era jovem, bem constitu\u00eddo e pronto era bom partido para ir defender o nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Antes de ir, conheceu algu\u00e9m que tivesse ido para a guerra?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, foram os meus dois irm\u00e3os mais velhos. Felizmente nunca lhes aconteceu nada. Mas muitos amigos que fiz na guerra, infelizmente, n\u00e3o sobreviveram. E isso \u00e9 uma das m\u00e1goas que ainda enfrento hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando foi para Angola, j\u00e1 era casado?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda n\u00e3o era. Mas namorava com a minha atual esposa, ela estava na Alemanha e eu l\u00e1. Depois quando fui para Portugal ela saiu de l\u00e1 para vir ter comigo. Foi um relacionamento \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 que comunicava com a sua futura esposa e com a sua fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>Era por cartas. Antigamente n\u00e3o havia internet, telem\u00f3veis, computadores nem nada disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda t\u00eam essas cartas?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Por um lado, at\u00e9 gostava de ainda ter essas recorda\u00e7\u00f5es, mas por outro n\u00e3o. Tinha l\u00e1 muita hist\u00f3ria, era um di\u00e1rio basicamente. Contava a minha rotina e as minhas preocupa\u00e7\u00f5es. Foi um per\u00edodo muito triste.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que eles (fam\u00edlia) ficaram quando souberam que ia para Angola?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o ficaram muito contentes n\u00e3o. Mas tinha de ser, eu tinha de ir. Custou mais principalmente \u00e0 minha m\u00e3e. J\u00e1 lhe tinham morrido dois filhos afogados, foram dois para a guerra e depois fui eu, ela sofreu muito. Ela e todas as outras m\u00e3es, claro. Mas pronto, teve de ser forte, tinha 7 filhos mais novos que eu e tinha de cuidar deles. O meu pai era mais frio, eu sabia que estava preocupado comigo e na altura com os meus irm\u00e3os, mas n\u00e3o era pessoa de o mostrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda se lembra da sua viagem para l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Lembro-me, fui de avi\u00e3o. A ir para l\u00e1 e a vir para c\u00e1. Houve aquele \u201cfriozinho\u201d na barriga por ser a primeira vez, mas no meio daquele ambiente de guerra foi a menor das preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda se lembra do que sentiu quando deixou o seu pa\u00eds para ir combater num pa\u00eds t\u00e3o longe?<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio fiquei muito assustado, como acho que fica toda a gente que vai para uma situa\u00e7\u00e3o deste obrigado. Mas com o tempo tive de me habituar \u00e0 ideia, n\u00e3o podia fugir, como eu iam muitos. As amizades que fiz tamb\u00e9m facilitaram a adapta\u00e7\u00e3o, mas foi um pouco complicado n\u00e3o ter grandes not\u00edcias da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando aconteceu o 25 de abril, onde estava? Estava c\u00e1 em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>Estava em Bragan\u00e7a. Estava no Norte. Ou seja, nasci em Viseu, mas na altura estava em Bragan\u00e7a a trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Com a tropa?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, andava l\u00e1 na tropa. Estava a tirar a minha especialidade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual era a sua?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro tir\u00e1mos a recruta, depois a especialidade. A minha era sapador de minas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quanto tempo demorou a tirar essa especialidade?<\/strong><\/p>\n<p>Mais ou menos tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Enquanto esteve em Angola, algu\u00e9m morreu ou ficou ferido do seu grupo\/algu\u00e9m que conhecesse?<\/strong><\/p>\n<p>Quando estivemos em Cabinda, no Dinge, conheci l\u00e1 um homem que levou uma bala nas costas e saiu-lhe na barriga. \u00c9 a mem\u00f3ria mais viva que tenho. Foi bastante chocante ver algu\u00e9m \u00e0s portas da morte mesmo \u00e0 frente dos meus olhos. Eu acho que um jovem de 22 anos n\u00e3o est\u00e1 mentalmente preparado para ver estas coisas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Morreu? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Oliveira<\/strong> N\u00e3o. Veio para Portugal, mas n\u00e3o morreu. Pelo menos na altura n\u00e3o morreu. Ainda fui lev\u00e1-lo a Cabinda, apanh\u00e1mos uma trovoada t\u00e3o grande no caminho&#8230; Cheguei a temer pela vida de n\u00f3s os dois. Mas, pronto, eram dificuldades que t\u00ednhamos de passar diariamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea, alguma vez ficou ferido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Oliveira <\/strong>N\u00e3o, felizmente n\u00e3o. Soube-me defender. Fui um sortudo por isso, agrade\u00e7o a Deus todos os dias por isso. Parecia o jogo das escondidas. Quem se conseguisse disfar\u00e7ar melhor, nunca era baleado ou apanhado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E alguma vez lhe passou pela cabe\u00e7a que ia morrer?<\/strong><\/p>\n<p>Sim claro, todos os dias. \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o o pensar quando estamos num ambiente de guerra e quando vemos corpos mortos no ch\u00e3o. Nunca sabermos se vamos acordar a meio da noite ao som de tiros, ou se vamos acordar sequer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Acha que a sua ida para Angola teve algo de positivo? <\/strong><\/p>\n<p>Naquela altura havia alguma coisa positiva? Uma pessoa ir para a guerra n\u00e3o \u00e9 positivo. Os meus irm\u00e3os e alguns amigos contaram-me cada hist\u00f3ria mesmo chocante, n\u00e3o sei como \u00e9 que eu ficava se visse alguma coisa daquelas que eles. \u00c9 como, por exemplo, quando ou\u00e7o falar das guerras nos pa\u00edses de Leste arrepio-me todo. \u00c9 triste ver como fica o estado das cidades e aquelas pessoas e crian\u00e7as todas. Seja numa parte do mundo ou outra, parece que nunca paramos de estar em guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ainda mant\u00e9m contacto com os homens que o acompanharam l\u00e1 em Angola?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, infelizmente j\u00e1 n\u00e3o sei nada deles. Sei de dois ou tr\u00eas que j\u00e1 morreram. Vai-se perdendo o contacto. E s\u00f3 nos dias de hoje vamos conseguindo novidades de algumas pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas aquilo que viveu, tudo o que viu, o que aprendeu, n\u00e3o acha que teve alguma coisa de positivo?<\/strong><\/p>\n<p>Tinha l\u00e1 bocados ainda bons, como o companheirismo entre n\u00f3s todos. Tive outros maus, a maior parte deles. Mas pronto, faz-nos crescer como pessoas. Viver com as dificuldades. \u00c0s vezes n\u00e3o ter uma refei\u00e7\u00e3o para comer, n\u00e3o saber quando \u00edamos voltar\u2026 \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando regressou para Portugal como se sentiu?<\/strong><\/p>\n<p>Senti-me aliviado, estava feliz por voltar a casa s\u00e3o e salvo e rever a minha fam\u00edlia. Poder voltar \u00e0 minha vida foi um al\u00edvio. Mas ficaram muitas marcas. Olhava para todo o lado para ver se estava a ser perseguido. Quando ouvia fogo de artif\u00edcio arrepiava-me. Ou seja, a afli\u00e7\u00e3o real tinha acabado, mas as mem\u00f3rias experienciadas n\u00e3o me sa\u00edam da cabe\u00e7a. Tive at\u00e9 de recorrer a uma psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera-se, de alguma forma, traumatizado com esta sua experi\u00eancia em \u00c1frica?<\/strong><\/p>\n<p>Traumatizado n\u00e3o diria, mas claro que h\u00e1 certas coisas que uma pessoa nunca esquece apesar de querer esquecer. Mas claro que no fundo d\u00e1-se mais valor \u00e0 vida, num minuto podemos c\u00e1 estar e no outro j\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Oliveira, aos 22 anos, \u00e9 enviado para a Guerra Colonial para defender Portugal. 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