{"id":680,"date":"2016-06-26T14:33:54","date_gmt":"2016-06-26T14:33:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=680"},"modified":"2016-06-26T14:33:54","modified_gmt":"2016-06-26T14:33:54","slug":"o-vento-mudou-e-o-amor-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=680","title":{"rendered":"O vento mudou&#8230; e o amor tamb\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><em>Esque\u00e7am-se os bailes de ver\u00e3o e as serenatas \u00e0 janela. Perdeu-se o beijo roubado num recanto escondido e o medo de ser castigado pelo pai severo. O \u201cAmor nos Tempos de C\u00f3lera\u201d deu lugar ao amor como o conhecemos hoje, no qual a forma de encarar asrela\u00e7\u00f5es amorosas tem vindo a alterar os modos de uni\u00e3o com a nossa cara-metade e todo o cen\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o de uma vida a dois.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-681\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1-300x157.jpg\" alt=\"amor1\" width=\"300\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1-300x157.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1-768x401.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1-1024x534.jpg 1024w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1-390x205.jpg 390w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor1.jpg 1299w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Nos anos 60, os Beatles fizeram quest\u00e3o de deixar bem claro que tudo o que precisamos \u00e9\u2026 amor: o sentimento soberano que inspirou gera\u00e7\u00f5es de poetas e escritores, m\u00fasicos e cineastas.<br \/>\nAmar \u00e9, desde sempre, uma montanha-russa de emo\u00e7\u00f5es que aceitamos pela satisfa\u00e7\u00e3o de ter ao nosso lado a pessoa com quem desejamos partilhar cada momento. Mas ser\u00e1 que as f\u00f3rmulas utilizadas para chegar \u00e0 tal s\u00e3o as mesmas de h\u00e1 d\u00e9cadas atr\u00e1s?<br \/>\nNuma sociedade em que, para muitos, se alimenta a ilus\u00e3o de que estamos mais conectados do que nunca, o isolamento e a solid\u00e3o continuam a aumentar, principalmente entre solteiros. A necessidade de uma presen\u00e7a afetiva, a par da liberaliza\u00e7\u00e3o dos novos m\u00e9todos de procura do amor, fazem com que encontra-lo j\u00e1 n\u00e3o seja deixado ao acaso. Os que se sentem sozinhos cada vez mais tomam as r\u00e9deas do destino e por sua iniciativa, buscam a felicidade com outro algu\u00e9m.<br \/>\n\u00c9 este um novo paradigma de forma\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os afetivos ou, pelo contr\u00e1rio, de fragiliza\u00e7\u00e3o e banaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que vivemos?<\/p>\n<p><strong>Amor, para que te quero?<\/strong><br \/>\nExplicar algo t\u00e3o complexo como \u00e9 o amor pode parecer dif\u00edcil e at\u00e9 dispens\u00e1vel. No entanto, \u00e9 importante entender esta necessidade de partilha que t\u00e3o bem carateriza o ser humano.<br \/>\nNuma \u00f3tica mais pessimista e racional, as rela\u00e7\u00f5es amorosas s\u00e3o consideradas uma ilus\u00e3o criada pelo desejo sexual e pela necessidade natural de procria\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o queremos acreditar em algo assim. Ent\u00e3o, porqu\u00ea amar? \u201cA ang\u00fastia da solid\u00e3o\u201d: foi esta a primeira ideia que ocorreu a Leandra Cordeiro quando questionada acerca das motiva\u00e7\u00f5es por detr\u00e1s do amor. Licenciada em Psicologia, com uma especializa\u00e7\u00e3o na vertente Cl\u00ednica e da Sa\u00fade, acredita que o afeto \u00e9 t\u00e3o importante como qualquer outra necessidade b\u00e1sica. \u201cO amor e a qualidade das rela\u00e7\u00f5es afetivas garantem a estrutura e o equil\u00edbrio ps\u00edquico. \u00c9 assim com os primeiros v\u00ednculos quando somos pequeninos e depois, quando crescemos continua a ser fundamental reconhecermo-nos nos olhos dos outros, amarmos e sermos amados.\u201d, explica.<\/p>\n<p>De facto, o amor tem sido entendido como um processo de autodescoberta em conjunto com o outro, no qual o apoio m\u00fatuo desempenha um papel fundamental. Amar \u00e9 um ato de fuga ao tal isolamento que nos parece intr\u00ednseco. Derrubamos muros que fomos construindo ao longo do tempo para nos protegermos do que nos rodeia. Esse medo do exterior desaparece e as barreiras quebram-se. A nossa \u201ccarapa\u00e7a\u201d fria e vazia passa a ter lugar para mais uma pessoa. E assim, sem grandes comos nem porqu\u00eas, somos felizes.<br \/>\n\u201cUma rela\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 f\u00e1cil. Muitas vezes \u00e9 o encontro imperfeito de muitas fragilidades, de duas hist\u00f3rias que sendo mais ou menos dif\u00edceis, envolver\u00e1 sempre ced\u00eancias, ajustamentos, encontros de expectativas.\u201d, afirma Leandra Cordeiro. Esta \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o transversal que permanece na base de todas as rela\u00e7\u00f5es afetivas. Por\u00e9m, outras coisas mudaram.<\/p>\n<p><strong>\u201cVoc\u00eas correspondem!\u201d<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-682\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor2-300x197.jpg\" alt=\"amor2\" width=\"300\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor2-300x197.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor2.jpg 697w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\nE se o amor estivesse ao alcance da nossa m\u00e3o?<\/p>\n<p>Lu\u00eds tem 24 anos. Em dezembro do ano passado conheceu a sua atual companheira atrav\u00e9s do Tinder, uma aplica\u00e7\u00e3o de encontros online. Est\u00e3o juntos e felizes h\u00e1 quatro meses: \u201cFiquei curioso com a foto inicial, que n\u00e3o era dela, e com as refer\u00eancias no perfil. Queria saber o<br \/>\nCriado em 2012, o Tinder \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o de encontros mais bem-sucedida do momento.<br \/>\nque fazia, de que m\u00fasica gostava, que filmes via, e n\u00e3o queria que fosse mais uma no meio da manada.\u201d<br \/>\nNo entanto, confessa que depois de terminar uma rela\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos, n\u00e3o era uma namorada que procurava quando instalou a aplica\u00e7\u00e3o: \u00abApenas olhei para essas pessoas como potenciais \u201cone-night stands\u201d. Apesar de ter alguma esperan\u00e7a, n\u00e3o acreditava que iria ter uma rela\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria com algu\u00e9m a\u00ed &#8211; n\u00e3o s\u00f3 porque acho que muita gente na plataforma n\u00e3o as procura mas tamb\u00e9m por uma certa desilus\u00e3o com o amor.\u00bb.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, as aplica\u00e7\u00f5es de encontros invadiram os smartphones. Em menos de cinco minutos, s\u00e3o dezenas as que disponibilizam um aut\u00eantico cat\u00e1logo de pessoas interessadas numa mera conversa, num caf\u00e9, num caso de uma noite ou at\u00e9 num compromisso mais s\u00e9rio.<br \/>\nNo caso do Tinder, as inten\u00e7\u00f5es variam de acordo com a \u201ccorrespond\u00eancia\u201d. \u00c9 esta a express\u00e3o utilizada quando duas pessoas se encontram na aplica\u00e7\u00e3o e \u201cgostam\u201d uma da outra. S\u00f3 assim podem entrar em contacto e iniciar uma conversa.<br \/>\nUtilizando informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do perfil do Facebook, incluindo as fotos e os gostos em p\u00e1ginas, o Tinder cria um perfil para cada utilizador, que ficar\u00e1 vis\u00edvel para outros se se incluir nos crit\u00e9rios que escolheram: sexo, idade e localiza\u00e7\u00e3o (dist\u00e2ncia em quil\u00f3metros).<br \/>\n\u201c\u00c9 poss\u00edvel, com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o, perceber v\u00e1rios tra\u00e7os das pessoas a partir dos seus perfis. Se tem muitas ou poucas fotos, sozinha ou acompanhada, no meio da natureza, em bares ou em casa. Se n\u00e3o tem descri\u00e7\u00e3o e, a ter, se d\u00e1 primazia a tra\u00e7os psicol\u00f3gicos ou f\u00edsicos.\u201d, defende Lu\u00eds.<br \/>\nO jovem acredita que sem o Tinder ainda existiria uma possibilidade remota de se cruzar com a atual parceira no dia-a-dia, por n\u00e3o serem de longe. Mas a rela\u00e7\u00e3o, muito provavelmente, n\u00e3o se teria desenvolvido: \u201cAcho que ter\u00edamos chamado a aten\u00e7\u00e3o um do outro, mas n\u00e3o de uma forma suficientemente forte para ultrapassar as nossas reservas e, v\u00e1, um certo desprezo por quase toda a gente.\u201d, diz, sorrindo.<br \/>\nDesde 2012, ano do seu lan\u00e7amento, o Tinder conta com 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios inscritos em 196 pa\u00edses. A maioria tem entre 18 e 24 anos. 54% est\u00e3o solteiros.<\/p>\n<p><strong>Longe da norma\u2026 perto do amor?<\/strong><br \/>\nMarco assumiu a homossexualidade aos 17 anos, dez anos depois de ter sido diagnosticado com depress\u00e3o: um quadro diferente que faz com que as aplica\u00e7\u00f5es sejam das primeiras hip\u00f3teses a considerar para ultrapassar certas barreiras.<br \/>\nApesar de j\u00e1 utilizar f\u00f3runs online como tentativa de encontrar um parceiro, Marco s\u00f3 entrou no mundo das aplica\u00e7\u00f5es aos 22 anos. \u201cFui motivado pelos meus amigos. J\u00e1 conhecia praticamente todas as pessoas com a minha orienta\u00e7\u00e3o no meu<br \/>\ncontexto imediato e n\u00e3o havia novas pessoas a aparecer\u201d, explica. Para al\u00e9m do Tinder, \u00e9 tamb\u00e9m utilizador do Grindr, destinado especificamente a encontros homossexuais numa vertente mais ocasional. Apesar de semelhantes, no Grindr a op\u00e7\u00e3o de enviar uma mensagem est\u00e1 dispon\u00edvel imediatamente, mesmo que a outra parte n\u00e3o esteja interessada.<br \/>\nTendo em conta as limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o acredita que as vias tradicionais sejam a melhor op\u00e7\u00e3o para quem procura algu\u00e9m do mesmo sexo, dadas as probabilidades e os riscos ainda associados ao preconceito: \u201c\u00c9 expect\u00e1vel que toda a gente em nosso redor seja heterossexual. N\u00e3o \u00e9 expect\u00e1vel, a n\u00e3o ser que se esteja num espa\u00e7o dedicado a isso, que algu\u00e9m seja homossexual. E dado que muita gente ainda n\u00e3o se sente confort\u00e1vel, pode tornar-se perigoso tentar perguntar a algu\u00e9m sobre a sua orienta\u00e7\u00e3o.\u201d.<br \/>\nA este cen\u00e1rio juntam-se as prefer\u00eancias e expetativas em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Na vida real, perceber a compatibilidade de interesses entre duas pessoas pode n\u00e3o ser t\u00e3o imediato. Nas aplica\u00e7\u00f5es, uma r\u00e1pida descri\u00e7\u00e3o no perfil j\u00e1 a denuncia. \u00c9 que \u201cN\u00e3o havendo quem corresponda aos nossos crit\u00e9rios pessoais, n\u00e3o interessa se se est\u00e1 rodeado de cem pessoas que partilhem da nossa orienta\u00e7\u00e3o, ou de apenas uma.\u201d, explica Marco.<br \/>\nLu\u00eds tem ansiedade social. Tamb\u00e9m esse foi um dos motivos que o levou a escolher o Tinder. \u201c\u00c9 muito mais confort\u00e1vel estar sentado no sof\u00e1 ou deitado na cama a escolher potenciais parceiros. A rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 trocada por uma aus\u00eancia de resposta, que d\u00f3i muito menos.\u201d, afirma.<br \/>\nAinda assim, o processo de conhecer algu\u00e9m pela Internet continua a n\u00e3o ser um mar de rosas para quem se sente constantemente inadequado: \u201cO momento em que fazes um \u201cmatch\u201d com algu\u00e9m &#8211; que n\u00e3o conheces sequer de lado nenhum &#8211; traz sempre uma certa ansiedade. Olha, \u00e9 o equivalente virtual a uma troca de olhares flagrante entre pessoas na rua, se calhar. Depois h\u00e1 na mesma aquela inseguran\u00e7a e artificialidade inicial da conversa.\u201d.<br \/>\nPara Marco, a falta de um companheiro agrava ainda mais os efeitos da depress\u00e3o: \u201cSe h\u00e1 coisa que uma pessoa deprimida sente, geralmente, \u00e9 inadequa\u00e7\u00e3o e falta de apoio. A falta de um companheiro auxilia a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o temos valor.\u201d Quando todos \u00e0 sua volta parecem ter \u201calgu\u00e9m especial\u201d, o desajustamento cresce, ao contr\u00e1rio da autoestima: \u201cAcaba por ser uma pescadinha de rabo na boca: n\u00e3o temos valor porque n\u00e3o temos ningu\u00e9m, e n\u00e3o temos ningu\u00e9m porque n\u00e3o temos valor.\u201d, conta.<\/p>\n<p><strong>A cultura do ef\u00e9mero<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-684\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/breakfast-of-love-1329977-300x220.jpg\" alt=\"breakfast-of-love-1329977\" width=\"300\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/breakfast-of-love-1329977-300x220.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/breakfast-of-love-1329977-768x563.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/breakfast-of-love-1329977.jpg 998w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n\u201cTenho algum receio de que, com a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, nos tenhamos tornado muito automatizados. Menos emocionais.\u201d, defende Leandra Cordeiro. \u201c\u00c9 necessariamente o outro virtual, que na maioria das vezes promove a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o e o descomprometimento, o que pode ser inicialmente apelativo mas est\u00e1 longe de uma rela\u00e7\u00e3o.\u201d, acrescenta a psic\u00f3loga. Ser\u00e1 caso para dizer que a magia do amor tradicional desapareceu?<br \/>\n\u00c9 certo que encontrar companhia est\u00e1 agora mais acess\u00edvel do que nunca. Mas h\u00e1 v\u00e1rias quest\u00f5es que se colocam no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es amorosas atuais. Num contexto dominado pelas aplica\u00e7\u00f5es que potenciam novos la\u00e7os, a par das j\u00e1 conhecidas redes sociais, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar nos efeitos que decorrem nas rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u201cAs pessoas deixaram de viver e abra\u00e7ar a sexualidade com o relacionamento afetivo e talvez a\u00ed se tenham vindo a divorciar aos bocadinhos. Todos os dias. Delas pr\u00f3prias e dos outros, obrigatoriamente.\u201d, confessa a psic\u00f3loga. A verdade \u00e9 que, mais do que nunca, presenciamos uma certa banaliza\u00e7\u00e3o do ef\u00e9mero, que se faz sentir na enorme procura por casos de curta dura\u00e7\u00e3o em vez dos t\u00edpicos compromissos.<br \/>\nMarco acredita que \u201cos homens s\u00e3o, por natureza, mais prom\u00edscuos.\u201d. Com alguma confian\u00e7a constru\u00edda entre as duas partes, a probabilidade de um encontro da natureza sexual ocorrer entre dois homens \u00e9 muito maior. Infelizmente, sente que \u201cas aplica\u00e7\u00f5es acabam por alienar muitas pessoas\u201d que, como ele, procuram rela\u00e7\u00f5es s\u00e9rias.<br \/>\nE a prolifera\u00e7\u00e3o das aplica\u00e7\u00f5es contribui para esta mudan\u00e7a de comportamentos? Lu\u00eds pensa que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 inversa: \u201cEssa vontade tem que existir antes de tudo. Afinal de contas, a app foi criada para responder a uma necessidade e se a prioridade \u00e9 um encontro ocasional\u2026\u201d.<br \/>\nPara al\u00e9m disso, em camadas mais jovens, as mentalidades j\u00e1 n\u00e3o remetem t\u00e3o imediatamente para a necessidade de um compromisso, muito menos para a institui\u00e7\u00e3o que \u00e9 o casamento. \u201cAcho que muito disso vem de uma mudan\u00e7a cultural na qual, pelo menos na classe m\u00e9dia &#8211; alta, se entende que um indiv\u00edduo at\u00e9 aos 30 anos ainda pode divagar, experimentar diferentes lugares, rela\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es, etc.\u201d, afirma Lu\u00eds. Leandra concorda: \u201cHoje a autenticidade de que as paix\u00f5es n\u00e3o duram uma vida inteira e que nem sempre se \u00e9 feliz para o resto da vida, d\u00e1 liberdade \u00e0s pessoas de a qualquer momento poderem recome\u00e7ar (a viver). E isso, desde que seja vivido com conta, peso e medida \u00e9 bom!\u201d.<\/p>\n<p><strong>Bem-me-quer\u2026 j\u00e1 n\u00e3o te quero<\/strong><br \/>\nQuando a diversifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de procura do amor parece solucionar um problema, eis que outros surgem. \u00c9 que encontrar algu\u00e9m que corresponda aos nossos desejos e expetativas parece f\u00e1cil. Ser\u00e1 que manter uma rela\u00e7\u00e3o amorosa viva atualmente tamb\u00e9m o \u00e9? Para Leandra Cordeiro, este \u00e9 um dos maiores desafios:<br \/>\n\u201cRealizar o tal encontro diariamente. Resolver conflitos. Comunicar com o outro. Esses talvez sejam os principais problemas.\u201d.<br \/>\nNa era de exposi\u00e7\u00e3o da vida privada, a ilus\u00e3o de que algu\u00e9m melhor est\u00e1 ao simples alcance de um clique aumenta, ao contr\u00e1rio do investimento num compromisso duradouro. \u201c\u00c0 medida que as pessoas v\u00e3o colecionando relacionamentos v\u00e3o-se sentindo cada vez mais sozinhas.\u201d, afirma a psic\u00f3loga. Mas essa sucess\u00e3o de tentativas \u00e9, hoje em dia, uma constante. Porque o vizinho do lado parece mais feliz do que eu. Ou porque h\u00e1, no contexto virtual, um mar de solteiros \u00e0 espera de ser navegado. Lu\u00eds concorda e refere que \u201ca internet pode promover essa ideia de que h\u00e1 tanta gente dispon\u00edvel que podemos ser \u201cesquisitos\u201d e descartar algu\u00e9m por um pormenor insignificante.\u201d.<br \/>\nMas o amor n\u00e3o se resume a isto. Apesar de tudo, \u201cAs pessoas que se mant\u00eam juntas n\u00e3o gostam mais ou menos. N\u00e3o s\u00e3o mais ou menos bonitas. As pessoas que se mant\u00eam juntas resolvem problemas.\u201d, diz Leandra.<\/p>\n<p>Quando as cartas de amor n\u00e3o eram rid\u00edculas<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-683\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor3-300x225.jpg\" alt=\"amor3\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor3-300x225.jpg 300w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/amor3.jpg 729w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Agora com 64 anos, Delfim conta a sua hist\u00f3ria de amor entre risos de orgulho e uma certa vergonha. Ivone, com 60, abana a cabe\u00e7a em sinal de reprova\u00e7\u00e3o. Foi o acaso quem os juntou. Na tropa, os amigos sortearam tr\u00eas cartas endere\u00e7adas a mulheres diferentes, mas com o mesmo conte\u00fado: um pedido de namoro. Foi a de Ivone, na altura sua vizinha, que retirou da m\u00e3o do colega. E foi com ela que, passados quatro anos, casou.<br \/>\n\u201cFui gr\u00e1vida de dois meses para o casamento e os meus pais nunca souberam de nada\u201d, confessa. De igual forma, o pai de Ivone teve de dar autoriza\u00e7\u00e3o para que a cerim\u00f3nia se pudesse realizar, mas essa era a \u00fanica forma de poderem estar juntos e viverem as suas vidas felizes: \u201cDurante o namoro era muito complicado. O amor era quase proibido, porque a filha era do pai e n\u00e3o de outro homem. Mas era verdadeiro, mais leal do que hoje em dia.\u201d, diz Delfim.<\/p>\n<p>Quando questionados acerca do amor na atualidade, reconhecem imediatamente as diferen\u00e7as relativamente ao passado: \u201cEra inconceb\u00edvel uma mulher viver com um homem sem serem casados. Da mesma forma que uma separa\u00e7\u00e3o era muito mal vista. Se algum deles estivesse infeliz, era assim que tinha de viver, mesmo que n\u00e3o quisesse.\u201d, conta Ivone.<br \/>\nO marido acena afirmativamente e acrescenta que no seu tempo \u201cdava-se mais valor ao que se conseguia conquistar\u201d e acredita que nos dias que correm isto j\u00e1 n\u00e3o acontece: \u201c\u00c0 mais pequena desaven\u00e7a, desistir \u00e9 logo a primeira op\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 paci\u00eancia para lutar, para tornar as coisas melhores. E num ciclo vicioso, salta-se de namoro em namoro, como se fosse um jogo.\u201d, acrescenta Delfim.<br \/>\nA falta de liberdade da altura ainda dificulta a interioriza\u00e7\u00e3o de novos h\u00e1bitos dos tempos que correm. O amor online \u00e9 um deles. Nenhum dos elementos do casal coloca a possibilidade e o \u201crisco\u201d de ter conhecido algu\u00e9m por este meio. Apesar de reconhecerem as vantagens das novas tecnologias, n\u00e3o imaginam que nelas haja lugar para um compromisso verdadeiro como os daquela altura: \u201cN\u00e3o vejo o amor dessa maneira. Perde-se tudo o que t\u00ednhamos de bom antigamente\u2026 perdem-se hist\u00f3rias para contar e tudo o que o amor tem de natural.\u201d, defende Ivone.<\/p>\n<p><strong>O que esperar do amor?<\/strong><br \/>\nAs representa\u00e7\u00f5es do amor j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. Quer seja pelas muta\u00e7\u00f5es sociais decorrentes da liberaliza\u00e7\u00e3o sexual (e da liberdade no geral), ou pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, o futuro do amor como o conhecemos \u00e9 incerto.<br \/>\nExperimentar \u00e9 cada vez mais uma op\u00e7\u00e3o para quem quer disfrutar do agora, sem preocupa\u00e7\u00f5es. Mas a procura por uma companhia constante n\u00e3o se desvaneceu: s\u00f3 mudou de forma. E o resto? \u201cSe est\u00e1s a escolher algu\u00e9m a dedo num ambiente controlado, esse momento pode n\u00e3o ter muita espontaneidade.\u201d, afirma Lu\u00eds, \u201cMas o que se segue ainda \u00e9 uma intera\u00e7\u00e3o entre duas pessoas, que se podem odiar, ser indiferentes&#8230; ou adorarem-se.\u201d<br \/>\n\u00c9 que segundo Leandra Cordeiro, o essencial na constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquilo que corporiza o primeiro encontro. O que realmente importa \u00e9 a capacidade de transformar a reuni\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e importante para ambos. \u201cE essa, d\u00ea o mundo as voltas que der, envolver\u00e1 sempre os olhos nos olhos, o toque de pele e n\u00e3o o touch screen.\u201d, diz a psic\u00f3loga.<br \/>\nE a verdade \u00e9 que, apesar das formas como nos conhecemos se terem alterado, ningu\u00e9m quer abrir m\u00e3o destes pequenos, mas grandes pormenores. Ningu\u00e9m quer abrir m\u00e3o do amor.<\/p>\n<p>Ana Rita Cabral<\/p>\n<p>Imagens: Ana Rita Cabral e\u00a0FreeImages.com\/Kelihope<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esque\u00e7am-se os bailes de ver\u00e3o e as serenatas \u00e0 janela. 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