{"id":6376,"date":"2019-03-21T18:07:28","date_gmt":"2019-03-21T18:07:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=6376"},"modified":"2019-03-21T18:07:28","modified_gmt":"2019-03-21T18:07:28","slug":"brexit-ou-exit-do-brexit","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=6376","title":{"rendered":"Brexit ou Exit do Brexit?"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Nos \u00faltimos dois anos e meio t\u00eam sido v\u00e1rios os temas da ordem do dia, mas existe um que volta e meia aparece e reaparece tendo por vezes o efeito boomerang: o Brexit.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um assunto que muitos de n\u00f3s j\u00e1 estamos fartos e eu em particular j\u00e1 come\u00e7o a ficar farto: basta olhar para as vota\u00e7\u00f5es no Parlamento Brit\u00e2nico e para as not\u00edcias sobre o assunto e ficamos sem saber a quantas \u00e9 que isto anda. J\u00e1 ouvi muitas pessoas dizerem que \u201co Brexit tem sido uma trapalhada\u201d, mas tem sido igualmente o palco para muitas a\u00e7\u00f5es e sentimentos a que assistimos ao longo da vida. O Brexit mostrou-nos a saudade em rela\u00e7\u00e3o a Margaret Thatcher, o ressuscitar de Tony Blair, a cobardia de Nigel Farage, a ilus\u00e3o de Boris Johnson, a trai\u00e7\u00e3o de Michael Gove, a paci\u00eancia de Theresa May, a ambi\u00e7\u00e3o de Jeremy Corbyn e sobretudo, a coragem, a firmeza e o erro de David Cameron.<\/p>\n<p>Discordo totalmente desta conversa de que o Reino Unido esteve a discutir se sa\u00eda ou ficava na Uni\u00e3o Europeia, esteve foi a discutir se sa\u00eda ou\u2026 se sa\u00eda. Mais esclarecidamente, o Reino Unido esteve a discutir se sa\u00eda totalmente ou se s\u00f3 sa\u00eda em parte. Percebo totalmente o discurso que me \u00e9 dito, mas depois das condi\u00e7\u00f5es que David Cameron conseguiu para poder ficar na UE, \u00e9 o equivalente ao marido que diz \u00e0 mulher que continua casado com ela, mas s\u00f3 vai dormir a casa quando quer e que tem de lhe pedir autoriza\u00e7\u00e3o para a vender, mesmo que nunca l\u00e1 v\u00e1.<\/p>\n<p>O \u00faltimo exemplo foi uma das figuras fulcrais de todo este processo: Cameron quando chegou ao poder em maio de 2010 ap\u00f3s ter derrotado o Primeiro-Ministro Trabalhista, Gordon Brown, cedeu \u00e0 ala euroc\u00e9tica do Partido Conservador tirando os <em>tories <\/em>do Partido Popular Europeu. Decis\u00e3o que foi muito criticada na Comiss\u00e3o e Conselho da Uni\u00e3o Europeia, que inclusive levou o presidente franc\u00eas de ent\u00e3o, Nicolas Sarkozy, a avisar Cameron que tinha cometido um erro estrat\u00e9gico monumental e a desabafar: \u201c\u00c9 sempre este o problema com os ingleses, est\u00e3o convencidos que valem mais sozinhos do que dentro da UE, est\u00e3o enganados!\u201d.<\/p>\n<p>O problema da perman\u00eancia dos ingleses na UE foi-se desenrolando e s\u00f3 parou no referendo de 23 de junho de 2016, uma promessa cumprida do Primeiro-Ministro e que foi fundamental para ter conseguido a reelei\u00e7\u00e3o com maioria absoluta em 2015. O processo do referendo ocorreu de uma maneira muito particular, com o lado da campanha \u201c<em>Leave<\/em>\u201d a ganhar nas mentiras, o lado da campanha \u201c<em>Remain<\/em>\u201d a ganhar na transmiss\u00e3o do medo e com a maioria das sondagens a dar a vit\u00f3ria \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o. Lembro-me destes dias como se fossem ontem, todos n\u00f3s nos deit\u00e1mos a pensar que a Gr\u00e3-Bretanha tinha ficado na Uni\u00e3o Europeia e acord\u00e1mos com\u2026 o temido Brexit.Com esta decis\u00e3o, acho que os ingleses quiseram juntar o f\u00f3sforo ao fogo como diria Paulo Portas, o f\u00f3sforo era o referendo e o fogo era a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava a Europa.<\/p>\n<p>Pensando bem e com alguma dist\u00e2ncia, a Europa demonstrou por este per\u00edodo um largo d\u00e9fice. Primeiro, mostrou uma enorme falta de capacidade de gerir o processo dos refugiados, com cerca de um milh\u00e3o de refugiados a procurar a Europa como ref\u00fagio e a mesma s\u00f3 reconheceu cerca de 160 mil sem que mais ningu\u00e9m ouvisse falar outra vez dos outros 840 mil. Segundo, existiu um conjunto de atentados terroristas sem a m\u00ednima capacidade de resolu\u00e7\u00e3o em termos de <em>Intelligence <\/em>e com a perce\u00e7\u00e3o de que os novos terroristas surgem em bairros europeus mesmo ao p\u00e9 de n\u00f3s. Terceiro, viu-se uma fraca competitividade da economia europeia e com um crescimento m\u00e9dio europeu abaixo do crescimento brit\u00e2nico, j\u00e1 com a importante no\u00e7\u00e3o de que crescimento pode n\u00e3o significar melhorias, com o exemplo da Espanha que nessa altura verificava cerca de 3% de crescimento econ\u00f3mico, mas com um desemprego jovem tr\u00e1gico a bater nos 40%.<\/p>\n<p>Com estes tr\u00eas pontos, fa\u00e7o quest\u00e3o de acrescentar um quarto e muito importante que \u00e9 o das lideran\u00e7as. Naquele tempo olh\u00e1vamos para a Europa e que lideran\u00e7as carism\u00e1ticas, convictas, seguras e capazes que v\u00edamos independentemente de serem \u00e0 esquerda ou \u00e0 direita e de se situarem a norte ou a sul? Nenhuma em particular. Angela Merkel era a lideran\u00e7a mais forte, mas estava cada vez mais afetada pelos euroc\u00e9ticos da Alemanha, Fran\u00e7ois Hollande era o mais impopular de sempre em Fran\u00e7a e em It\u00e1lia, Matteo Renzi tinha como chefe da oposi\u00e7\u00e3o e com 30% dos votos, um c\u00f3mico euroc\u00e9tico.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia com estas condi\u00e7\u00f5es, era muito dif\u00edcil pedir a um pa\u00eds que lhe desse um sim e o povo que mais dificilmente o daria era logicamente o brit\u00e2nico, pois \u00e9 o mais euroc\u00e9tico. E, sobretudo porque ningu\u00e9m vai convencer os brit\u00e2nicos de que n\u00e3o s\u00e3o capazes de ficarem por sua conta. Conv\u00e9m lembrar que t\u00eam a l\u00edngua franca do mundo, uma moeda forte e respeit\u00e1vel, a Commonwealth e s\u00e3o uma das democracias mais antigas do mundo, n\u00e3o gostam que outros povos lhes digam como podem e devem votar, pois isso \u00e9 contraproducente como se viu. Foi por causa disto que a senhora Thatcher nunca convocou um referendo e negociou condi\u00e7\u00f5es especiais para estar na CEE na altura, com a m\u00edtica express\u00e3o: \u201cWe stay in Europe, but at the end of the day we want our money back\u201d.<\/p>\n<p>Existe uma hist\u00f3ria jornal\u00edstica deliciosa do s\u00e9culo passado, que explica muito bem a rela\u00e7\u00e3o dos brit\u00e2nicos com o resto da Europa. Havia uma tempestade no Canal da Mancha e no dia seguinte, enquanto as primeiras p\u00e1ginas dos jornais de muitos pa\u00edses noticiavam o isolamento da Gr\u00e3-Bretanha, na mesma um dos seus grandes jornais punha na sua primeira em manchete o t\u00edtulo, \u201cA Europa est\u00e1 isolada\u201d.<\/p>\n<p>Com o Brexit abriu-se tamb\u00e9m, a maior caixa de pandora da Uni\u00e3o Europeia. No dia em que venceu o N\u00e3o, a Esc\u00f3cia insinuou que queria ficar na UE e quem votou pelo N\u00e3o foi a Inglaterra, pensando assim que teria de abandonar o Reino Unido para poder ficar na mesma. Problema s\u00f3 dos escoceses? N\u00e3o. No ano seguinte, os catal\u00e3es disseram que tamb\u00e9m queriam sair de Espanha e ficar na Uni\u00e3o Europeia. Para j\u00e1 est\u00e1 assim, mas n\u00e3o sabemos se mais algum povo dentro de um Estado se lembrar\u00e1 de semelhante desejo e pensamento.<\/p>\n<p>Voltando ao Reino Unido, este processo est\u00e1 agora na situa\u00e7\u00e3o \u201cvai ou n\u00e3o vai?\u201d e com dois anos e meio de negocia\u00e7\u00f5es entre governo e UE sem entendimento quanto ao tipo de div\u00f3rcio. Existe logo um conflito de legitimidade porque a maioria dos populares(mais de dezassete milh\u00f5es e quatrocentos) votou pela sa\u00edda, mas a maioria dos deputados s\u00e3o pela manuten\u00e7\u00e3o, ou seja, se por um lado existe um sentimento por parte da popula\u00e7\u00e3o de que pode existir uma conspira\u00e7\u00e3o por parte das elites para boicotar o resultado do referendo, por outro os deputados n\u00e3o obedecem \u00fanica e exclusivamente ao partido porque s\u00e3o eleitos por c\u00edrculos uninominais e por isso transmitem a vontade da popula\u00e7\u00e3o que representam.<\/p>\n<p>Os dois principais partidos pol\u00edticos s\u00e3o os autores das maiores trapalhadas. Os Conservadores tinham um Primeiro-Ministro que era favor\u00e1vel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o, que se demitiu na sequ\u00eancia do referendo e em vez de nomearem um novo executivo favor\u00e1vel ao Brexit, nomearam uma ex-ministra favor\u00e1vel \u00e0 perman\u00eancia. Depois, o Partido de Churchill tinha maioria no Parlamento e a senhora Theresa May decidiu convocar elei\u00e7\u00f5es e embora tenha ganho, perdeu a maioria. Quer sair da Uni\u00e3o Europeia, mas n\u00e3o quer fronteiras com a Irlanda do Norte e a Rep\u00fablica da Irlanda. Os <em>Tories <\/em>tinham tudo na m\u00e3o, poder est\u00e1vel e prosperidade e agora perderam quase tudo.<\/p>\n<p>O Partido Trabalhista n\u00e3o est\u00e1 nada melhor, pois o seu l\u00edder(um pol\u00edtico com tend\u00eancias antissemitas) quer derrubar o governo e convocar elei\u00e7\u00f5es, com a convic\u00e7\u00e3o que as vai vencer(embora j\u00e1 tenha perdido as \u00faltimas) e que vai chegar a Bruxelas conseguindo um novo acordo que n\u00e3o se conseguiu at\u00e9 agora, mas a UE j\u00e1 disse \u201cchega\u201d a tantas negocia\u00e7\u00f5es. Mas o grande contrassenso \u00e9 que Jeremy Corbyn quer avan\u00e7ar com o Brexit, liderando um Partido que a esmagadora maioria dos militantes e eleitorado quer um novo referendo e ficar na UE. H\u00e1 qualquer coisa que n\u00e3o est\u00e1 bem no sistema pol\u00edtico ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Sou favor\u00e1vel \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do Reino Unido na UE, embora confesse que se fosse ingl\u00eas estaria indeciso no meu voto antes de David Cameron ter entrando no Conselho Europeu para negociar as condi\u00e7\u00f5es da mesma. Mas depois das condi\u00e7\u00f5es que conseguiu, nomeadamente a n\u00edvel do poder pol\u00edtico e da imigra\u00e7\u00e3o, votaria incondicionalmente <em>Remain<\/em>. N\u00e3o tendo sido assim e sendo apenas um portugu\u00eas que admira o Reino Unido, espero que esta situa\u00e7\u00e3o tenha um acordo que agrade a ambas as partes, pois o div\u00f3rcio n\u00e3o sendo amig\u00e1vel pode adoecer a curto e longo prazo os dois lados.<\/p>\n<p>Finalizando, s\u00f3 tenho a dizer que se tiver que existir um segundo referendo e com mais informa\u00e7\u00e3o e no\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias, que haja. Pois conv\u00e9m lembrar que muito do que a Europa era antes da Uni\u00e3o Europeia, se resume a uma palavra: Guerra.<\/p>\n<p>Isso, n\u00f3s (europeus) com certeza\u2026 n\u00e3o queremos voltar a ver. Por isso, fica a quest\u00e3o: Ser\u00e1 o Brexit o princ\u00edpio do princ\u00edpio do fim da Uni\u00e3o Europeia?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigo de opini\u00e3o: Jorge Afonso<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dois anos e meio t\u00eam sido v\u00e1rios os temas da ordem do dia, mas existe um que volta<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6377,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[116,12],"tags":[1194,2019,2020,665],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6376"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6378,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6376\/revisions\/6378"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}