{"id":6036,"date":"2019-03-06T13:59:38","date_gmt":"2019-03-06T13:59:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=6036"},"modified":"2019-03-06T14:43:24","modified_gmt":"2019-03-06T14:43:24","slug":"prisional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=6036","title":{"rendered":"\u201cNa mudanc\u0327a nada fica. Tudo muda, tudo avanc\u0327a\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><em><strong>Seis reclusos do Estabelecimento Prisional de Viseu foram parceiros de palco de Ine\u0302s Lamela, pianista, e experienciaram, no dia 30 de outubro no ano passado (2018), um momento fora do normal no Teatro Viriato<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A manha\u0303 foi passada a ensaiar. A\u0300 tarde, os seis detidos dedicaram-se aos apontamentos finais para a apresentac\u0327a\u0303o que fariam por volta das 17h30 a familiares, funciona\u0301rios do estabelecimento prisional e participantes da masterclass que tinha decorrido na semana anterior, tambe\u0301m no Teatro Viriato. Este pequeno espeta\u0301culo onde em palco estiveram \u201cprofessora\u201d e \u201calunos\u201d a tocar e a cantar foi o culminar de uma experie\u0302ncia u\u0301nica, tanto para os participantes como para a pianista.<\/p>\n<p>\u201cEm palco, a atitude e\u0301 meio caminho andado para convencer toda a gente\u201d, dizia a professora aos reclusos, num dos momentos em que as suas vozes na\u0303o acompanharam o ritmo da mu\u0301sica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6038\" aria-describedby=\"caption-attachment-6038\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-6038 size-full\" src=\"http:\/\/www.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/detalhe_reclusao_1535645731.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"462\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/detalhe_reclusao_1535645731.jpg 347w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/detalhe_reclusao_1535645731-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6038\" class=\"wp-caption-text\">In\u00eas Lamela<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ine\u0302s Lamela, professora e pianista, desenvolveu o workshop de piano em colaborac\u0327a\u0303o com o Estabelecimento Prisional de Viseu a convite do Teatro Viriato. Uma experie\u0302ncia que surgiu no seguimento da sua tese de doutoramento baseada no trabalho que desenvolveu, no espac\u0327o de tempo de um ano letivo, com quatro reclusas do Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo.<\/p>\n<p>\u201cSou pianista de formac\u0327a\u0303o de conservato\u0301rio mais cla\u0301ssico, tenho o percurso o mais tradicional que se possa imaginar e, quando entrei pela primeira vez numa prisa\u0303o e participei num projeto de mu\u0301sica, percebi que estes anos todos de investimento numa carreira arti\u0301stica faziam muito mais sentido quando eram postos em pra\u0301tica a trabalhar com as pessoas que esta\u0303o numa situac\u0327a\u0303o muito complicada&#8221;, contou. Apesar de se dedicar a cem por cento a dar aulas, a professora de piano diz que esta e\u0301 uma vida paralela que gosta de ter.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Segundo Ine\u0302s Lamela, esta e\u0301 uma experie\u0302ncia transformadora, tanto para si como para os reclusos. Os objetivos passam por fazer com que sintam que foi um dia diferente e, quem sabe, descubram algo que na\u0303o imaginavam ser capazes de fazer. \u201cMas, na\u0303o estou a\u0300 espera de ter algue\u0301m que, de repente, tem uma epifania e diz: eu quero fazer mu\u0301sica ate\u0301 ao resto da minha vida\u201d, afirmou em tom de brincadeira.<\/p>\n<p>A professora de piano tem como intuito ajudar os reclusos a \u201cdescobrir novas capacidades\u201d e, acima de tudo, que entendam \u201cque se consegue trabalhar em equipa\u201d, ainda que muitas vezes estejam centrados em si mesmos.<\/p>\n<p>\u201cTer uma pessoa que tem um passado complicado a dizer-me que esta\u0301 absolutamente orgulhosa de si mesma e na\u0303o tem vergonha nenhuma de dizer que esteve presa e que fez o projeto porque conseguiu fazer algo que nunca acharia ser possi\u0301vel, para mim e\u0301 um sinal muito o\u0301bvio de transformac\u0327a\u0303o. E tambe\u0301m me transforma a mim, posso acrescentar\u201d, assinala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um dia diferente<\/strong><\/p>\n<p>Os ensaios finais decorreram ja\u0301 no palco do Teatro Viriato. Os seis reclusos tocaram em simulta\u0302neo com a professora. Tre\u0302s de pe\u0301 e tre\u0302s sentados, iam alternando vez para tocarem enquanto Ine\u0302s fazia a harmonia nesta marterclass que envolvia aulas de piano e de canto.<\/p>\n<p>\u201cTe\u0302m que fazer com que o pu\u0301blico sinta o que leem\u201d, dizia-lhes a pianista no ini\u0301cio do primeiro exerci\u0301cio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>\u201cE\u0301 urgente o amor\u201d, de Euge\u0301nio Andrade, foi o poema que lhes foi proposto recitarem. A\u0300 vez, cada um lia a parte que tinha escolhido, enquanto a professora acompanhava ao piano. Apo\u0301s a leitura, sentava-se e tocava um pouco com ela. E assim sucessivamente.<\/p>\n<p>O segundo exerci\u0301cio incidia sobre o poema \u201cO que muda na mudanc\u0327a\u201d, de Carlos Drummond de Andrade. Apo\u0301s alguns atropelamentos musicais e brincadeiras, em conjunto, reformularam o poema, acrescentando versos como \u201cNa mudanc\u0327a nada fica. Tudo muda, tudo avanc\u0327a\u201d. Um momento de envolve\u0302ncia de todos os colegas com a professora, em que ela pedia por energia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Experie\u0302ncias musicais<\/strong><\/p>\n<p>A\u0300 medida que a lic\u0327a\u0303o de mu\u0301sica progredia, a voz de Se\u0301rgio Moura destacava- se entre as dos colegas. O seu timbre forte indiciava que poderia ja\u0301 ter alguma experie\u0302ncia musical. Envergonhado, la\u0301 confessou que era um apaixonado por karaoke.<\/p>\n<p>\u201cFui vocalista de algumas bandas pequenas na minha terra e tambe\u0301m toquei alguns instrumentos de sopro numa banda filarmo\u0301nica\u201d, contou, acrescentando que, antes de ir para o Estabelecimento Prisional de Viseu, esteve na cadeia de Izeda onde tambe\u0301m foi vocalista de uma banda feita com colegas.<\/p>\n<p>Se\u0301rgio lamenta que na\u0303o ha\u0301 um projeto musical na cadeia de Viseu. \u201cEra bom que houvesse porque a mu\u0301sica traz outro estado de espi\u0301rito\u201d e permite-lhe esquecer tudo.<\/p>\n<p>Tambe\u0301m para Jose\u0301 Loureiro, outro dos reclusos, a mu\u0301sica fazia parte do seu quotidiano antes de ir para a prisa\u0303o. Foi proprieta\u0301rio de bares e discotecas. Na sua opinia\u0303o, era positivo se existissem mais projetos deste ge\u0301nero porque \u201cdentro da prisa\u0303o toda a gente sente falta de um entretenimento como este\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Depois de um dia intenso de trabalho, Ine\u0302s Lamela disse estar convencida de que \u201cna\u0303o e\u0301 preciso um doutoramento\u201d para se chegar a\u0300 conclusa\u0303o de que a mu\u0301sica e\u0301, de facto, transformadora. \u201cA mu\u0301sica pode ser altamente transformadora so\u0301 pelo facto de estar sentado numa cadeira a ouvi-la. Quando se faz mu\u0301sica, essa transformac\u0327a\u0303o pode ser ainda maior\u201d, rematou a pianista, que ao longo de um dia tentou fazer sobressair os dotes musicais dos reclusos de Viseu.<\/p>\n<p>Para todos os participantes, este workshop foi um misto de emoc\u0327o\u0303es. Descobriram-se passados e paixo\u0303es em comum e houve a oportunidade de viver uma experie\u0302ncia musical. Para quase todos, houve a emoc\u0327a\u0303o de estar, pela primeira vez, em cima de um palco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Atividades prisionais em Portugal<\/strong><\/p>\n<p>No Estabelecimento Prisional de Viseu sa\u0303o poucas as atividades, denominadas como \u2018ocupac\u0327a\u0303o laboral\u2019, para os reclusos. Tapetes de Arraiolos; Manutenc\u0327a\u0303o e Limpeza; Projetos Agri\u0301colas no EPE Viseu (Campo); e, por u\u0301ltimo, obras de construc\u0327a\u0303o civil de recuperac\u0327a\u0303o e alterac\u0327a\u0303o de espac\u0327os sa\u0303o algumas das iniciativas que os reclusos desenvolvem neste espac\u0327o. Mas, ha\u0301 muitas outras ac\u0327o\u0303es que diversas instituic\u0327o\u0303es da cidade promovem junto desta populac\u0327a\u0303o. Teatro, mu\u0301sica e atividades desportivas sa\u0303o exemplos. Todos os anos, ha\u0301 concertos neste estabelecimento em resultado de uma parceria com os responsa\u0301veis pela organizac\u0327a\u0303o do Festival de Jazz.<\/p>\n<p>O Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo \u2013 Feminino, em Matosinhos, onde a pianista Ine\u0302s Lamela iniciou o seu projeto musical, e\u0301 o que mais se distingue em Portugal pelo seu desenvolvimento. Conforme uma noti\u0301cia da Age\u0302ncia Lusa, o primeiro-ministro Anto\u0301nio Costa disse, no passado me\u0302s de janeiro, que \u201co Governo \u2018deve e tem de conseguir\u2019 replicar no pai\u0301s o exemplo da cadeia de Santa Cruz do Bispo, onde as reclusas te\u0302m uma ocupac\u0327a\u0303o laboral fruto de uma parceria com a Miserico\u0301rdia\u201d. Segundo a noti\u0301cia da age\u0302ncia nacional, \u201co objetivo e\u0301 dotar ou desenvolver compete\u0302ncia profissionais, pessoais e sociais para que a reclusa, quando em liberdade, possua ferramentas suficientes que permitam a sua reintegrac\u0327a\u0303o no mundo ativo\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Este estabelecimento tem protocolos de cooperac\u0327a\u0303o com a Santa Casa da Miserico\u0301rdia do Porto e a Direc\u0327a\u0303o Geral de Reinserc\u0327a\u0303o e Servic\u0327os Prisionais (DGRSP).<\/p>\n<p>Ja\u0301 de acordo com O Jornal Econo\u0301mico, ha\u0301 mais de doze mil presos distribui\u0301dos pelas cadeias a ni\u0301vel nacional, mas cerca de oito mil na\u0303o te\u0302m trabalho. \u201cAgricultura, produc\u0327a\u0303o animal e floresta sa\u0303o algumas das ofertas de trabalho mais disponibilizadas\u201d, as atividades laborais que mais subiram nos anos de 2016 e 2017, afirma a publicac\u0327a\u0303o.<\/p>\n<p>Quase 50% dos presidia\u0301rios, a ni\u0301vel nacional, encontram-se, tambe\u0301m, a realizar \u201catividades administrativas ou na limpeza e manutenc\u0327a\u0303o dos edifi\u0301cios e jardins das cadeias\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A Cruz Vermelha Portuguesa e\u0301 outra instituic\u0327a\u0303o que tem projetos de empreendedorismo social em parceria com a DGRSP, como o \u2018Estado Puro\u2019. Este projeto de empreendedorismo social visa apoiar a pessoa reclusa na sua inserc\u0327a\u0303o na sociedade, de forma a diminuir a sua reincide\u0302ncia.<\/p>\n<p>A promoc\u0327a\u0303o de atividades que consigam abranger va\u0301rias profisso\u0303es podem ser um fator essencial no que toca a\u0300 reinserc\u0327a\u0303o social dos reclusos, apo\u0301s o cumprimento da pena.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Texto: Romana Martins<\/strong><\/p>\n<p><strong>Imagens: DR<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seis reclusos do Estabelecimento Prisional de Viseu foram parceiros de palco de Ine\u0302s Lamela, pianista, e experienciaram, no dia 30<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6037,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[1939,1940,1938,654],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6036"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6036"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6036\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6039,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6036\/revisions\/6039"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6037"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}