{"id":22847,"date":"2026-10-30T14:16:46","date_gmt":"2026-10-30T14:16:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22847"},"modified":"2026-10-30T14:16:48","modified_gmt":"2026-10-30T14:16:48","slug":"desculpa-avo-a-pide-voltou-e-nao-vejo-forma-de-ela-ir-embora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22847","title":{"rendered":"\u00abDesculpa, Av\u00f3, a PIDE voltou!\u00bb e n\u00e3o vejo forma de ela ir embora\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>H\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio n\u00e3o deve, nem pode, ser uma op\u00e7\u00e3o. Ainda mais quando conseguimos comparar um passado desastroso e impiedoso, vivido pelos nossos pais e av\u00f3s, com a realidade atual de um povo que deveria ter acesso, pelo menos, ao que \u00e9 b\u00e1sico, mas que nem isso consegue garantir.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Mariana Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9: como \u00e9 poss\u00edvel que, d\u00e9cadas depois do fim de uma ditadura, as pessoas continuem a ter de lutar por direitos e condi\u00e7\u00f5es de vida dignas? Lutar por aquilo que gera\u00e7\u00f5es anteriores tamb\u00e9m tiveram de conquistar, para que, anos mais tarde, algu\u00e9m pare\u00e7a esquecer o valor dessas mesmas conquistas. Afinal, de que serve aprender com a Hist\u00f3ria se continuamos a correr o risco de a repetir?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu, enquanto jovem e fazendo parte daqueles a quem tanto gostam de chamar \u00abo futuro do pa\u00eds\u00bb, infelizmente, j\u00e1 n\u00e3o consigo imaginar um futuro num pa\u00eds onde aqueles que ocupam cargos pol\u00edticos nos chamam \u00abegoc\u00eantricos\u00bb por lutarmos por algo que, na realidade, deveria ser um direito nosso. Afinal, como podemos ser considerados o futuro se, quando tentamos lutar por ele, somos criticados por quem deveria contribuir para o construir?<\/p>\n\n\n\n<p>Ir para as ruas, protestar e dar voz a quem merece ser ouvido n\u00e3o deveria ser visto como \u00abego\u00edsmo\u00bb. Manifestar-se \u00e9 um direito de todos, um direito da democracia. \u00c9 uma forma de participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica que permite aos cidad\u00e3os expressar o seu descontentamento, contestar decis\u00f5es e exigir mudan\u00e7as. No entanto, para alguns dos nossos representantes, aquilo que o povo est\u00e1 a fazer transmite \u00abuma ideia de um pa\u00eds que parece que est\u00e1 em turbul\u00eancia, n\u00e3o est\u00e1\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 em turbul\u00eancia quando a renda m\u00e9dia de um T1 na capital ronda os 1188 euros, quando o combust\u00edvel ultrapassa os dois euros por litro e quando o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o chega para assegurar as necessidades b\u00e1sicas de uma fam\u00edlia, quanto mais para conseguir poupar e construir um futuro melhor? Perante estas dificuldades, e tantas outras que marcam a realidade portuguesa, como podemos esperar que as pessoas permane\u00e7am em sil\u00eancio?<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 neste cen\u00e1rio que nos dizem constantemente: \u00abE que tal imaginares um futuro?\u00bb Mas que futuro posso eu imaginar neste pa\u00eds? Num pa\u00eds onde a voz do povo parece n\u00e3o ser ouvida e onde, em vez de procurarem escutar-nos, tantas vezes nos tentam silenciar. Em que momento poderei construir a minha fam\u00edlia, ter um emprego est\u00e1vel que n\u00e3o me pague uma mis\u00e9ria, comprar um carro ou uma casa sem come\u00e7ar a vida endividada? Quando poderei simplesmente viver com a tranquilidade de quem n\u00e3o tem de lutar constantemente pelo b\u00e1sico? E como poderei acreditar num futuro onde a liberdade de express\u00e3o parece ter limites impostos por quem n\u00e3o aceita ser contestado e onde os jovens s\u00e3o reduzidos a \u00abpregui\u00e7osos\u00bb?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 precisamente por estes motivos, e tantos outros, que as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias. N\u00e3o podem ser consideradas desordem quando a \u00fanica coisa que o povo quer \u00e9 aquilo que \u00e9 seu: lutar por um futuro que n\u00f3s pr\u00f3prios consigamos e que queremos construir. Manifestar n\u00e3o \u00e9 criar problemas, \u00e9 mostrar que existem problemas que n\u00e3o podem continuar a ser ignorados. E n\u00e3o, as for\u00e7as de seguran\u00e7a n\u00e3o podem ser consideradas \u00abrespeitosas\u00bb quando aquilo que fazem \u00e9 atacar mal se sentem atacadas, agredir sem serem desrespeitadas ou agredidas. O respeito n\u00e3o pode ser exigido apenas a quem sai \u00e0 rua para lutar pelos seus direitos, tamb\u00e9m deve ser exigido a todos aqueles que defendem Portugal e nos representam.<\/p>\n\n\n\n<p>Custa-me acreditar que, d\u00e9cadas depois, ainda tenhamos de lutar por direitos que tantos sacrificaram para conquistar. Que a liberdade, pela qual tantos perderam tanto, possa voltar a parecer uma amea\u00e7a aos olhos de quem nos governa. N\u00e3o quero acreditar que estamos condenados a repetir a Hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero esperar que seja tarde demais para percebermos o que estamos a perder. Porque a ditadura n\u00e3o foi apenas um cap\u00edtulo que nos ensinaram na escola: foi uma realidade vivida por pessoas que amamos, que tiveram medo, que foram silenciadas e que lutaram para que hoje pud\u00e9ssemos ter voz. E \u00e9 por elas, por n\u00f3s e por aqueles que ainda vir\u00e3o que n\u00e3o podemos aceitar que a liberdade se transforme numa mem\u00f3ria distante. \u201cDesculpa, Av\u00f3, a PIDE voltou!\u201d E o que mais me assusta n\u00e3o \u00e9 diz\u00ea-lo, mas sentir que, afinal, talvez ela nunca tenha ido embora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio n\u00e3o deve, nem pode, ser uma op\u00e7\u00e3o. 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