{"id":22329,"date":"2026-06-26T08:38:19","date_gmt":"2026-06-26T08:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22329"},"modified":"2026-06-26T08:38:21","modified_gmt":"2026-06-26T08:38:21","slug":"entre-turnos-e-aulas-o-preco-invisivel-de-estudar-enquanto-se-trabalha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22329","title":{"rendered":"Entre turnos e aulas: o pre\u00e7o invis\u00edvel de estudar enquanto se trabalha"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>S\u00e3o oito da manh\u00e3 e o turno acabou h\u00e1 poucos minutos. Enquanto muitos estudantes ainda acordam para mais um dia de aulas, Maria Vilas Boas tenta recuperar algumas horas de sono no autocarro a caminho da Escola Superior de Educa\u00e7\u00e3o de Viseu. Trabalha durante a noite e, muitas vezes, \u00e9 neste percurso entre o emprego e a universidade que encontra o \u00fanico momento poss\u00edvel para descansar.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22335\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-225x300.jpg 225w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-co\u0301pia-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Escola Superior de Educa\u00e7\u00e3o de Viseu<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Reportagem de Carolina Pereira e Soraia Meireles<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu chego a casa por volta das oito, e \u00e9 a hora em que vou descansar. Isso quando n\u00e3o tenho de ir para a universidade, porque quando tenho, descanso no autocarro para chegar at\u00e9 l\u00e1\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/A\u0301udio-1-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>A realidade dos trabalhadores-estudantes faz parte do quotidiano do ensino superior, mas continua muitas vezes escondida atr\u00e1s das paredes das salas de aula. O aumento do custo de vida, das rendas, das propinas e das despesas b\u00e1sicas obriga a que cada vez mais estudantes trabalhem para conseguirem permanecer na universidade. Em Viseu, esta realidade sente-se tamb\u00e9m, com muitos jovens a dividir o seu tempo entre turnos de trabalho, aulas e estudo.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o levanta-se de forma inevit\u00e1vel: vale a pena estudar quando \u00e9 preciso trabalhar para continuar na universidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Para Maria Vilas Boas, a resposta nunca foi linear. A estudante internacional deixou o Brasil para estudar em Portugal e viu-se obrigada a construir uma nova vida longe da fam\u00edlia, dos amigos e da estabilidade que tinha no pa\u00eds de origem. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil pegar na tua vida, colocar numa mala de 23 quilos, apanhar um voo de dez horas e come\u00e7ar do zero, sozinha, num pa\u00eds onde n\u00e3o conheces ningu\u00e9m\u201d, admite.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a mudan\u00e7a trouxe desafios que a jovem n\u00e3o antecipava. A necessidade de trabalhar para conseguir sustentar-se rapidamente passou a fazer parte da rotina. Conciliar o emprego com os hor\u00e1rios universit\u00e1rios revelou-se uma tarefa dif\u00edcil&nbsp; e por vezes, quase imposs\u00edvel. \u201cOs hor\u00e1rios da universidade n\u00e3o s\u00e3o muito compat\u00edveis para quem trabalha. Tens aulas praticamente o dia inteiro e um trabalho tamb\u00e9m ocupa o dia inteiro. \u00c9 realmente muito dif\u00edcil conciliar\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A press\u00e3o chegou a ter consequ\u00eancias no percurso acad\u00e9mico. Durante o segundo ano, Maria Vilas Boas reduziu drasticamente o n\u00famero de cadeiras conclu\u00eddas, incapaz de acompanhar a exig\u00eancia do curso enquanto trabalhava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, o impacto n\u00e3o se limita \u00e0s notas. Existe tamb\u00e9m uma outra dimens\u00e3o da vida universit\u00e1ria que, para trabalhadores-estudantes, muitas vezes fica por viver. Enquanto colegas participam em semanas acad\u00e9micas, cortejos, jantares de curso ou simples momentos de conv\u00edvio, quem trabalha enfrenta escolhas dif\u00edceis entre descanso e vida social. \u201c\u00c0s vezes tens de escolher entre ser jovem ou descansar, porque no dia seguinte tens de trabalhar outra vez\u201d, desabafa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h5>\u201cQuem trabalha tem de estudar o dobro.\u201d<\/h5>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/A\u0301udio-2-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia frequente das aulas pode tamb\u00e9m gerar incompreens\u00e3o. Nem sempre existe empatia para quem tem estatuto de trabalhador-estudante. \u201c\u00c0s vezes pedes ajuda ou perguntas o que foi dado na aula e ningu\u00e9m responde. Algumas pessoas pensam que faltaste porque quiseste, mas n\u00e3o entendem que estavas a trabalhar\u201d, explica. \u201cQuem trabalha tem de estudar o dobro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta realidade n\u00e3o pertence apenas aos estudantes mais jovens. Jo\u00e3o Pedro Micaela, atualmente com 50 anos, concluiu em 2024 o curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social. Durante tr\u00eas anos, conciliou o curso com um trabalho exigente, vida familiar e outras responsabilidades pessoais. Desde o in\u00edcio, tinha um objetivo bem definido: concluir a licenciatura no tempo previsto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/A\u0301udio-3-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>Nem tudo correu como esperava. Uma das experi\u00eancias que mais o marcou aconteceu quando recebeu a primeira nota negativa do curso. \u201cFoi marcante, porque eu n\u00e3o estava habituado a negativas. A partir da\u00ed consegui perceber que n\u00e3o era um super-homem\u201d, admite. \u201cTive de reajustar os objetivos e perceber que n\u00e3o conseguia atingir tudo ao mesmo tempo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/A\u0301udio-4-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar das dificuldades, desistir nunca foi uma hip\u00f3tese. Jo\u00e3o Pedro organizou os dias de forma rigorosa para conseguir assistir ao maior n\u00famero de aulas poss\u00edvel. \u201cLevantava-me \u00e0s seis da manh\u00e3 para estar nas aulas \u00e0s oito e meia e depois seguia para o trabalho. O meu compromisso era assistir a pelo menos 90% das aulas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O esfor\u00e7o, garante, compensou. Mais do que um diploma, encontrou inspira\u00e7\u00e3o nos professores e uma nova forma de olhar para o conhecimento. \u201cConheci professores que s\u00e3o a minha inspira\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os verdadeiros influencers, porque influenciam pelo conhecimento\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das diferen\u00e7as de idade, experi\u00eancias e percursos, Maria Vilas Boas e Jo\u00e3o Pedro Micaela partilham algo em comum: ambos tiveram de abdicar de tempo, descanso e vida pessoal para continuar a estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Maria, a saudade da fam\u00edlia continua a ser uma das maiores dificuldades. \u201cOs meus pais n\u00e3o tiveram esta oportunidade e eu valorizo muito isso. Quero dar orgulho \u00e0 minha fam\u00edlia e provar que todo este sacrif\u00edcio valeu a pena&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/A\u0301udio-5-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Jo\u00e3o Pedro Micaela deixa uma mensagem clara para quem vive hoje a mesma realidade: n\u00e3o desistir. \u201cCom foco e organiza\u00e7\u00e3o consegue-se ultrapassar estas dificuldades. O conhecimento \u00e9 \u00fatil para qualquer trabalho que fa\u00e7amos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre noites mal dormidas, hor\u00e1rios apertados e escolhas dif\u00edceis, estudar enquanto se trabalha, continua a ser um percurso exigente. Mas, para muitos trabalhadores-estudantes, desistir pesa mais do que continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez n\u00e3o exista uma resposta universal para a pergunta \u201cvale a pena estudar quando \u00e9 preciso trabalhar para continuar na universidade?\u201d. Mas para quem continua a trocar descanso por um diploma, a resposta parece construir-se todos os dias. Entre turnos, salas de aula e a esperan\u00e7a de um futuro melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o oito da manh\u00e3 e o turno acabou h\u00e1 poucos minutos. 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