{"id":22238,"date":"2026-06-25T18:27:55","date_gmt":"2026-06-25T18:27:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22238"},"modified":"2026-06-25T18:27:57","modified_gmt":"2026-06-25T18:27:57","slug":"memorias-de-uma-geracao-historias-de-vida-num-lar-de-idosos-em-viseu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22238","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de uma gera\u00e7\u00e3o: hist\u00f3rias de vida num lar de idosos em Viseu"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>H\u00e1 vidas inteiras escondidas atr\u00e1s das portas de um lar de idosos. Vidas feitas de emigra\u00e7\u00e3o, amores, perdas, pobreza, sonhos adiados e mem\u00f3rias que continuam vivas apesar da passagem do tempo. Entre corredores silenciosos, o som de fundo da televis\u00e3o e rotinas aparentemente simples, existem hist\u00f3rias que merecem ser ouvidas.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por:<\/strong> <strong>Isa Medeiros<\/strong> (aluna do 1\u00baano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>Em Viseu, um grupo de idosos partilhou mem\u00f3rias de uma gera\u00e7\u00e3o marcada pelo sacrif\u00edcio, mas tamb\u00e9m pela resili\u00eancia. Hist\u00f3rias essas que revelam que envelhecer n\u00e3o significa deixar de sentir, recordar ou amar.<\/p>\n\n\n\n<p>Josefina \u00e9 uma dessas hist\u00f3rias, um exemplo de uma vida de dor, mas tamb\u00e9m de muita f\u00e9. Fala do marido e dos filhos como quem ainda os sente presentes em cada momento do seu ser. A voz treme quando recorda a fam\u00edlia e os olhos enchem-se de brilho ao falar daqueles que marcaram a sua vida. &#8220;Os meus filhos e o meu marido roubaram o meu cora\u00e7\u00e3o&#8221;, confessa. As fotografias acompanham-na diariamente, e \u00e9 no quarto que mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria deles. &#8220;Tenho-os no quarto, as fotografias deles, de manh\u00e3 dou-lhes os bons dias e de noite as boas noites&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que recordar, Josefina parece conversar diariamente com o passado. As mem\u00f3rias transformaram-se numa companhia silenciosa que lhe ameniza a saudade e lhe d\u00e1 conforto nos dias mais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre hist\u00f3rias da sua juventude, do casamento e da forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, fala com ternura e coragem de uma vida marcada pelo amor e pela saudade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m Margarida Sousa, de 87 anos, carrega uma vida inteira de mem\u00f3rias e aprendizagens. Cresceu numa fam\u00edlia humilde, numa altura em que as dificuldades econ\u00f3micas faziam parte do quotidiano. Ainda assim, recorda a inf\u00e2ncia como um tempo feliz, marcado pela uni\u00e3o familiar e pelos ensinamentos dos pais. &#8220;Os meus pais nunca nos esconderam as dificuldades&#8221;, lembra. Desde pequena aprendeu a lidar com o trabalho e o sacrif\u00edcio. Entre costuras, rendas, trabalhos dom\u00e9sticos e pequenas tarefas do dia a dia, foi crescendo com a consci\u00eancia de que tudo exigia esfor\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar das dificuldades, nunca lhes faltou carinho nem sentido de uni\u00e3o. A inf\u00e2ncia no Alentejo deixou marcas profundas. Margarida recorda os tempos em que a fam\u00edlia cultivava alimentos no quintal, criava galinhas e aproveitava tudo o que tinha para sobreviver. &#8220;Nunca tivemos fome&#8221;, afirma com orgulho, recordando a capacidade da m\u00e3e de transformar pouco em muito. Ao longo da vida enfrentou perdas dif\u00edceis, incluindo a morte do marido e v\u00e1rios problemas de sa\u00fade que acabaram por lev\u00e1-la ao lar. Ainda assim, recusa a entregar-se \u00e0 tristeza. Aos quase 88 anos, continua ativa, independente e sempre dispon\u00edvel para ajudar quem precisa. &#8220;Fui feliz, e continuo a ser&#8221;, afirma com serenidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No lar encontrou uma nova rotina, novas amizades e uma nova forma de perten\u00e7a. Participa nas atividades, ajuda noutras tarefas e faz quest\u00e3o de manter a autonomia enquanto consegue.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o Ant\u00f3nio Rodrigues carrega no olhar a dureza de uma vida marcada pelo trabalho \u00e1rduo. Numa fam\u00edlia numerosa de 8 irm\u00e3os, cresceu num tempo em que, como ele pr\u00f3prio descreve, &#8220;passava-se muita fome&#8221;. Ainda jovem abandonou os estudos, por se sentir inferior aos seus colegas mais privilegiados. &#8220;Fui arrancar pedras&#8221;, conta, resumindo em poucas palavras uma juventude marcada pelo esfor\u00e7o. Trabalhou nas obras, combateu na Guerra Colonial em Mo\u00e7ambique e passou 15 anos emigrado na Su\u00ed\u00e7a. Nunca casou. Diz que o sonho da sua juventude era simples: &#8220;O meu sonho era ter uma casa.&#8221; Hoje, aos 74 anos, vive rodeado de livros, jornais e mem\u00f3rias.&nbsp; A leitura tornou-se um dos seus maiores ref\u00fagios. Ant\u00f3nio fala dos jornais com um entusiasmo quase juvenil e admite que continua a sentir ansiedade \u00e0 espera do jornal desportivo de cada dia. &#8220;O jornal para mim \u00e9 uma alegria&#8221;, confessa.<\/p>\n\n\n\n<p>Apaixonado por desporto e benfiquista assumido, encontra na leitura uma companhia constante dentro do lar. Mas, acima de tudo, h\u00e1 algo que define a sua personalidade: a liberdade. &#8220;Prezo muito a minha liberdade&#8221;, diz com convic\u00e7\u00e3o. Entre hist\u00f3rias de inf\u00e2ncia, emigra\u00e7\u00e3o e solid\u00e3o, mant\u00e9m um orgulho silencioso em tudo o que construiu ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias destes residentes cruzam-se diariamente com o trabalho daqueles que cuidam deles.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-3 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-768x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"22354\" data-full-url=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?attachment_id=22354\" class=\"wp-image-22354\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53.jpeg 1152w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-3-768x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"22353\" data-full-url=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-3.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?attachment_id=22353\" class=\"wp-image-22353\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-3-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-3-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-3.jpeg 1152w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-2-768x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"22352\" data-full-url=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-2.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?attachment_id=22352\" class=\"wp-image-22352\" srcset=\"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-2-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-24-at-18.55.53-2.jpeg 1152w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Helena Moreira, funcion\u00e1ria da institui\u00e7\u00e3o, trabalhar num lar vai muito al\u00e9m das tarefas do dia a dia. &#8220;Ainda hoje lhes trouxe cerejas e ver a felicidade estampada no rosto deles, fez o meu dia&#8221;, diz emocionada. Para Helena este \u00e9 um exemplo de pura gratifica\u00e7\u00e3o e pelo qual vale a pena trabalhar nesta \u00e1rea h\u00e1 tantos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a enfermeira \u00c2ngela Matos admite que os la\u00e7os criados com os residentes acabam por deixar marcas profundas em quem trabalha na \u00e1rea. Entre cuidados m\u00e9dicos, conversas e pequenos gestos de aten\u00e7\u00e3o criam-se rela\u00e7\u00f5es que muitas vezes se aproximam das familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo cada vez mais acelerado, onde o envelhecimento \u00e9 frequentemente associado \u00e0 solid\u00e3o, estas hist\u00f3rias lembram que cada idoso continua a carregar sonhos, medos, amores e lembran\u00e7as. Porque envelhecer n\u00e3o apaga quem fomos. E porque existem hist\u00f3rias que o tempo nunca conseguir\u00e1 apagar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 vidas inteiras escondidas atr\u00e1s das portas de um lar de idosos. 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