{"id":22235,"date":"2026-07-02T19:06:32","date_gmt":"2026-07-02T19:06:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22235"},"modified":"2026-07-02T19:07:13","modified_gmt":"2026-07-02T19:07:13","slug":"quatro-meses-depois-habitantes-aprendem-a-viver-depois-da-tempestade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22235","title":{"rendered":"Quatro meses depois: habitantes [ainda] aprendem a viver depois da tempestade"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Passaram quatro meses desde a passagem da tempestade Kristin pelo distrito de Leiria, mas em freguesias como Amor e Monte Real os sinais da destrui\u00e7\u00e3o continuam presentes. Apesar de muitas ruas terem recuperado a normalidade e de grande parte dos estragos mais urgentes j\u00e1 terem sido reparados, ainda existem habita\u00e7\u00f5es em reconstru\u00e7\u00e3o, fam\u00edlias \u00e0 espera de apoios e mem\u00f3rias dif\u00edceis de apagar. Ao percorrer algumas das localidades mais afetadas, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar telhados recentemente reparados, estruturas reconstru\u00eddas e terrenos que demoraram semanas a recuperar dos efeitos da tempestade. Para muitos habitantes, a recupera\u00e7\u00e3o material est\u00e1 em andamento, mas o impacto emocional permanece.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Jo\u00e3o Fel\u00edcia<\/strong> (aluno do 1\u00ba ano de comunica\u00e7\u00e3o social)<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro meses depois, a grande batalha j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 contra o clima, mas contra o tempo de resposta institucional. Das 800 habita\u00e7\u00f5es mais fustigadas, foram validados e submetidos 480 pedidos de apoio financeiro ao Estado nas instala\u00e7\u00f5es da Junta de Freguesia, um processo que contou com o apoio direto dos funcion\u00e1rios locais e de t\u00e9cnicos da Ag\u00eancia para o Desenvolvimento e Coes\u00e3o (ADC), que se deslocaram ao terreno. No entanto, o cen\u00e1rio atual \u00e9 de desilus\u00e3o e incerteza para a maioria das fam\u00edlias. <\/p>\n\n\n\n<p>Dos 480 processos submetidos, apenas cerca de 150 foram aprovados at\u00e9 \u00e0 data. Isto significa que existem, pelo menos, 230 candidaturas pendentes que aguardam uma resposta definitiva das autoridades, deixando dezenas de agregados familiares num impasse financeiro para concluir as obras nas suas casas. Apesar das dificuldades e da lentid\u00e3o burocr\u00e1tica, a tempestade revelou a resili\u00eancia de uma comunidade que se reergueu atrav\u00e9s da entreajuda. Volunt\u00e1rios, vizinhos e associa\u00e7\u00f5es locais foram os primeiros a responder ao vazio inicial, garantindo que ningu\u00e9m ficasse totalmente desamparado. Quatro meses depois, a eletricidade regressou \u00e0s casas, as estradas voltaram a abrir e a maioria dos servi\u00e7os foi restabelecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na madrugada de 28 de janeiro, ventos extremamente fortes provocaram danos em habita\u00e7\u00f5es, infraestruturas e espa\u00e7os p\u00fablicos, deixando centenas de pessoas sem eletricidade, \u00e1gua e comunica\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Em Monte Real, uma das zonas mais atingidas, os moradores ainda recordam com nitidez as horas de medo vividas naquela noite. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma residente, que preferiu n\u00e3o ser identificada, lembra-se do momento em que percebeu que algo anormal estava a acontecer. \u201cPor volta das tr\u00eas da manh\u00e3 come\u00e7ou-se a ouvir muito vento. Um vento que n\u00e3o era normal.\u201d O ru\u00eddo intenso e a for\u00e7a do vento rapidamente fizeram perceber que n\u00e3o se tratava de uma noite comum. A moradora conta que acordou com a filha e que, a partir desse momento, ningu\u00e9m voltou a dormir. \u201cFoi assustador. Confesso que deu medo.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois come\u00e7aram os estragos. Uma chamin\u00e9 caiu, o telhado foi arrancado pelo vento, muros desabaram e port\u00f5es foram projetados para longe. Sem saber a verdadeira dimens\u00e3o do fen\u00f3meno, acreditou inicialmente que os danos estavam limitados \u00e0 sua propriedade. S\u00f3 ao amanhecer percebeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c0s oito da manh\u00e3 \u00e9 que se teve a dimens\u00e3o dos estragos.\u201d Ao tentar sair de casa encontrou \u00e1rvores ca\u00eddas, estradas bloqueadas e cabos espalhados pelo ch\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o estendia-se muito para al\u00e9m da sua rua. Nos dias seguintes, a prioridade passou por remover destro\u00e7os, proteger os bens que restavam e procurar abrigo tempor\u00e1rio. A chuva que se seguiu agravou ainda mais a situa\u00e7\u00e3o para quem tinha perdido o telhado. Mas os preju\u00edzos materiais n\u00e3o foram a \u00fanica consequ\u00eancia. O impacto emocional revelou-se igualmente profundo. \u201cAs primeiras duas semanas acho que a minha adrenalina estava toda l\u00e1 em cima.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Entre a preocupa\u00e7\u00e3o com os familiares, os animais e a recupera\u00e7\u00e3o dos estragos, n\u00e3o houve tempo para processar o que tinha acontecido. Apenas semanas depois surgiu a verdadeira consci\u00eancia da perda. \u201cAo fim da terceira semana foi quando me apercebi que n\u00e3o tinha casa.\u201d Al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o causada pela tempestade, os habitantes tiveram de enfrentar a falta de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Muitas fam\u00edlias viveram semanas sem eletricidade, \u00e1gua ou acesso \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es. \u201cTr\u00eas semanas sem luz, duas semanas sem \u00e1gua\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Acostumados ao conforto da vida moderna, muitos moradores sentiram pela primeira vez o que significa viver sem recursos essenciais. \u201cO meu primeiro banho foi uma semana depois.\u201d A simplicidade desse momento transformou-se numa experi\u00eancia marcante. \u201cEu chorei no meio do banho, porque s\u00f3 quando a gente perde as coisas \u00e9 que consegue valoriz\u00e1-las.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m Sara Gon\u00e7alves, residente na freguesia de Amor, guarda mem\u00f3rias dif\u00edceis daquela madrugada. Acordou por volta das quatro e meia da manh\u00e3 devido ao vento forte e saiu para perceber o que estava a acontecer. \u201cVim abrir a porta para ver o que \u00e9 que se passava. \u201cNa altura ainda n\u00e3o era poss\u00edvel perceber totalmente os estragos. Apenas com a chegada da manh\u00e3 descobriu os danos provocados na sua propriedade. \u201cTinha duas chamin\u00e9s partidas e parte do telhado destru\u00eddo. \u201dOs preju\u00edzos obrigaram \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o praticamente total da cobertura da habita\u00e7\u00e3o, um processo que envolveu custos elevados e v\u00e1rias semanas de trabalho. \u201cTive que mudar o telhado todo. \u201d Apesar de ter recebido apoio financeiro para ajudar na recupera\u00e7\u00e3o dos danos, Sara admite que os efeitos psicol\u00f3gicos continuam presentes. \u201cAgora n\u00e3o podemos ver um ventinho, parece que \u00e9 uma ventania.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro meses depois, muitas das marcas f\u00edsicas da tempestade come\u00e7am a desaparecer, mas os n\u00fameros e os relatos na primeira pessoa revelam a verdadeira dimens\u00e3o do impacto que a Kristin teve na regi\u00e3o. Segundo Levi Bolacha, jornalista, coordenador do <em>Jornal Amor Mais<\/em> e colaborador da Junta de Freguesia de Amor na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o, os problemas na regi\u00e3o come\u00e7aram antes mesmo daquela madrugada tr\u00e1gica. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O problema n\u00e3o come\u00e7ou no dia 28, o problema tinha come\u00e7ado no dia 27 com o dique do rio que tinha rebentado e que j\u00e1 tinha inundado os campos&#8221;, explica. Passada uma semana, o dique voltou a ceder noutro local, agravando as cheias. O pr\u00f3prio jornalista viveu na pele as consequ\u00eancias do temporal, servindo de exemplo para a realidade de centenas de vizinhos. &#8220;A minha casa precisou de cerca de 200 telhas. Como o antigo propriet\u00e1rio tinha deixado cerca de 250 telhas, eu tinha o material e consegui tapar a casa, mas s\u00f3 ao terceiro dia. Tive dois dias em que me choveu dentro, em que tive inunda\u00e7\u00f5es e estragos&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria das pessoas, Levi n\u00e3o teve de procurar material, mas dedicou os primeiros dias a ajudar a comunidade antes de conseguir proteger a sua pr\u00f3pria habita\u00e7\u00e3o. &#8220;De s\u00e1bado a quarta-feira andava pelas ruas a ver o estado das casas e das estradas, e eu n\u00e3o cheguei a contabilizar 50 casas que n\u00e3o tivessem algum tipo de estrago&#8221;, conta. <\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros dias ap\u00f3s a tempestade foram marcados por uma forte mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e por uma mudan\u00e7a radical na estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda semana ap\u00f3s a cat\u00e1strofe, a C\u00e2mara Municipal disponibilizou um <em>starlink internet<\/em> na Junta de Freguesia. &#8220;Come\u00e7\u00e1mos a tentar comunicar atrav\u00e9s do Facebook, depois percebemos que o Facebook n\u00e3o estava a funcionar, e foi quando eu criei o grupo do WhatsApp com literalmente todos os contactos que tinha das pessoas da freguesia, pedindo para adicionarem mais gente&#8221;, recorda Levi Bolacha. <\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo inicial era partilhar informa\u00e7\u00f5es cruciais sobre o estado das estradas, \u00e1gua, eletricidade e comunica\u00e7\u00f5es, mas a plataforma rapidamente se transformou numa rede p\u00fablica de solidariedade. &#8220;Ao faz\u00ea-lo de uma maneira p\u00fablica, esper\u00e1vamos que os vizinhos pudessem ver que algu\u00e9m a 20 ou 100 metros estava a precisar de ajuda para tapar um telhado e fossem l\u00e1 ajudar&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, a C\u00e2mara Municipal montou um armaz\u00e9m solid\u00e1rio a partir do segundo ou terceiro dia. Inicialmente, os colaboradores da junta deslocavam-se a Leiria para recolher grandes quantidades de lonas para distribuir localmente, poupando o esfor\u00e7o de desloca\u00e7\u00e3o a quem n\u00e3o tinha meios. Com a chegada de doa\u00e7\u00f5es diretas, a Junta de Freguesia criou espa\u00e7os pr\u00f3prios para armazenar e distribuir telhas, cimento, tijolos, bens alimentares, roupa de cama e mobili\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta opera\u00e7\u00e3o log\u00edstica foi feita com base na confian\u00e7a m\u00fatua e na urg\u00eancia do momento. &#8220;O princ\u00edpio era fazer o bem sem olhar a quem&#8221;, destaca o jornalista.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pod\u00edamos dar-nos ao luxo de fazer uma fiscaliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via se as pessoas precisavam efetivamente ou n\u00e3o daquilo que pediam. T\u00ednhamos de confiar nas pessoas porque n\u00e3o t\u00ednhamos meios tecnol\u00f3gicos nem capacidade alguma de fazer vistorias e ajudar em tempo \u00fatil&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Os dados consolidados pela Junta de Freguesia ajudam a desenhar o mapa da cat\u00e1strofe. Na freguesia de Amor, cerca de 500 hectares de terrenos agr\u00edcolas permaneceram inundados durante mais de um m\u00eas. Das cerca de 350 estradas da freguesia, pelo menos metade ficou completamente intransit\u00e1vel nas primeiras 12 a 24 horas. <\/p>\n\n\n\n<p>Durante a primeira semana, a circula\u00e7\u00e3o normal era quase imposs\u00edvel: &#8220;O habitual era uma das faixas dar para passar e a outra ter um posto de eletricidade partido ou um cabo de telecomunica\u00e7\u00f5es no ch\u00e3o&#8221;. Pelo menos cinco ou seis ruas enfrentaram inunda\u00e7\u00f5es severas, permanecendo encerradas por cerca de duas semanas. Das aproximadamente 1200 habita\u00e7\u00f5es da freguesia de Amor, Levi Bolacha estima que pelo menos 800 tenham sofrido danos severos e complicados, enquanto outras 100 a 200 registaram danos mais leves, como a perda de escassos metros de telha.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, para quem viveu a tempestade, a recupera\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 longe do fim. Entre obras por concluir, apoios retidos e recorda\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de esquecer, a Kristin continua presente no quotidiano da regi\u00e3o. Uma das entrevistadas resume essa experi\u00eancia numa frase simples, mas marcante: \u201cNaquela madrugada senti-me uma folha ao vento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma imagem que traduz n\u00e3o apenas a for\u00e7a da tempestade, mas tamb\u00e9m a vulnerabilidade das pessoas perante fen\u00f3menos naturais extremos. Ainda assim, os testemunhos recolhidos mostram igualmente a capacidade de resist\u00eancia e recupera\u00e7\u00e3o das comunidades que, quatro meses depois, continuam a reconstruir as suas vidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passaram quatro meses desde a passagem da tempestade Kristin pelo distrito de Leiria, mas em freguesias como Amor e Monte<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":22294,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5153,11],"tags":[503,5254],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22235"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22540,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22235\/revisions\/22540"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}