{"id":22230,"date":"2026-06-26T11:11:04","date_gmt":"2026-06-26T11:11:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22230"},"modified":"2026-06-26T11:11:06","modified_gmt":"2026-06-26T11:11:06","slug":"caes-na-lama-com-a-promessa-de-um-futuro-de-ferro-o-retrato-da-protecao-animal-na-chamusca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22230","title":{"rendered":"C\u00e3es na lama, com a promessa de um futuro de ferro: O retrato da prote\u00e7\u00e3o animal na Chamusca"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>S\u00e3o dez da manh\u00e3 quando chegamos ao abrigo da Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos dos Animais e do Ambiente da Chamusca. Os nossos olhos veem grades de metal enferrujadas a fechar boxes de cimento azul, antigas cabanas de madeira remendadas e pequenas casotas cobertas com lonas verdes e cobertores velhos. Ouve-se logo ao longe o latir incessante de dezenas de c\u00e3es que espreitam por tr\u00e1s das redes, ao lado de tigelas de ra\u00e7\u00e3o. \u00c9 neste ambiente duro e de muito improviso que se tenta salvar animais no concelho ribatejano.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Diogo Pinto <\/strong>(aluno do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>A prote\u00e7\u00e3o animal na Chamusca vive entre duas realidades que, por agora, parecem pertencer a mundos distintos. De um lado ergue-se a promessa da constru\u00e7\u00e3o de um Centro de Recolha Oficial de Animais (CROA), assente no seu bem-estar, na socializa\u00e7\u00e3o e na sua reabilita\u00e7\u00e3o. Do outro, no terreno, a dura realidade de quem luta h\u00e1 d\u00e9cadas num abrigo prec\u00e1rio, enfrentando o abandono di\u00e1rio, a sobrelota\u00e7\u00e3o e os custos dos tratamentos m\u00e9dicos. O desafio do concelho ribatejano vai muito al\u00e9m de dar um teto a c\u00e3es e gatos: exige uma mudan\u00e7a estrutural e urgente na mente de quem adota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 canis nem donos suficientes para tanto animal. Hoje em dia ter um animal \u00e9 uma enorme responsabilidade, mas as pessoas n\u00e3o pensam minimamente se t\u00eam capacidade ou espa\u00e7o\u201d. O desabafo reflete o sentimento de Teresa Gomes, figura incontorn\u00e1vel da prote\u00e7\u00e3o animal na Chamusca e presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos dos Animais e do Ambiente da Chamusca. H\u00e1 22 anos na linha da frente, 16 dos quais no atual espa\u00e7o do canil e na associa\u00e7\u00e3o, dedica o seu tempo e grande parte do seu or\u00e7amento pessoal a resgatar e tratar animais errantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A rotina no atual espa\u00e7o de acolhimento exige uma resili\u00eancia fora do comum. O espa\u00e7o escasseia e as condi\u00e7\u00f5es ditadas pelo clima, com lama profunda e frio cortante no inverno, e um calor asfixiante no ver\u00e3o, testam diariamente os limites de quem l\u00e1 trabalha. A introdu\u00e7\u00e3o de um novo c\u00e3o no abrigo \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o de risco que acarreta sempre a possibilidade de ataques mortais em matilha, fruto da defesa instintiva do territ\u00f3rio. \u201cLidar com c\u00e3es abandonados, traumatizados e doentes \u00e9 uma realidade completamente diferente. Se a pessoa n\u00e3o criar defesas, n\u00e3o aguenta\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi precisamente munida dessa armadura emocional que Teresa conseguiu salvar casos que pareciam n\u00e3o ter retorno. Recorda com orgulho o resgate de um c\u00e3o que chegou ao canil \u201cem pele e osso\u201d, incapaz sequer de se p\u00f4r de p\u00e9 devido \u00e0 fraqueza, e que hoje \u00e9 um animal \u201cgordalhudo\u201d e saud\u00e1vel. Mais dram\u00e1tico foi o caso de um c\u00e3o proveniente da Resitejo, baleado violentamente com um zagalote. O animal ficou aberto da cabe\u00e7a \u00e0 cauda e precisou de levar 130 pontos. \u201cCheguei a estar aqui com ele at\u00e9 \u00e0 uma da manh\u00e3, a dar-lhe soro e medica\u00e7\u00e3o. Recuperar aquele c\u00e3o e v\u00ea-lo a ser adotado foi uma alegria indescrit\u00edvel\u201d, relembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, por vezes, a armadura tamb\u00e9m cede. \u201cUma vez ia recolher um c\u00e3o, o Faruque, e ele agarrou-se \u00e0s minhas pernas a chorar. Eu vi, literalmente as l\u00e1grimas a ca\u00edrem-lhe pela cara. N\u00e3o aguentei e tive de o levar para minha casa\u201d, partilha com emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros associados ao abandono pintam um cen\u00e1rio sombrio, apenas no ano de 2024, e apenas no distrito de Santar\u00e9m, as associa\u00e7\u00f5es e canis recolheram cerca de 7.900 c\u00e3es. Para Teresa, o grande motor deste flagelo, para al\u00e9m das f\u00e9rias e da falta de tempo, \u00e9 estritamente financeiro. Adotar um cachorro \u00e9 um ato apelativo, mas a falta de planeamento cobra o seu pre\u00e7o. \u201cAs pessoas adotam e pensam que nunca vai acontecer nada de mal. Depois, o c\u00e3o fica coxo ou desenvolve um abcesso, v\u00e3o ao veterin\u00e1rio, fazem exames e levam medica\u00e7\u00e3o, e a conta chega facilmente aos 300 ou 400 euros. Quem tem ordenado m\u00ednimo n\u00e3o consegue pagar isso num s\u00f3 m\u00eas e acabam por larg\u00e1-lo\u201d, lamenta. A situa\u00e7\u00e3o agrava-se drasticamente com a incid\u00eancia de doen\u00e7as na regi\u00e3o como a leishmaniose, cujos tratamentos vital\u00edcios podem ascender a quase mil euros.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a alarmante aus\u00eancia de microchips, que n\u00e3o existem em cerca de 90 % dos animais recolhidos na zona, o que impossibilita a responsabiliza\u00e7\u00e3o dos tutores ou a devolu\u00e7\u00e3o de c\u00e3es que fogem apavorados com fogos de artif\u00edcio, a solu\u00e7\u00e3o tem de passar pela preven\u00e7\u00e3o. \u201cSe investirem na esteriliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisam de tantos canis\u201d, sublinha. A sua matem\u00e1tica \u00e9 implac\u00e1vel: uma \u00fanica gata n\u00e3o esterilizada e a sua descend\u00eancia podem gerar mil gatos na rua em apenas dois anos. Foi este sentido de urg\u00eancia que a levou a esterilizar, \u00e0 sua custa, 401 animais num espa\u00e7o de cinco meses.<\/p>\n\n\n\n<p>A esperan\u00e7a institucional para atenuar esta crise est\u00e1 agora projetada para o Ecoparque do Relv\u00e3o, o local selecionado pela C\u00e2mara Municipal da Chamusca para a constru\u00e7\u00e3o do CROA. Apesar da obra somar 12 anos de promessas e de sofrer atrasos significativos (a expectativa inicial era de que a obra estivesse conclu\u00edda at\u00e9 final de junho deste ano), o novo projeto delineado com a ajuda do engenheiro de produ\u00e7\u00e3o animal, M\u00e1rio Pereira, ir\u00e1 come\u00e7ar a ser constru\u00eddo neste m\u00eas de junho e ambiciona revolucionar o acolhimento no concelho.<\/p>\n\n\n\n<p>O respons\u00e1vel garante que a infraestrutura rejeita a l\u00f3gica de um \u201cdep\u00f3sito de animais\u201d. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o r\u00e1pida suportada por uma estrutura de ferro simples. O centro ter\u00e1 um pavilh\u00e3o multiesp\u00e9cie obrigat\u00f3rio, preparado para acolher animais de grande porte como cavalos, al\u00e9m de uma enfermaria de isolamento, blocos de cirurgia, morgue e balne\u00e1rios de higieniza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria para a equipa, prevenindo o cont\u00e1gio de zoonoses (doen\u00e7as transmiss\u00edveis entre animais e humanos). E as viaturas ter\u00e3o uma zona de lavagem com escoamento centralizado exclusivo para evitar contamina\u00e7\u00f5es de solos exteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em paralelo, existir\u00e1 um gatil de tr\u00eas boxes a operar com o programa CED (Captura, Esteriliza\u00e7\u00e3o e Devolu\u00e7\u00e3o). Nas col\u00f3nias de rua, ser\u00e3o instalados abrigos vedados de tr\u00eas por tr\u00eas metros, acess\u00edveis apenas a felinos e protegidos de c\u00e3es errantes, onde cuidadores volunt\u00e1rios poder\u00e3o assegurar a alimenta\u00e7\u00e3o e monitoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande revolu\u00e7\u00e3o do CROA passar\u00e1, no entanto, pela reabilita\u00e7\u00e3o comportamental. \u201cO nosso objetivo n\u00e3o \u00e9 ter animais imobilizados em perman\u00eancia, mas sim socializ\u00e1-los\u201d, explica M\u00e1rio Pereira. Para o efeito, foram desenhados tr\u00eas recreios centrais. Diariamente, num sistema rotativo, os c\u00e3es passar\u00e3o horas em liberdade, convivendo com os tratadores e aprendendo comandos de obedi\u00eancia b\u00e1sica atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas de refor\u00e7o positivo. A meta \u00e9 garantir que as fam\u00edlias adotantes encontrem animais equilibrados, serenos e prontos a integrar um novo lar.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de se movimentarem em palcos distintos, a vis\u00e3o do planeamento t\u00e9cnico de M\u00e1rio Pereira e a experi\u00eancia de Teresa Gomes, ambos convergem no ponto mais nevr\u00e1lgico: a infraestrutura ser\u00e1 in\u00fatil sem um esfor\u00e7o cont\u00ednuo na educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo CROA n\u00e3o poder\u00e1 servir como um local de despejo. \u201cTer um animal n\u00e3o \u00e9 de borla. Queremos ensinar o \u201cb\u00ea-\u00e1-b\u00e1\u201d de ser um tutor respons\u00e1vel\u201d, remata M\u00e1rio Pereira, relembrando o sucesso que a aposta nas redes sociais tem tido na promo\u00e7\u00e3o de ado\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 levaram c\u00e3es ribatejanos para Cascais ou Algarve.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a estrutura de ferro n\u00e3o se ergue para dar dignidade aos animais da Chamusca, nas trincheiras da associa\u00e7\u00e3o o trabalho n\u00e3o \u00e9 para um \u00fanico dia. A verdadeira prote\u00e7\u00e3o animal n\u00e3o \u00e9 garantida apenas por edif\u00edcios ou promessas pol\u00edticas: come\u00e7a muito antes, no exato instante em que algu\u00e9m decide abrir as portas de casa a um companheiro para toda a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o dez da manh\u00e3 quando chegamos ao abrigo da Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos dos Animais e do Ambiente da Chamusca. 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