{"id":22228,"date":"2026-06-26T11:27:41","date_gmt":"2026-06-26T11:27:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22228"},"modified":"2026-06-26T11:27:43","modified_gmt":"2026-06-26T11:27:43","slug":"a-saudade-do-passado-e-a-dureza-do-presente-o-retrato-da-solidao-de-fraguas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/?p=22228","title":{"rendered":"A saudade do passado e a dureza do presente: o retrato da solid\u00e3o de Fr\u00e1guas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>A solid\u00e3o faz parte da realidade de muitas\u00a0\u00a0aldeias presentes em Portugal,\u00a0e\u00a0Fr\u00e1guas, uma povoa\u00e7\u00e3o portuguesa do munic\u00edpio de Vila Nova de Paiva,\u00a0em Viseu,\u00a0assume-se como uma dessas aldeias. Aqui,\u00a0a\u00a0solid\u00e3o transforma-se no amigo mais pr\u00f3ximo dos habitantes\u00a0que\u00a0entre paisagens e o som da natureza. O\u00a0que insiste em permanecer \u00e9 o vazio e a lembran\u00e7a do que foi e que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9.\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Francisco Bas\u00edlio<\/strong> (aluno do 1\u00ba ano de Comunica\u00e7\u00e3o Social)<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, estima-se que esta localidade tenha menos de 200 habitantes sendo a maior parte deles pessoas mais velhas. Caracteriza-se pelos seus espa\u00e7os verdes, pelas casas pitorescas, pela igreja e principalmente pela praia fluvial que faz renascer a vivacidade nos meses mais quentes.&nbsp;Muitos dos fraguenses nasceram e cresceram na aldeia sendo que, muitos deles,&nbsp;imigraram&nbsp;para Fran\u00e7a nos anos 60,&nbsp;mas voltaram depois \u00e0s suas origens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma certa nostalgia pelo passado que faz muitas vezes reavivar o gosto pela vida. Celestino Martins Silva, reformado,&nbsp;afirma, sentado numa pedra \u00e0 sa\u00edda da sua casa e na companhia de tr\u00eas c\u00e3es que&nbsp;\u201ca aldeia quando era mais novo era diferente, muito diferente do que agora\u201d. Rosa Esperan\u00e7a, antiga&nbsp;emigrante na Fran\u00e7a, confessa que voltou&nbsp;\u00e0 aldeia&nbsp;por sentir saudades e querer estar pr\u00f3xima de onde tinha nascido. Depois de ter passado cerca de 40 anos fora,&nbsp;a \u00fanica esperan\u00e7a que Rosa tem \u00e9 no nome.&nbsp;Afirma que a mudan\u00e7a \u00e9 not\u00e1vel e que tudo se&nbsp;transformou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cN\u00e3o \u00e9 nada como era antigamente, como quando eu emigrei.\u00a0N\u00e3o h\u00e1 quase ningu\u00e9m. Os velhos morrem quase todas as semanas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O lamento \u00e9 de\u00a0Rosa Esperan\u00e7a,\u00a0que est\u00e1\u00a0\u00e0 entrada da igreja, sentada com o seu ter\u00e7o nas m\u00e3os,\u00a0\u201caqui n\u00e3o h\u00e1 nada, estamos desertos\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Relativamente \u00e0 presen\u00e7a de jovens, Rosa refor\u00e7a que&nbsp;\u201cn\u00e3o h\u00e1 mocidade nenhuma\u201d e que existem poucos jovens. Mesmo os jovens que ainda possam nascer em Fr\u00e1guas, acabam os seus estudos e&nbsp;\u201cest\u00e3o a governar a vida\u201d fora da aldeia. Arminda Duarte Costa, reformada, garante que muitos dos jovens j\u00e1 nasceram fora da localidade. \u201cEles j\u00e1 nasceram l\u00e1, j\u00e1 nem&nbsp;os conhe\u00e7o. S\u00f3 se aparecerem com os pais\u201d, diz Arminda.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se aborda o tema da solid\u00e3o, ela tanto \u00e9 mencionada como quase inexistente ou como uma presen\u00e7a di\u00e1ria na vida destas pessoas. Para Rosa, a solid\u00e3o n\u00e3o a faz sentir sozinha porque muitos dos seus dias s\u00e3o passados a ir&nbsp;\u00e0&nbsp;igreja de Fr\u00e1guas para rezar o ter\u00e7o. No entanto, n\u00e3o deixa de mencionar&nbsp;a solid\u00e3o&nbsp;no resto dos dias,&nbsp;em parte&nbsp;muito porque a fam\u00edlia est\u00e1 fora.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a fam\u00edlia se queixe\u00a0da\u00a0az\u00e1fama a que Rosa\u00a0Esperan\u00e7a muitas vezes se prop\u00f5e, ela reitera que ficar parada em casa o dia todo iria fazer com que o seu fim estivesse mais pr\u00f3ximo, passando os dias a cultivar \u201cumas batatinhas, umas\u00a0cebolas, feij\u00f5es, legumes, para sair um pouco de casa\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os vizinhos tornam-se muitas vezes nos amigos mais pr\u00f3ximos destas pessoas,\u00a0embora as conversas tidas sejam r\u00e1pidas e passageiras. Rosa\u00a0diz que\u00a0no ver\u00e3o os habitantes saem pouco por causa do calor\u00a0e\u00a0\u201cno inverno est\u00e1 frio e chuva\u201d, por isso entret\u00eam-se com a companhia da televis\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cMetemos-mos\u00a0ao cantinho e n\u00e3o se v\u00ea ningu\u00e9m\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta realidade de Rosa torna-se&nbsp;a realidade de muitos. Ao longo das cal\u00e7adas e das ruas, a presen\u00e7a de pessoas era quaseinexistente.&nbsp;Os animais assumiam-se como os donos da localidade, porque no fundo, eram eles que traziam vida \u00e0s ruas desertas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na associa\u00e7\u00e3o&nbsp;local,&nbsp;muitos destes residentes&nbsp;encontram&nbsp;um&nbsp;lugar para conviver e passar o tempo. S\u00e3o poucos os locais onde se&nbsp;junte&nbsp;um grande aglomerado de pessoas. Onde antigamente existiam tr\u00eas caf\u00e9s, agora existe apenas um que \u00e9 frequentado pelas mesmas pessoas e que serve mais de casa de conv\u00edvio do que de um neg\u00f3cio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Fr\u00e1guas vive no fundo da mem\u00f3ria do passado e da vivacidade ef\u00e9mera do presente, vivacidade essa que retorna\u00a0\u00e0\u00a0localidade nos meses de ver\u00e3o e que parte nos meses mais frios.\u00a0\u00a0 Os\u00a0momentos\u00a0em que\u00a0existe mais gente na aldeia s\u00e3o\u00a0no fim de julho e depois no m\u00eas de setembro, mas o mais marcante \u00e9 em agosto, com a festa da aldeia \u201cSobretudo no segundo domingo de agosto, que temos a festa da Nossa\u00a0Senhora. V\u00eam\u00a0de todo lado, emigrantes, v\u00eam todos\u201d, refere Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas destas mem\u00f3rias s\u00e3o trazidas \u00e0 conversa por estas pessoas quando se questiona qual a coisa que gostariam de trazer do antigamente, mas \u00e9 Rosa a que mais refor\u00e7a este sentimento nost\u00e1lgico: \u201ca necessidade&nbsp;de sermos&nbsp;uns&nbsp;para&nbsp;os outros, faz\u00edamos muitos bailes, e&nbsp;n\u00f3s viv\u00edamos&nbsp;alegres, t\u00ednhamos&nbsp;muita fam\u00edlia, est\u00e1vamos todos em fam\u00edlia, agora n\u00e3o. Est\u00e1 tudo cada um por seu&nbsp;lado\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Celestino destaca o lado menos positivo da aldeia, explicando que \u201cexiste&nbsp;sempre uma&nbsp;pessoa que \u00e9 boa e outra com qualquer \u00f3dio, mas isso \u00e9 natural. \u00c9 natural mesmo de&nbsp;todas as aldeias\u201d, Arminda aponta o rio que atravessa a localidade como um ponto positivo. Por sua vez, Rosa&nbsp;considera que&nbsp;\u201ca pior coisa&nbsp;at\u00e9 \u00e9 na religi\u00e3o\u201d. Antigamente a igreja tinha muitas pessoas e \u201cagora n\u00e3o h\u00e1 tanta gente, mas mesmo assim os mais novos n\u00e3o v\u00eam,&nbsp;\u00e9 muito raro. V\u00eam numa festa, v\u00eam no dia de P\u00e1scoa,&nbsp;s\u00e3o cat\u00f3licos e apost\u00f3licos romanos,&nbsp;mas s\u00f3 v\u00eam quando&nbsp;lhes&nbsp;apetece\u201d.&nbsp;&nbsp;Quanto ao melhor ponto da aldeia,&nbsp;Rosa admite que a gente de Fr\u00e1guas \u00e9 \u201cacolhedora para as pessoas que v\u00eam de fora,&nbsp;n\u00e3o h\u00e1 outra como esta\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade de Fr\u00e1guas \u00e9 no fundo a realidade de muitos, como ruas preenchidas de gente d\u00e3o lugar ao vazio e \u00e0 saudade daquilo que n\u00e3o volta. Para os habitantes desta aldeia banhada em cores verdes do arvoredo, n\u00e3o h\u00e1 outra como esta, embora o ressentimento e uma certa tristeza permane\u00e7a&nbsp;dentro de cada um deles. N\u00e3o \u00e9 uma aldeia desabitada, mas certamente caminha para isso, porque quem l\u00e1 vive tende a desaparecer com o passar do tempo. Algo que n\u00e3o muda e que permanece nas hist\u00f3rias contadas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o s\u00e3o as mem\u00f3rias partilhadas e os segredos que cada canto de Fr\u00e1guas guarda a sete chaves.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solid\u00e3o faz parte da realidade de muitas\u00a0\u00a0aldeias presentes em Portugal,\u00a0e\u00a0Fr\u00e1guas, uma povoa\u00e7\u00e3o portuguesa do munic\u00edpio de Vila Nova de<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":22276,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[300,286,76],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22228"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22228"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22398,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22228\/revisions\/22398"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/22276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www1.esev.ipv.pt\/dacomunicacao\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}